Enauta é barata, mas pode ficar ainda mais

Preocupa a governança da ex-Queiroz Galvão Exploração e Produção.

A Queiroz Galvão Exploração e Produção

A Enauta (ENAT) nasceu em 2010, fruto do spin-off da divisão de exploração de petróleo do Grupo Queiroz Galvão.

Já extraindo gás no Campo de Manati, a empresa fez seu IPO no ano seguinte. Até recentemente, a Enauta se chamava QGEP – Queiroz Galvão Exploração e Produção.

Como o negócio de exploração e produção de óleo e gás funciona via consórcios de empresas, ENAT possui uma estrutura enxuta. São apenas 120 funcionários com alta qualificação, para faturar mais de 900 milhões de reais (últimos 12 meses).

O foco da companhia é a produção em alto mar, em águas profundas ou rasas.

A empresa tem, hoje, 2 campos produtivos, Manati (gás) e Atlanta (petróleo). Enauta detém 45 e 50 por cento da participação em cada consórcio, respectivamente.

Mas, a produção em seus campos segue trajetórias inversas.


Mais Atlanta, menos Manati

Em Manati, com reservas se exaurindo, sua produção está em queda.

Produção Manati. Fonte: Enauta

Produção Manati. Fonte: Enauta

Porém, no campo de Atlanta, a produção está em crescimento. Com Manati caindo e Atlanta subindo, Enauta espera produção estável nos próximos anos.

Produção. Fonte: Enauta

Produção. Fonte: Enauta

Além dos 2 ativos em fase produtiva, a companhia possui outros 13 ativos ainda em fase exploratória (não estão em produção). O campo de Sergipe-Alagoas é o principal deles.

Base de ativos. Fonte: Enauta

Base de ativos. Fonte: Enauta

Os campos produtivos de Enauta são apenas uma pequena parte de todo seu potencial de produção.

A companhia tem um perfil conservador no modo em que opera, investindo na exploração por etapas – nada de colocar a carroça na frente dos bois.

Mesmo assim, os riscos de exploração são relevantes.


Alocação de Capital (dinheiro = campos)

Enauta possui riscos exploratórios – a companhia pode investir milhões e milhões de dólares em novos poços que se provam secos (lembram de OGX e HRT?).

Mas o maior upside da companhia vem justamente do potencial de adicionar ativos ao seu portfólio (novos campos de exploração).

E o momento é altamente propício – Petrobras está em forte processo de desinvestimento e teremos muitos leilões da ANP (Agência Nacional do Petróleo).

Mas a utilização dos recursos pela companhia é, no mínimo, questionável. Com a recente venda de alguns ativos, a empresa distribuiu 500 milhões de reais na forma de dividendos.

Se as ações estão baratas, recomprar ações seria muito mais vantajoso. Enauta negocia a apenas 11x lucros e 2,8x Ebitda. Por que não aproveitar o baixo preço?

A explicação para a decisão pode estar no organograma de acionistas da Enauta.


Quadro de acionistas. Fonte: Enauta

Quadro de acionistas. Fonte: Enauta

A Enauta é, muito provavelmente, a jóia da coroa do enrolado Grupo Queiroz Galvão. O Grupo, recentemente, precisou renegociar dívidas.

E as ações de ENAT, caso o Grupo controlador tenha maiores problemas, podem cair nas mãos dos bancos credores.

Este é o risco de governança – o maior. Mas temos mais alguns riscos de mercado a analisar.


Os riscos e as commodities

Como deveria ser, o resultado da companhia é altamente dependente do preço do petróleo – e, com a guerra comercial, o preço do petróleo está nas mínimas históricas.

Ebitda últimos 12m (branco), Petróleo Brent (azul). Fonte: Bloomberg.

Ebitda últimos 12m (branco), Petróleo Brent (azul). Fonte: Bloomberg.

Petróleo caindo vem puxando os resultados da companhia para baixo.

Além disso, um ajuste nos valores dos fornecedores elevará os custos de Enauta de 400 mil dólares/dia, para 490 mil, a partir de novembro deste ano.

Resumindo, os resultados do futuro próximo pode não ser dos melhores para ENAT.


Até onde vai ENAT3?

Após o pagamento de um enorme dividendo, em abril, as ações acumulam queda de -28 por cento.

ENAT3. Fonte: Bloomberg

ENAT3. Fonte: Bloomberg

Para o Investidor de Valor, ENAT é interessante. Com as quedas, ficando ainda mais.

Mas, sem visibilidade de resultados e com a governança preocupante, a deterioração de seus resultados recentes não nos dão confiança no investimento.

O interessante, em Enauta, é seu caixa líquido de 1,5 bilhões de reais. Novas aquisições de ativos produtores podem mudar o jogo dos resultados.

Observamos atentamente a capacidade da empresa de alocar seu capital.

Se o jogo virar, abaixo de 3x Ebitda, Enauta ficaria bastante interessante.

Aguardamos.

Em observância à ICVM 598, declaro que as recomendações constantes no presente relatório de análise refletem única e exclusivamente minhas opiniões pessoais e foram elaboradas de forma independente e autônoma.

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por Bruce Barbosa

Possui 16 anos de experiência no mercado financeiro. Antes de fundar a Nord Research passou pelo BNP Paribas, HSBC e Empiricus Research. Formado em Engenharia de Produção pela USP e possui um MBA pela New York University.

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