XP: O maior dividendo do mundo

Unindo o útil ao agradável, Itaú ganhou 10x em seu investimento em 3 anos e quer pagar 30 por cento de dividendo ao seu acionista. Obrigado, Itaú!

Você ainda acha que os preços de mercado fazem sentido?

Você ainda acha que seria impossível tantos investidores tão inteligentes e tão ricos errarem grosseiramente na precificação dos ativos no mercado?

Acompanhe comigo este ótimo exemplo de como o mercado não sabe o que faz.

Antes, uma pausa para as últimas notícias:

Eleições americanas

Está apertado.

Trump já anunciou vitória antes da hora – convenhamos, era de se esperar.

Relação entre votos para Biden e Trump.

Fonte: The Wall Street Journal.

Devemos saber o resultado das eleições americanas nas próximas horas.

Apesar do lockdown na Europa e recorde de casos nos EUA, os mercados continuam otimistas – e nós estamos acompanhando.

Mercados futuros das Américas (índices Dow Jones mini; S&P 500 mini; NASDAQ 100 mini, entre outros).

Mercados futuros das Américas. Fonte: Bloomberg.

Uma vitória do "dorminhoco" (Sleepy Joe Biden) ou do "pau-mandado" (Trump pau-mandado da Rússia), como os adversários carinhosamente se chamam, deve significar a aprovação do pacote econômico trilionário que está sendo negociado em Washington.

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O trade da vida de Itaú

Funciona da mesmíssima forma para as empresas e para as pessoas.

Um pequeno investimento em uma ótima empresa, com crescimento elevado, pode modificar completamente seu portfólio por décadas.

O Itaú (ITUB4 ou ITSA4) fez o trade de sua vida em 2017 quando comprou metade da XP por 6 bilhões de reais.

Hoje, a participação do Itaú na XP (negociada nos EUA) vale 11,5 bilhões de dólares, ou seja, 66 bilhões de reais.

O Itaú multiplicou seu investimento por 10x em 3 anos.

Peter Lynch e Ragazi ficariam com inveja.

Caberia XP na série NORD 10X?


O mercado não me valoriza

Itaú estava depressivo e cabisbaixo.

O banco estava triste. Mesmo com a metade da XP valendo 66bi guardado em seu balanço, o mercado não lhe dava valor.

Cada vez que o pobre Itaú olhava para o gráfico abaixo, sua depressão aumentava.

Gráfico mostra relação entre ITUB4 (branco) e XP (laranja).

ITUB4 (branco) e XP (laranja). Fonte: Bloomberg.

Desde seu IPO, em dezembro de 2019, XP subiu +118 por cento em reais e ITUB caiu -31 por cento.

Hoje, Itaú vale na Bolsa 227bi – com lucros de 18bi, são quase 13x lucros.

Atualmente, a XP vale na Bolsa 123bi – com lucros de 1,6bi, são quase 82x lucros.

Mas o Itaú acordou.

Retomou sua autoestima e foi à luta.

Itaú anunciou que poderia pagar o maior dividendo do mundo.


O maior dividendo do mundo

O Itaú anunciou ontem, junto com seus resultados do 3T20, que estava em fase final de estudos para "spinoffar" sua participação na XP.

"Spinoffar" significa separar, tornar independente um pedaço da empresa, um departamento. Nesse caso, um investimento.

(Como "tradar" ou "splitar", "spinoffar" é um termo técnico copiado descaradamente dos americanos e largamente utilizado na Faria Lima – eu “spinoffo, você “spinoffa…).

É como se uma empresa sofresse uma mitose e se transformasse em 2.

Processo de mitose.

Fonte: Biologia Total.

O Itaú planeja criar uma companhia nova, a "NewCo" (ainda sem nome), que receberia a participação na XP e teria um IPO feito em Bolsa de Valores, no Brasil ou no exterior.

Os acionistas de Itaú receberiam Ações na “NewCo” e poderiam negociá-las livremente.

As Ações de XP saem do balanço do banco e são transferidas diretamente aos acionistas. O acionista receberia em sua conta Ações da “NewCo”.

Seria como receber um dividendo de 66 bilhões de reais.

Um dividendo de 7 reais por Ação (ITUB4 negocia a 24 reais).

Um dividendo de 29 por cento.


O diabo está nos detalhes

O Itaú nunca vai lhe contar suas intenções obscuras com a transação atual.

Apesar de aprovada pelo CADE, com receio de conduta oligopolista dos bancos no Brasil, em 2018, o Banco Central só permitiu ao Itaú ser minoritário de XP.

Com razão, uma vez que os grandes bancos podem usar sua rentabilidade elevadíssima e enorme lucratividade para impedir a competição comprando rivais.

Em 2022, o Itaú tem uma opção de compra de mais 12,5 por cento do capital de XP, o que levaria a participação do banco para acima dos 49,9 por cento permitidos pelo BC.

E, inteligentemente, Itaú anunciou que poderia vender um pedaço de 5 por cento de sua participação na XP a mercado (82x lucros), o que lhe daria espaço para comprar os novos 12,5 por cento (aos 23x lucros já acertados em 2017).

Fonte: Os Simpsons.

Sr. Burns ficaria orgulhoso.


O mercado não precifica a XP dentro do Itaú?

O mercado é altamente “curto-prazista” e tende a perpetuar dinâmicas de curto prazo.

O mercado não é nem um pouco inteligente (use isso para ganhar dinheiro em cima dos incautos – leigos e profissionais).

Mesmo com a pandemia, forte crescimento no número de clientes e aumento dos ativos sob gestão puxam os lucros de XP a crescer a mais ou menos +150 por cento ao ano:

Gráfico mostra crescimento dos lucros de XP a mais ou menos +150 por cento ao ano.Fonte: XP Inc.

Enquanto isso, com maiores provisões para perdas com crédito, os lucros de Itaú vêm caindo -30 por cento ao ano:

Gráfico mostra queda dos lucros de Itaú de -30 por cento ao ano (do 3T19 ao 3T20).

Fonte: Itaú.

Certo ou errado, o mercado perpetua os resultados de curto prazo, o que faz a XP negociar a 82x lucros históricos (passados) e Itaú negociar a 12x.

Entretanto as regras contábeis só permitem que Itaú contabilize no balanço os valores de XP a preço de custo – valor que Itaú pagou por XP em 2017 (6bi).

Itaú também pode contabilizar os lucros de XP (no DRE), mas estes ainda são pouco relevantes para o banco (XP lucra 670 milhões de reais e Itaú lucra 18bi).

Pelas regras contábeis, todo o crescimento futuro precificado nas Ações de XP fica fora do balanço de Itaú.

E, para "destravar" esse valor, o Itaú precisa vender sua participação.


Mercado deu um "like"

Itaú já anunciou que o spinoff não acontecerá este ano.

Mas o mercado entendeu o recado: Itaú, negociada nos EUA, já subia +7 por cento no "after hours" (mais um termo em inglês).

Fonte: Nasdaq.

Claro, os resultados de Itaú do 3T20 acima do esperado ajudaram.

Lucros ainda caindo -30 por cento, com provisão para devedores duvidosos subindo menos, mas ROE (rentabilidade sobre o patrimônio) já voltando para os 16 por cento.

Inadimplência com a pandemia ainda não subindo, resultado com serviços crescendo e despesas caindo (-1 por cento).

Gráfico mostra relação entre Lucro Seguridade e Serviços e Lucro Crédito e Trading, de 2012 ao 3T20.

Fonte: Itaú e Nord Research.

No gráfico acima, fica claro como as provisões para inadimplência pesaram nos resultados dos últimos trimestres (lucro de empréstimos ou crédito na linha azul).

Para voltar a crescer em seguridade e serviços (linha laranja) e enfrentar as fintechs, a estratégia do banco é o corte de custos.

Como já comentamos, há 2 semanas, por aqui.


E o que acontece com Itaúsa?

Itaúsa é uma holding que detém Ações de Itaú. Itaúsa é só uma forma mais barata de investir em Itaú.

Gráfico mostra relação entre ITUB4 (branco) e ITSA4 (azul).

ITUB4 (branco) e ITSA4 (azul). Fonte: Bloomberg.

Apesar da melhor performance de Itaúsa nos últimos anos, as Ações tendem a andar juntas a longo prazo.

Se Itaú distribuir um dividendo em forma de Ações da XP, a Itaúsa receberá as mesmas Ações e deverá distribuí-las a seus acionistas.

Assim como Itaúsa faz com os dividendos "normais" em dinheiro que Itaú paga todos os anos.

Itaú comprou a XP para aprender como a corretora – hoje banco – roubava seus clientes.

Faz sentido que Itaú se desfaça de seu investimento após ter aprendido a lição e ter visto a enorme discrepância de valor entre as empresas.

Parabéns, Itaú! Rentabilidade de 10x em 3 anos não é para qualquer um.

Negociando a 11x lucros, com resultados melhorando e um potencial dividendo de 30 por cento em 2021, a carteira de Ações do Investidor de Valor adora Itaúsa.

E, claro, adoramos um dividendo inesperado de 30 por cento.

Nosso portfólio agradece.


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por Bruce Barbosa
em 04/11/2020 para Nord Insights

Possui 17 anos de experiência no mercado financeiro. Antes de fundar a Nord Research passou pelo BNP Paribas, HSBC e Empiricus Research. Formado em Engenharia de Produção pela USP e possui um MBA pela New York University.

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