Você pagaria 30 mangos numa Skol?

A euforia com os IPOs esconde uma verdade inconveniente

Você pagaria 30 mangos numa Skol?

A onda do momento é participar das ofertas públicas de ações (IPOs). Foi assim também em 2007 — lembro-me como se fosse ontem.


Mas antes de entrar na história, permita-me discorrer um pouco sobre algumas razões que levam empresas a listarem suas Ações na Bolsa.


Um dos principais motivos é a captação de recursos. Durante o IPO, podem ser vendidas novas ações e também as que já existem — isto é, acionistas atuais vendendo parte ou a totalidade das suas participações.


Colocar novas ações no mercado — realizar uma oferta primária — significa injetar dinheiro no caixa da empresa. Com esses recursos, ela pode então investir em novos projetos, melhorar suas condições de capital de giro, comprar outras empresas… enfim, são várias as possibilidades.


Por outro lado, é comum vermos os acionistas aproveitando a oferta para vender parte da participação que possuem na sociedade. Nesse caso tem-se uma oferta secundária. Nesta situação, os recursos não vão para o caixa da empresa, mas sim para o bolso dos acionistas.


As ofertas de ações podem ser exclusivamente primárias, exclusivamente secundárias ou mistas. A maioria é mista ou 100 por cento primária.


Quando uma oferta é totalmente secundária, ou quando a parcela secundária é significativa dentro de uma oferta mista, o sinal amarelo se acende.


Por que o atual dono da companhia quer se desfazer das suas ações? — esta é uma pergunta que devemos nos fazer antes de investir na companhia...


Explicada a diferença entre ofertas primárias e secundárias, vamos aos números históricos.


Lembram que, lá no começo do texto, me referi ao ano de 2007 como o período em que ficar de fora do IPO era quase a morte para alguns investidores? Pois bem... naquele ano tivemos o maior volume de IPOs na bolsa brasileira, até então. Vale notar certo equilíbrio entre as ofertas primárias e secundárias...


No ano passado, o mercado melhorou novamente. E vimos muitas ofertas, mas dessa vez o volume de ofertas secundárias — acionistas atuais da empresa vendendo suas ações para o público em geral — foi muito mais representativo do que o volume de “novo” dinheiro captado no mercado…


Hm…


Os acionistas de uma empresa querem basicamente uma coisa: maximizar o valor da empresa no longo prazo — ou seja, querem vendê-la pelo maior preço possível.


Em muitos casos, vale a lei da oferta e da demanda.


Imagine que, em um feriado prolongado, você decide ir à praia. A previsão do tempo era realmente boa, e nada como aproveitar um pouco a vida.

Lá está você, debaixo de um sol escaldante, com mais sede que um camelo... pensando em uma cerveja gelada.


Na praia existem alguns vendedores de cerveja, muito atentos aos clientes potenciais. Mas eles possuem uma quantidade limitada de cervejas para vender.


Se você e várias outras pessoas forem comprar essas cervejas, o vendedor perceberá que há um grande interesse pelo produto e não há porque vendê-lo a um preço justo: na verdade, ele vai cobrar o mais caro possível de você, pois não existem tantos vendedores na praia.


Neste ponto vale ressaltar que a noção de preço justo varia de pessoa a pessoa. Mas digamos que, em algumas situações, não é muito difícil de se avaliar se o valor está perto da realidade ou não.


Por mais que você deseje uma cerveja gelada, você pagaria 30 reais por uma lata de Skol?


No mercado financeiro, a situação é, na maioria das vezes, a mesma. Lembre-se: os acionistas querem basicamente uma coisa, que é maximizar o valor da empresa. Querem vendê-la pelo maior preço possível.


Como hoje vivemos um período de “mudanças transformacionais” — eu particularmente tenho minhas dúvidas sobre isso, mas vamos assumir que seja uma premissa válida —, há uma demanda grande por investimentos que rendam mais do que a caderneta de poupança ou um fundo de investimento de baixo risco. Reflexo da nossa taxa básica de juros que se encontra no menor patamar da História.


São bilhões e mais bilhões de reais migrados de investimentos com “baixo rendimento” para alternativas que prometem uma rentabilidade melhor — dentre as quais, as Ações. São milhares de pessoas colocando dinheiro em fundos de investimentos, fundos esses que investem na bolsa, ou comprando Ações diretamente.


Lembra-se da cerveja? Pois bem: por que os acionistas deveriam vender suas participações a preços mais razoáveis, se a demanda por novas empresas está altíssima?


Bom para quem está vendendo. Nem tão bom para quem está comprando.


Quanto mais caro você paga em uma Ação, maior o tempo necessário para você ter o retorno do seu investimento. E, a depender do preço, o retorno pode simplesmente jamais se concretizar.


Neste ponto, não me refiro ao preço da oferta: pouco importa se a ação vai ser lançada a 1 real ou 50 reais.


Temos, por exemplo, que olhar para a lucratividade da empresa.


Se um determinado IPO é precificado a 10 reais e a empresa lucra 1 real por ano, você demoraria cerca de 10 anos para ter o retorno do seu investimento, assumindo que a empresa consiga distribuir todo esse lucro em forma de dividendos e juros sobre capital próprio.


Agora, por que o acionista atual da empresa venderia por 10 se ele pode vender por 20, diante da alta demanda dos investidores? Nesse caso, o retorno do investimento seria de cerca de 20 anos...


Os últimos IPOs saíram, na opinião da turma aqui da Nord, a preços não muito convidativos, com investidores pagando muito caro. Por isso, apesar de criticados em alguns momentos, recomendamos que nossos assinantes não participassem de algumas ofertas.


Temos sido criticados porque há uma certa euforia no primeiro dia de negociação, tanto por conta dos altos rateios (quando você recebe menos do que pediu durante a reserva das Ações, pois não foi possível atender a demanda), quanto por conta de investidores que acreditam encontrar ali o melhor investimento do momento, mesmo que isso signifique demorar anos e anos para ver retorno.


Às vezes dói ficar fora da festa, mas preferimos focar no longo prazo — e não na euforia do primeiro dia. Até mesmo porque algumas dessas Ações já mostram queda nos dias consecutivos a estreia.


A história foi a mesma em 2007: ganhos expressivos nos primeiros dias, mas várias das empresas que vieram ao mercado naquele ano sequer existem hoje.


Todo cuidado é pouco.


Que falar mais sobre investimentos? Me segue lá no instagram: @crivelli.cesar.


Compartilhar este artigo
por Cesar Crivelli
em 14/02/2020 para Nord Insights

Iniciou sua carreira na área de análise de uma corretora independente e posteriormente integrou a equipe de Equity Research do Citibank, tesouraria da GM no Brasil e trabalhou em uma startp-up em Boston por dois anos, onde era responsável por M&A e expansão em novos negócios.

Receba nosso conteúdo GRATUITO!