Você está pagando o "Bolsa Gestor"?

O mundo do CDI baixo

Desde meados de 2016, nós vínhamos em uma caminhada longa em torno da redução da taxa de juros no Brasil.


Em um primeiro estágio, quando Ilan Goldfajn assumiu a presidência do Banco Central, durante a gestão do presidente Michel Temer, trouxemos a Selic de 14,25 para 6,5 por cento.


Passado o bastão para o Roberto Campos, atual presidente da instituição, fomos um pouco mais além, reduzindo a taxa básica para 4,25 por cento.




Aparentemente, segundo o que o próprio BC sinalizava, teria terminado ali este longo processo de redução. Entretanto, a pandemia mudou (e com razão) todo o plano de voo.


Com a crise brutal que viria, abriram-se espaços para novos cortes. Nos encontramos atualmente em 2,25 por cento e, com o IPCA da última sexta-feira (24/07) vindo abaixo do esperado, talvez iremos testar níveis ainda mais baixos...


Mas o papo de hoje não é Renda Fixa. Essa cadeira pertence a Marília e ela desempenha essa função de forma impecável.


A minha praia são os fundos de investimento, então vamos a eles.


Nesse ambiente de juros mais baixos, dois questionamentos aparecem frequentemente na minha caixa de e-mail: (i) ainda faz sentido cobrar os 2 por cento de administração com 20 por cento de taxa de performance? (ii) deveríamos trocar o benchmark?


É precisamente este debate que gostaria de começar com vocês hoje.

O tal do benchmark CDI...


Em épocas de CDI a dois dígitos, como prevaleceu até meados de 2018, não havia uma discussão sobre qual benchmark (valor de referência, usado para medir performance) seria mais “justo” para os multimercados macro cobrarem taxas pelo desempenho superior à referência.


Talvez houvesse a sensação de que, com a Selic alta, eles se sentiriam mais desafiados e isso justificava a cobrança.


Hoje a sensação é contrária. Em tempos de CDI tartaruga, essa discussão volta a ser colocada sobre a mesa. De repente, como da noite para o dia, parece que ficou “fácil demais” ganhar dinheiro e fazer o cotista pagar a conta.


Então, faria sentido mudar esse benchmark para os multimercados? Vou tentar responder isso em duas partes, assim talvez fique mais claro.


Primeiro, a discussão está pautada de forma errada. Ninguém é taxado com base no CDI, mas no que excede a ele.


Ou seja, se o fundo rendeu CDI + 5 por cento, você será cobrado em cima dos cinco. Isso vale para Selic de 5, 10, 15, 20, 40… seja qual valor você quiser.


Você remunera a gestora pela capacidade de gerar alfa.


Prova disso é que, mesmo em meio a tudo isso, ainda não encontrei um sujeito descontente a respeito de pagar 20 por cento de taxa de performance ao Verde.


Analogamente, está desaparecida a pessoa que está triste por pagar 44 por cento em performance (sobre zero! Pois estamos falando de EUA) no Medallion  famoso fundo da Renaissance Technologies que entregou 29 por cento ao ano, já líquido de taxas.



Então, vejo menos problema no benchmark atual. Ainda assim, valeria a pena aumentar a régua? Digamos para IPCA + yield?


Bom, vamos lá. Se avaliarmos os últimos 10 anos desse nosso Brasil, o CDI já reflete algo próximo de IPCA + 4 por cento.


Sendo assim, precisamos ir além disso. Digamos que amanhã, por decreto, ficasse definido que todos os fundos multimercado seriam cobrados por IPCA + 6 por cento.


Não vejo problema, mas qual a consequência natural disso? A exigência de termos produtos mais arrojados na indústria.


Explico por quê. Imagine que o sharpe bruto de um gestor X seja 1. Por si só, isso não é fácil, vide que a maioria dos grandes investidores, como Peter Lynch e Buffett, ficam abaixo ou próximo disso.


(PS: para quem não sabe, o sharpe mede a perícia da gestão. É uma medida para padronizar o retorno do fundo a volatilidade. Quanto maior o número, melhor.)


Então, vamos à matemática dessa escolha. Para que o gestor supere seu novo benchmark, estaríamos falando de retornos superiores a 9 ou 10 por cento ao ano  a soma de 3,5 por cento de inflação (meta) mais o juro real de 6.


Agora, para atingir retornos assim, a volatilidade do fundo teria que ser acima de 9 por cento, e ainda lhe entregaria, basicamente, zero de alfa.


Logo, para que consiga ter excesso de retorno, veriámos fundos com volatilidades de 12 por cento em diante.


Afinal de contas, não adianta exigir que um Fusca desenvolva a velocidade de uma Ferrari sem que você tenha um motor mais potente.


Sendo assim, estaria a indústria preparada para isso? Seria um salto e tanto para uma indústria que está acostumada com volatilidades substancialmente menores do que essa.


Isso é o que envolve a discussão, não o benchmark.


Apesar disso, acredito que vamos chegar lá, mas isso é papo para outro dia. Por ora, há um risco maior para o seu patrimônio.


Precisamos falar mesmo é da taxa de administração e dos fundos de baixa volatilidade.


Fundo caro e retorno fraco — O "Bolsa Gestor"


Dito tudo isso, onde está realmente o problema? Na minha visão, está nos fundos de baixa volatilidade e nas largas taxas de administração.


Para entender isso, voltemos ao exemplo do nosso gestor que tem sharpe bruto de 1. Se o fundo tem volatilidade de 3 por cento ao ano, o retorno que ele lhe entregará seria algo como CDI + 3 por cento.


Agora, tudo isso é bruto. Desses potenciais “CDI+3  por cento” você precisa descontar os 2 por cento da administração e a performance que remuneram o gestor...


Nesse caso, mesmo que a equipe tenha se esforçado muito e tenha gerado um ultra sharpe, você entregou QUASE TUDO em taxas e levou menos CDI +0,8 para casa.

*Resultados aproximados, feitos com CDI de 2,0 por cento ao ano e sharpe bruto = 1



Ou seja, no melhor dos casos, ⅔ do resultado é pago para o gestor e ⅓ para você.


É como um carro de corrida que larga uma volta atrás dos demais competidores. Para chegar em uma colocação melhor, ele precisará correr muito mais riscos, pois seu início foi "negativo".


Isso está completamente errado, mas era mascarado pelos altos níveis de taxa de juros que imperavam no país  afinal de contas, quem vai ligar para taxas quando meu retorno é 14 por cento ao ano?


Hoje, com a Selic a 2 por cento, essa realidade fica mais escancarada.


E, que fique claro: cotista não está aqui para deixar gestor rico. A divisão de resultado precisa ser largamente ao seu favor e não a favor do gestor.


Então, pessoalmente, eu não me incomodo de pagar as taxas, desde que o gestor me remunere muito mais do que a si próprio.


Se não for assim, você está simplesmente fazendo um programa de transferência de renda  uma espécie de “Bolsa Gestor”.


Como evitar isso? Alocando em produtos mais arrojados, onde as taxas pesem menos sobre o resultado do fundo.


Infelizmente, em muitos casos, a regulação ainda trata o investidor pessoa física como incapaz e veta a possibilidade de investir nesses fundos.


Esse é um campo de batalha em que precisamos lutar. A primeira parte é essa, a segunda é escolher um bom gestor.


Faça boas escolhas


Precisamos ter um equilíbrio.


Ao mesmo tempo em que as taxas de administração são um instrumento importante de investimento interno das gestoras (equipe, dados etc.), não se pode ferir o cotista.


Assim como vimos mundo afora, cada vez mais haverá uma pressão para essa redução acontecer.


Já vimos começar esse procedimento nos fundos de crédito privado, com os próximos sendo os fundos de baixa volatilidade. Naturalmente caminharemos para os outros. É questão de tempo.


Vamos lutar para que isso aconteça, dia após dia.  Agora, superado a questão das taxas, é de suma importância escolher um bom gestor.


A diferença é gritante entre saber ou não escolher. Sabemos que essa não é uma tarefa fácil, mas podemos te ajudar.


No Nord Fundos nós fazemos toda essa curadoria por você.  


Ao longo do tempo, nós criamos um processo muito bem estruturado e que tem se mostrado muito capaz, não só de mostrar os melhores gestores, mas também escolher a melhor estratégia.


E, justamente por isso, que investimos nos mesmos produtos.


Espero te encontrar por lá.


Um abraço.


Compartilhar este artigo
por Luiz Felippo
em 26/07/2020 para Nord Insights

Iniciou sua carreira num projeto de renda fixa do Insper com o BTG Pactual. Posteriormente atuou na área de pesquisa econômica internacional do Itaú Asset Management e foi analista de Renda Fixa da Empiricus Research. Formou-se Economista no Insper.

Receba nosso conteúdo GRATUITO!