Vale a pena participar do IPO de Centauro?

Muita coisa boa vem a mercado via IPOs, mas a grande maioria das ofertas é tóxica.

Segundo Warren Buffett - o investidor mais experiente - a resposta a uma oferta gerenciada pelos banqueiros é sempre não.

A resposta inicial para quaisquer investimentos é sempre não, não e não.

Mas... vamos abrir nossa cabeça.

Vamos analisar friamente Centauro (CNTO3) – o IPO do momento.


O que são IPOs?


IPO, ou Initial Public Offering, é a primeira oferta de Ações de uma empresa na Bolsa.

Essa oferta é realizada pelos banqueiros – que são pagos para vendê-la e ganham um percentual da oferta, dependendo da demanda dos investidores.

É aí que mora o perigo: os banqueiros são contratados para convencer os investidores de que aquela é a melhor empresa do mundo.

E, claro, banqueiros bem pagos e de posse de apresentações maravilhosas com projeções de crescimentos inimagináveis vendem até gelo para esquimós.

Os esquimós saem felicíssimos. Mas Buffett, e muitos outros Investidores de Valor simplesmente ignoram as ligações (e propostas) dos banqueiros.

Não se engane: muita coisa boa vem a mercado via IPOs. Mas a GRANDE maioria das ofertas é tóxica.

E, claro, com os banqueiros convencendo os pobres fundos de pensão, os preços sempre são muito mais altos do que gostaríamos de pagar.



Quem é a Centauro?


A Centauro é uma rede de lojas físicas de produtos esportivos. Só isso. Nada inovador.

A Centauro possui 192 lojas em shoppings e estima que isso represente apenas 5,5 por cento do varejo esportivo em lojas físicas.

Os banqueiros tentarão te convencer que Centauro é “disruptiva” (palavra tão na moda hoje em dia, não é mesmo?)... mas o e-commerce representa somente 16 por cento das vendas.

Como todo o restante do mercado, a Centauro tem uma plataforma de marketplace e marcas próprias – nada de novo aqui.

Números – onde o bicho pega


Esta é a Centauro:


Fonte: Centauro

(Checamos de perto os ajustes feitos no EBITDA... mas não parece ser ali que mora o problema)

Falta, na tabela acima, o crescimento das vendas “mesmas lojas”, de +6 por cento em 2017 e +11 por cento em 2018 – muito bom.

Basicamente, a Companhia deseja vender a ideia de que teve forte crescimento em seus números e que o passado de prejuízos recorrentes ficou pra trás.

Além disso, as despesas financeiras (custo da dívida) caíram pela metade entre 2017 e 2018 – o que vem ajudando (e muito) os lucros de CNTO.

É importante lembrar que, por restrições legais, a Centauro não pode divulgar projeções em seu prospecto...

...mas você pode ter certeza de que as promessas de crescimento FORTE são realizadas nas reuniões a portas fechadas. É sempre assim, e todo mundo sabe disso.

Mas o que vemos acima é uma companhia de margens baixas. Sua margem Ebitda está nas máximas e nunca foi acima de 12 por cento – mesmo com margem bruta bastante saudável.

Basicamente, a operação da loja (vendedores, luz, aluguel, ...) "come" toda a margem – o custo da loja física parece ser bastante alto...

...o que poderia melhorar com o crescimento do e-commerce...

...mas vemos as dificuldades que a Netshoes (que é negociada nos EUA) apresenta no e-commerce de esportes brasileiro.

(E olha que eles têm isso no DNA deles…)

Mesmo assim, CNTO não tem problema de endividamento elevado –

a relação Dívida Líquida/EBITDA continua em patamares bastante confortáveis.

Segunda tentativa de IPO

Centauro já tentou fazer IPO, lá nos idos de setembro de 2017. Mas, na ocasião, o speech da Companhia não convenceu os investidores.

Eis que foi só registrar um aninho com crescimento bacana e os banqueiros voltaram ao trabalho – o pitch de venda é a perpetuação do crescimento atual, claro.

Sempre é.

Listamos os principais múltiplos de Centauro, abaixo:

O Preço/Patrimônio parece elevado, mas ignore: os prejuízos registrados até 2016 erodiram o patrimônio da companhia.

Aos preços da faixa indicativa, Centauro negociaria entre 10x e 13x EBITDA e entre 17x e 20x lucros.

Para uma companhia de margens baixas e altamente dependente do cenário econômico, não achamos uma barganha.

Este negócio parece ser difícil, com uma enormidade de competidores (CNTO tem somente 5,5 por cento do mercado).

Além disso, temos poucas informações sobre CNTO: tudo o que sabemos (o que está no prospecto) foi diligentemente organizado pelos banqueiros – e não confiamos em ninguém que queira nos vender algo.

Ao preço de 10x EBITDA - ou mais -, encontramos varejistas (e outras Companhias linkadas ao crescimento econômico) mais interessantes, e já negociadas na Bolsa - isto é, com histórico palpável para analisarmos.

Ponderando as dificuldades recentes da companhia e os preços da oferta, preferimos ficar de fora do IPO de Centauro.


(Aos que ainda assim se interessarem, o período de reserva vai do dia 01 de abril ao dia 12 de abril).

Segundo Buffett, o maior investidor de todos os tempos, as pessoas muito bem-sucedidas falam não para quase tudo.

Tentamos, mas não foi dessa vez. O Investidor de Valor diz não quando julga necessário dizer não.


Em observância à ICVM 598, declaro que as recomendações constantes no presente relatório de análise refletem única e exclusivamente minhas opiniões pessoais e foram elaboradas de forma independente e autônoma.

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por Bruce Barbosa
em 02/04/2019 para Nord Insights

Possui 16 anos de experiência no mercado financeiro. Antes de fundar a Nord Research passou pelo BNP Paribas, HSBC e Empiricus Research. Formado em Engenharia de Produção pela USP e possui um MBA pela New York University.

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