Vai que cola

Otimismo externo não tem encontrado eco em terras tupiniquins

Cola ou descola?

Projeta-se uma quinta-feira positiva para os mercados, após um bom desempenho na Ásia e tom predominantemente otimista na Europa. Futuros em NY operam em alta enquanto escrevo estas parcas linhas.


No pano de fundo, esperanças renovadas de que um novo pacote de estímulos fiscais será costurado pelos congressistas americanos. Relativamente deixada de lado, a segunda onda de Covid-19 avança de maneira significativa em países-chave.


Do lado de cá, a grande dúvida é: subindo o resto do mundo, subiremos também ou seguiremos descolados para baixo? Temos, ao longo dos últimos dias, mantido uma forte tendência “do contra”, de olho nos riscos de um acordão para o front fiscal.


Swing state

Já se vão pelo menos duas semanas que o macrotema dominante na gringa é estímulo fiscal. Olhando retrospectivamente, já dá para mapear quando isso começou com mais força: começaram a pipocar nos news outlets que, sem mais uma dose (e é claro que eles estão a fim disso… sempre estão), a economia americana já dava um cavalo de pau no quarto trimestre.


Em meio a isso tudo, até mesmo o sempre resoluto Donald Trump hesitou: ora colocou-se veementemente contra, ora acenou com possibilidades  majoritariamente condicionadas à sua própria vitória na corrida presidencial.


Comportou-se, assim, como um swing state às vésperas do certame. E, surpreendentemente (realmente não lembro quando isso aconteceu pela última vez, se é que aconteceu), deixou de ser percebido como o dono da bola: os olhos estão voltados, de fato, para o Congresso em vez de para a Casa Branca.


É um ano bem estranho este 2020.

Síndrome de Estocolmo?

Em vista disso, o mercado adota uma postura no mínimo estranha: os avanços de Joe Biden nas intenções de voto têm servido de combustível para o ânimo dos investidores  a despeito de um discurso que, se posto em prática, é tudo menos bom para o mercado.


JB diz com todas as letras: “se eleito, elevarei impostos” (e o subtexto é: não será pouco). A manobra tem amplo potencial de reverter o benéfico efeito da redução da carga fiscal promovida por Trump, ainda no começo de seu mandato, sobre a atividade privada.


As próximas semanas serão bastante delicadas nos EUA. Não por acaso, a Marília Fontes fará um acompanhamento especial do que se passará por lá (e por aqui) no seu Telegram para assinantes.


O que cresce no Brasil

Não é só no Atlântico Norte que a política fala mais alto: cresce, em terras tupiniquins, a sensação de que o que foi servido e devorado no fatídico jantar oferecido por Bruno Dantas foi a equipe econômica.


Cresce o zunzum de que o auxílio emergencial pode ser estendido até metade do ano. Cresce a relutância em privatizar. Cresce a sensação de que reformas serão postergadas para um futuro distante.


Não por acaso, crescem junto as preocupações com o cenário fiscal em meio a toda essa barafunda, crescem juros e câmbio, cresce a sensação de que não foi desta vez.


Crescem a impaciência do mercado e a indignação de um ou outro cidadão que não se deixou hipnotizar por stories do Instagram e dancinhas do TikTok.


Compartilhar este artigo
por Ricardo Schweitzer
em 08/10/2020 para Nord Insights

Possui 14 anos de experiência no mercado financeiro. Antes de fundar a Nord Research passou pela Adviser Asset, Fundação CEEE, Sicredi Asset, Votorantim Corretora e Empiricus Research. Formou-se em economia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

Receba nosso conteúdo GRATUITO!