Uma vacina para a carteira

Número de pessoas contaminadas pela Covid-19 dispara nos Estados Unidos. O mercado, até agora, ignora os números.

O anúncio por parte da Pfizer e Moderna a respeito do sucesso de suas vacinas contra a Covid-19 parece ter mais apelo aos agentes de mercado do que à quantidade crescente de novos casos e internações nos Estados Unidos.

No momento em que escrevo essa newsletter, os dados fornecidos pelo The Covid Tracking Project, atualizados até 19/11, mostram que nos Estados Unidos existem 80,698 pessoas internadas por conta da Covid-19. Esse valor é praticamente 30 por cento maior do que o pico anterior, observado em abril e julho deste ano, em torno de 60 mil internações, como mostra o gráfico abaixo.


Gráfico do The Covid Tracking Project mostra o número de testes diários, casos diários, pessoas hospitalizadas e mortes diárias da Covid-19 (nos Estados Unidos) do período de abril/2020 a outubro/2020.

Fonte: The Covid Tracking Project


Na quarta-feira, tivemos a cidade de Nova Iorque anunciando o fechamento das escolas, com a retomada das aulas por meio eletrônico, visto o rápido aumento de novos casos por lá.

Já na quinta-feira foi a vez da Califórnia anunciar o toque de recolher, que valerá das dez da noite até as cinco da manhã, em uma tentativa de reduzir a velocidade de contaminações no estado.

Ao longo da semana passada, outros estados de “menor relevância” já tinham retomado algumas medidas de distanciamento social mais fortes, mas pouco foi noticiado a respeito disso.

Talvez, com nomes de “peso” retomando medidas mais drásticas para combater a segunda onda, a mídia passe a dar um pouco mais de espaço para o que realmente está acontecendo nos Estados Unidos.


O que tenho notado é uma certa relutância, tanto por parte do mercado quanto dos governantes – até, em certa parte, da mídia – em mostrar que de fato estamos vivenciando uma nova onda de contaminações mundo afora.

As consequências econômicas por conta do fechamento em massa das principais economias mundiais foram muito difíceis. As feridas ainda estão abertas. Algumas levarão anos ou décadas até cicatrizarem por completo.

Talvez o remédio para resolver o quadro atual (a segunda onda) tenha de ser o mesmo adotado meses atrás, todavia em menor dose. A falta de uma solução mágica explicaria a relutância dos políticos e da mídia em admitir o que lhes está sendo posto à frente dos olhos.

Além disso, temos alguns sinais de que a ajuda dada pelo governo norte-americano aos cidadãos do país já não surte o mesmo efeito em comparação com meses atrás.

Nessa semana, tivemos a divulgação das vendas no varejo nos Estados Unidos durante o mês de outubro. O indicador, que mede o desempenho de compras feitas em lojas, restaurantes e também no mundo on-line, mostrou alta de 0,3 por cento na comparação mensal. Trata-se do menor crescimento mensal desde maio deste ano.

Gráfico mostra vendas no varejo nos Estados Unidos durante o mês de outubro. O indicador mede o desempenho de compras feitas em lojas, restaurantes e também no mundo on-line.

Fonte: Wall Street Journal


Os números referentes ao mercado de trabalho também mostram algum arrefecimento da recuperação econômica nos Estados Unidos.

O Departamento do Trabalho divulgou, na quarta-feira, que um total de 742 mil pessoas entraram com pedido de auxílio-desemprego na semana passada. Na semana anterior, o indicador marcou 711 mil novos pedidos e estava em trajetória declinante há meses, como mostra o gráfico abaixo.

Gráfico mostra solicitações de auxílio-desemprego nos Estados Unidos, de março/2020 a novembro/2020.

Fonte: Wall Street Journal


A quantidade de novas vagas de trabalho anunciadas on-line também corrobora com a visão de uma estagnação no mercado de trabalho nos Estados Unidos.

Segundo dados do site ZipRecruiter, reproduzidos pelo Wall Street Journal, ao longo dos últimos meses, as empresas estão publicando menos oportunidades de trabalho, tanto nas localidades severamente afetadas pela nova onda de contaminação pela Covid-19 – principalmente as do meio-oeste do país – quanto por aquelas que ainda não foram tão duramente atingidas pela segunda onda.

Gráfico mostra oportunidades de trabalho nas diversas localidades dos Estados Unidos, desde as menos afetadas pela Covid-19 até as mais afetadas, do período de fevereiro/2020 até novembro/2020.

Fonte: Wall Street Journal


O mercado também recebeu um balde de água fria na quinta-feira.

O secretário do Tesouro norte-americano, Steven Mnuchin, se pronunciou a respeito dos fundos disponíveis para programas de ajuda emergencial.

Em seu comunicado, Mr. Mnuchin pediu ao FED (Banco Central dos Estados Unidos) a devolução de recursos ainda não alocados e declinou a extensão de tais programas para além de 31 de Dezembro.

Vale lembrar que o FED, ao longo dos últimos meses, era bem vocal quanto à necessidade de manutenção dos estímulos econômicos atuais, posicionando-se a favor até mesmo de uma nova rodada de ajuda.

Tivemos ao menos uma notícia mais positiva na manhã de sexta-feira, por parte da Pfizer. A Companhia anunciou que pretendia protocolar até o final do dia um pedido de permissão para uso da vacina desenvolvida contra a Covid-19. Uma vez feito o pedido, fica a cargo da FDA (U.S. Food and Drug Administration - órgão governamental) decidir se o medicamento é seguro para utilização em massa.

Aprovada a vacina, o mercado deve reagir positivamente. Será um grande alívio para todos nós. A humanidade merece uma solução para esse problema.

Conforme explicado no vídeo gravado pelo Ricardo, a relação do mercado com a vacina pode ser um importante gatilho para transformar a América.

As notícias de momento dizem respeito ao retrato atual da economia. Monitorar isso é importante. Porém, como investidores de longo prazo que somos, devemos olhar para o que está por vir.

Se você não assistiu ainda, faço o convite para que você assista ao vídeo agora e veja que existe uma enorme oportunidade em um grupo específico de empresas norte-americanas.

Não espere que as capas de jornais estampem notícias maravilhosas para então se posicionar.

ENTENDA A TESE SOBRE INVESTIMENTO NOS EUA

A janela está se fechando. O "gatilho" que comentamos no vídeo parece estar próximo. Até lá, acostume-se com certa dose de incerteza e pessimismo.

Até a próxima semana!


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por Cesar Crivelli
em 21/11/2020 para Nord Insights

Bacharel em Administração de Empresas pela PUC-SP, possui MBA pela FGV e MSF pela Hult International Business School. Integrou a equipe de Equity Research do Citibank e tesouraria da General Motors (GM) no Brasil. Posteriormente, atuou nas frentes de M&A e novos negócios da Xeros Cleaning Technologies (XTG), nos Estados Unidos. Ingressou na Nord Research em outubro de 2019, como parte do time do Nord Small Caps, e hoje é responsável pelo Nord Global.

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