Uma segunda onda?

Temores com relação a novas infecções surgem bem em meio às medidas para retomada de atividades

Ficou para depois

Mercados bem que tentaram, no começo desta segunda-feira, ensaiar uma recuperação.


Mas não deu: em meio a sinalizações de relaxamento de medidas de distanciamento social em economias-chave e, por outro lado, temores de uma “segunda onda” a partir de notícias de novos casos em países já combalidos pelo coronavírus, investidores deram mais peso às preocupações.


Isso tudo, é claro, em meio à temporada de resultados do 1T20 — na qual, penso eu, importam muito mais as sinalizações de perspectivas futuras do que os números em si.


Madrugada foi de desempenho misto na Ásia, com net ligeiramente positivo. Principais praças europeias — que chegaram a ver variações positivas no início das negociações — estão no campo negativo, tendência observada também nos futuros nova-iorquinos.


Tudo mais constante, deve ser este o tom por aqui também.


Caminhos tortos


O governo britânico aposentou o slogan “fique em casa”. Em seu lugar, “permaneça em alerta” é o novo mote. A mudança na comunicação é emblemática porquanto expressa a fase de reabertura gradual que se avizinha, tanto no Reino Unido quanto em outras nações.


É o caminho que todos estamos, inevitavelmente, fadados a seguir em algum momento: cresce a percepção de que estratégias de saída das medidas de distanciamento social impostas pelas circunstâncias atuais serão graduais, em trajetória sem nenhum compromisso com uma linha reta.


(Aliás, olhar para outros países e ver uma estratégia de saída se desenhando não deixa de ser, para nós, brasileiros, alvissareiro: algum plano é melhor do que nenhum)


A mensagem do Prime Minister Boris Johnson — recuperado da doença, aliás — é clara: vamos voltar, aos poucos, e monitorando o comportamento da pandemia; se necessário, retrocederemos.


Não dá pra ficar parado para sempre: se, no curto prazo, erradicar a doença não se mostra possível, poucas alternativas restam senão aprendermos a contorná-la. Eis uma mensagem importante de se entender.


Mas as circunstâncias do real desafiam o deflagrar da nova fase: o surgimento de novos casos na China, na Coreia do Sul e na Alemanha levanta preocupações acerca de uma possível segunda onda de contaminação.


Por aqui, ainda apanhamos para lidar com a primeira.


Conforme as regras do jogo

Por aqui, olhos em Brasília: a semana é importante, principalmente por conta da potencial decisão da PGR por denunciar (ou não) o Presidente da República no contexto da crise deflagrada com a saída de Sergio Moro da Justiça.


Em paralelo — mas, nem de longe, evento descorrelacionado —, Bolsonaro será testado: espera-se o veto presidencial à ampliação das categorias de servidores públicos que ainda poderão fazer jus a reajustes salariais no contexto do socorro aos estados.


O PR tem precisado articular — com o Parlamento e, mais especialmente, o famigerado centrão. O faz porque sabe que o apoio não é mais incondicionado; porque precisa manter a tal governabilidade. E porque sabe que, se o caldo entornar, terá nos votos dos parlamentares o selo de seu destino. A ver.


Não restam dúvidas de que o melhor para o País é o veto. Resta saber se é esse, também, o resultado do cálculo político: as regras do jogo nem sempre convergem para o melhor desfecho.




Um timing, no mínimo, estranho


Tipicamente, IPOs e follow-ons são excelente termômetro de boas condições de mercado. É batata: basta o William Bonner passar suficiente tempo noticiando recordes sucessivos para a Bolsa brasileira para, prontamente, surgirem operações. Quanto mais otimista o mercado, mais exóticas as novas empresas que a seu escrutínio se submetem.


Se essa é a dinâmica típica das novas emissões, eventuais atipicidades chamam a atenção. Se, por um lado, o mercado parece já ter superado a noite mais escura da crise deflagrada pela pandemia, por outro seguimos com visibilidade limitada acerca da resolução das questões de ordem do momento.


E mesmo assim tem IPO na rua — o de Estapar. E notícias de empresas interessadas em acessar o mercado de capitais no futuro próximo.


Causa-me estranheza a avidez de companhias de setores cuja visibilidade é prejudicada de maneira marcante, no curto prazo, pela COVID-19, se arvorando para emitir ações nesse momento — no qual, claramente, a tendência seria de eventual demanda se ver condicionada a bons preços.


A turma do investment banking tem por mandato vender caro, e o momento não é lá muito propício para isto.


Longe de mim julgar antecipadamente e indiscriminadamente as propostas — é preciso, sempre, olhar caso a caso. Mas que o timing é estranho, é. E essa estranheza carrega consigo algum significado.


Seguimos na missão


Enquanto isso, do lado de cá, fazemos rigorosamente o mesmo de sempre: debruçamo-nos sobre os dados para oferecer aos assinantes julgamentos objetivos das Ações que recomendamos — todo o resto é perfumaria.


Se a semana passada foi particularmente intensa para o Nord Small Caps, o agito desta cabe ao portfólio do Nord Dividendos: bom número de resultados a revisar e opinar.


Por conta disso, aliás, nesta semana sairemos de nosso cronograma habitual e publicaremos duas edições: a primeira sai hoje, após o fechamento do mercado; a segunda deve sair na sexta-feira.


Foco no que importa. E fique em casa.


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por Ricardo Schweitzer
em 11/05/2020 para Nord Insights

Possui 14 anos de experiência no mercado financeiro. Antes de fundar a Nord Research passou pela Adviser Asset, Fundação CEEE, Sicredi Asset, Votorantim Corretora e Empiricus Research. Formou-se em economia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

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