Uma eternidade em 12 meses

Finalmente estamos chegando ao fim deste 2020. Não sei como foi para vocês, mas a minha visão é que este ano durou uma década. São tantas idas e vindas que 12 meses parecem ter durado uma eternidade.


Em um ano como este, todos obtivemos diversos aprendizados, não tenho dúvida disso. No dia de hoje, gostaria de compartilhar algumas lições que aprendi em 2020 (e também em outras épocas). Falo aqui como um investidor que, assim como você, atravessou diversos desafios nesta temporada.


Achei que seria interessante para vocês terem isso em mãos antes de repensarmos nossas carteiras, como geralmente fazemos ao fim de cada ano. Então, sendo esta a última vez que escrevo estas linhas ainda em 2020, escolhi esse tema para debater com você.


Afinal de contas, somos analistas, mas isso não nos faz infalíveis. A todo momento estamos aprendendo, evoluindo e buscando uma versão melhor de nós mesmos. Porque, assim como em diversas outras áreas, a prática é muito mais complicada do que o simples ato de falar.


Primeira lição: esqueça o futuro.


O glorioso caixa


Quando iniciamos o ano, as expectativas eram as melhores possíveis. O ano de 2020 era para ser o momento da redenção, no qual finalmente deslancharíamos no crescimento.


As perspectivas para a bolsa, claro, eram as melhores possíveis. Ao olhar os jornais, não faltavam previsões de analistas em 130 mil,140 mil ou 150 mil pontos.


De fato havia opções para todos os gostos. Porém, como diria Drummond, no meio do caminho tinha uma pedra. Ela era grande e veio na forma de uma catástrofe generalizada: uma pandemia global.


Em um primeiro momento, o mercado não deu muita bola. Muitos outros vírus já tinham infligido a humanidade, mas nenhum com capacidades desastrosas para os mercados. Os agentes econômicos, então, em um primeiro momento, deram de ombros. Conforme a doença saiu do continente asiático e infestou a Itália, os mercados começaram a se preocupar.


A volta do carnaval trouxe, em grande parte, a notícia de que em pouco tempo todos os países entrariam em lockdown, algo nunca antes visto no último século. Daquele momento em diante, o pânico tomou conta. A bolsa brasileira começava a cair e, aos poucos, entramos em uma série de circuit breakers.


Na época, lembro de ter sentido aflição e ansiedade. Logo nos primeiras quedas, ao redor dos 100 e 90 mil pontos, concentrei os meus aportes. A bolsa ainda sofreu algumas quedas fortes, aprofundando as perdas até o fatídico 23 de março, no qual chegou aos 63 mil pontos.


Não me entenda mal, não acho que o erro está em ter comprado aos 90 mil. Não havia a menor chance de saber que a bolsa teria quedas tão fortes e em uma velocidade tão rápida.


Contudo, diria que o problema foi não ter escalonado os aportes, adotando justamente o pensamento de que não sabemos qual é o fundo do poço. Ao fazer isso, certamente podemos deixar oportunidades pelo caminho.


Entretanto, nessas grandes oportunidades da bolsa, você terá caixa para fazer a festa. Naqueles dias, tive que somente observar a bolsa cair, sem conseguir fazer um aporte sequer. Retomei quando viramos para abril e os mercados já tinham subido cerca de 30 por cento.


Fica a lição: tenha caixa, pois é uma posição importante da sua carteira. Ao mesmo tempo, não tenha pressa e tenha uma boa estratégia para fazer aportes.



Prever o futuro


O ser humano tem uma obsessão por querer controlar o futuro. Desenvolvemos modelos complexos para isso, sempre na busca de fazermos melhores projeções e termos um maior entendimento do imponderável.


Confesso que tenho um pouco disso, por conta da minha herança como economista. Porém, ao avaliar este ano, fica cada vez mais claro como é falha a tentativa de projetar o futuro.


Em março, não faltavam cenários catastróficos. Não precisava de muito para ser pessimista naquele momento. Muitas previsões foram feitas, inclusive algumas tentativas de modelagens epidemiológicas para tentar entender o comportamento das curvas de contágio.


Lembro-me de que, ao conversar com vários gestores e colegas, fizemos as previsões para retomarmos os patamares do início de 2020 em 1 ou 2 anos à frente. Essa era uma discussão.


Naturalmente, tudo foi por água abaixo. Prova disso é que diversos modelos apontam para uma saída do lockdown bem mais rápida do que o realizado.


Quem esperou alguma sinalização mais positiva do vírus e das suas curvas de evolução  perdeu a recuperação mais rápida da bolsa.


Para a nossa surpresa, já buscamos novamente os 120 mil pontos. Isso seria inimaginável alguns meses atrás.


Fonte: Bloomberg

Fonte: Bloomberg



Entretanto, isso não quer dizer que todos os modelos são ruins. O valuation (comumente usado por analistas) tem suas falhas, mas também tem sua utilidade. Eu diria que, talvez, a forma como o utilizamos não seja muito interessante.


A meu ver, a única certeza que temos é relativa ao preço de mercado. Isso nós sabemos, afinal, é o nível em que as pessoas negociam hoje.


Uma forma de utilizar os modelos seria entender o que está precificado – a esse preço – nas companhias em termos operacionais.


Na época, em diversas ações, os “preços de tela” diziam que as companhias haviam perdido 40, 50 ou até 60 por cento do seu valor.  


Independentemente do cenário, para a maioria das empresas, um ano ou dois de fluxo de caixa menor nãosão capazes de executar tamanha destruição de valor das empresas – ainda que o cenário seja desafiador.


Ou seja, operacionalmente, as companhias precisavam ter piorado muito em relação à sua perpetuidade. Não parecia razoável, mas é exatamente isso que o pânico causa.


Agora, para ter esse tipo de avaliação, você precisa conhecer as companhias, pois só assim conseguirá fazer um julgamento mais crítico do que é factível ou não pensar.


Lembre-se: nem tudo que cai fica mais barato. Sendo assim, nas crises, não busque inventar moda. Investir em ativos que você não conhece só lhe trará problemas, principalmente se as próximas recuperações forem mais morosas.


Nesse caso, a falta de confiança pode ser o seu principal algoz.


Segunda lição: cuidado com as tentativas de projetar o futuro, elas são em vão. Busque entender os negócios e o que está no preço das companhias com base nos preços de mercado.


Alocação de portfólio


Eu entendo que a bolsa, hoje, é a menina dos olhos. Os maiores retornos estão sendo provenientes do mercado de ações, e alocar todo o portfólio nisso parece uma boa ideia.


Todavia esse nem sempre foi o caso. O mercado de ações, assim como tantos outros, tem seus ciclos de expansão e contração.


Por exemplo, entre 2010 e 2015, nós tivemos o Ibovespa de lado ou em tendência de queda, enquanto outros ativos se valorizavam – exatamente como na tabela abaixo.


Tabela mostra o Ibovespa de lado ou em tendência de queda enquanto outros ativos se valorizavam entre 2010 e 2015.

Fonte: Nord Research e Bloomberg


Veja que, nos últimos 9 anos, nunca o mesmo ativo foi a melhor performance anual dos mercados.  Além disso, note que em 9 anos o Ibovespa teve a melhor performance em somente 1 deles.


Para construir riqueza a longo prazo, não basta ter um ou dois anos de boa performance, mas sim uma sequência de bons resultados. Nesse meio tempo, certamente existirão períodos mais tranquilos e outros mais desafiadores.


A melhor forma de se preparar é construindo o seu portfólio justamente para enfrentar ambos os cenários, tornando-o robusto, equilibrado e rentável. Para isso, é importante que você não concentre somente em uma estratégia.


Então, por mais que o seu maior ganho seja em ações, não deixe de olhar o seu portfólio como um todo.


Essa é a melhor lição que posso lhe passar.


Aprendizados para a vida


Como investidor, a única constante em nossa atividade é o ato de aprender. Esse é o nosso maior ativo, estar sempre buscando maneiras de sermos melhores.


Em vista disso, pensei em compartilhar esses ensinamentos com você. Espero que eles sejam úteis e que possam lhe tornar um investidor mais completo.


Para quem tem interesse, a Marília faz um trabalho espetacular nesse trabalho de alocação no Nord Advisor.


Bruce e Ricardo, nas séries Investidor de Valore Nord Dividendos, não vão deixar vocês caírem nos dois primeiros erros que eu apontei.


Por fim, foi um prazer contar com a presença de cada um de vocês. Agradeço de coração por todo o tempo despendido na leitura destas linhas ao final deste ano.


Contem conosco sempre!


Ótimas festas!


Abraços,


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por Luiz Felippo
em 27/12/2020 para Nord Insights

Iniciou sua carreira num projeto de renda fixa do Insper com o BTG Pactual. Posteriormente atuou na área de pesquisa econômica internacional do Itaú Asset Management e foi analista de Renda Fixa da Empiricus Research. Formou-se Economista no Insper.

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