Trump e Biden

Primeiro confronto entre os candidatos à presidência americana decepciona. Enquanto isso, o mundo real continua desafiador.


O primeiro debate entre o atual presidente dos Estados Unidos, Donald Trump (partido republicano) e seu oponente, Joe Biden (partido democrata), foi um fiasco.

Ao invés de aproveitarem a oportunidade para expor a milhões de americanos seus planos para o futuro da nação, que passa atualmente por uma das maiores crises já enfrentadas, ambos preferiram proferir ataques pessoais, não poupando os espectadores de palavras de baixo calão.

Acredito que todos esperávamos mais de ambos. O comportamento observado durante a transmissão só mostra o quanto os Estados Unidos carecem de um comando mais sensato, ainda mais nos tempos atuais.

Feito esse desabafo, comunico a vocês que o problema atingiu tamanha proporção e indignação por parte da população norte-americana, que a comissão responsável pelos debates mudará a forma dos próximos encontros – que acontecem em 15  e 22 de outubro – em vistas de que ambos se comportem de acordo com suas posições políticas e principalmente etárias.

Joe Biden tem uma longa carreira política, diferentemente do atual presidente, o que me leva a acreditar em um sucesso maior de sua parte no quesito negociações na comparação com Trump, cujo comportamento, na maioria das vezes, passa por impor sua visão, visto que ele detém o poder de controlar a maior economia do mundo.

O plano de Biden para a economia dos Estados Unidos,  caso seja eleito, é agressivo. Sua proposta consiste de gastos adicionais aos correntes na ordem de 7,3 trilhões de dólares ao longo da próxima década, com foco majoritariamente em infraestrutura, educação e programas sociais, que incluem saúde, moradias e previdência social.

A maioria dos gastos está prevista para os quatro primeiros anos de governo, em vistas de levar o país ao pleno emprego e, assim, reviver a economia dos Estados Unidos.

Em seu plano, Biden propõe uma vasta mudança no atual sistema de impostos do país. A intenção é de aumentar os impostos, principalmente os recolhidos pelas empresas e, desse modo,  ampliar a arrecadação federal em nada menos do que 4,1 trilhões de dólares.

Tal mudança seria indispensável para viabilizar o seu plano de investimentos, visto que, mesmo sendo a maior economia do mundo, até mesmo os Estados Unidos possuem um limite para endividamento.

Nesse caminho, o plano de Biden espera que o deficit do país chegue a 3,2 trilhões de dólares ao longo dos próximos dez anos, o que poderia elevar o índice dívida/PIB do país para 130 por cento ao final da década.

Diante de um alto desemprego e uma economia debilitada, Biden não teria que se preocupar com o custo dessa dívida durante seu mandato, visto que o Federal Reserve (Banco Central dos EUA) deve manter os juros em um patamar próximo de zero por muitos anos. Uma despesa a menos.

Os cidadãos de baixa e média renda devem ser os mais beneficiados pelo plano de Biden. Os impostos pagos por eles pouco devem mudar e, ao mesmo tempo, colheriam os benefícios gerados pelos gastos do governo em educação, saúde e infraestrutura. Por outro lado – já que a conta deve “fechar” –, os mais impactados seriam os cidadãos de alta renda e as empresas, que necessariamente teriam que contribuir mais com o país, mediante o pagamento de impostos mais elevados.

Donald Trump é uma figura peculiar. Constantemente se gabando de seu passado bem-sucedido como empresário, desde o primeiro dia em que assumiu a Casa Branca, mais esbraveja do que faz – neste ponto, qualquer semelhança com um certo político no Brasil trata-se de mera coincidência.

O grande feito de nosso querido Donald  não é o pato Donald – foi a redução dos impostos pagos pelas empresas, o que de fato ajudou no crescimento da economia dos Estados Unidos, mas principalmente os acionistas das grandes corporações – nossos dividendos agradecem.

Todavia, o plano apresentado pelo atual presidente dos Estados Unidos é muito menos ambicioso do que o proposto pelo seu oponente, visto que ele acredita piamente em uma retomada da economia em “V”, o que levaria a uma menor necessidade da mão do governo ao longo dos próximos anos.

Ao contrário de Biden – que planeja elevar os impostos – o plano econômico de Trump considera uma redução de 1,9 trilhão de dólares em impostos, estes pagos principalmente por empresas e cidadãos de alta renda, bem como 700 bilhões de dólares a menos em gastos governamentais ao longo dos próximos dez anos.

Do lado dos investimentos, o programa de governo proposto considera investimentos da ordem de 1 trilhão de dólares em infraestrutura durante a próxima década, que seriam “financiados” por uma redução de gastos em outras frentes, como saúde, educação e programas de bem estar social. No final, corta-se mais do que se investe, e a economia de dinheiro seria perto dos 700 bilhões de dólares.

A expectativa de algumas consultorias é de que uma vitória de Biden deve acarretar em uma recuperação mais rápida da economia dos Estados Unidos, por conta de seu plano mais auspicioso em relação aos investimentos. Nesse caso, todos os problemas gerados pela Covid-19 devem ser superados ao final de 2022. Já uma vitória de Trump significa uma recuperação mais lenta, com o pleno emprego sendo atingido apenas em 2024.

O fato é que não sabemos quem ganhará a disputa. Mesmo que pudéssemos nos antecipar ao veredito, ainda há uma segunda parte da equação – o senado e a câmara – que também deve passar por alguma renovação nesta eleição.

O que podemos fazer é investir em boas empresas que, independentemente do desafio, provam-se resilientes e bem administradas, exatamente a proposta do Nord Global.

Os problemas nas economias mundo afora persistem.

Na Europa, crescem ainda mais os casos de novas contaminações pela Covid-19, e a chance de uma segunda onda aumenta a cada dia.

Fonte: BBC


Até a semana passada restritos ao velho continente, tivemos, nesta semana, um expressivo aumento de casos também em NY. Todavia, o mercado ainda ignora uma possível retomada mais severa das medidas de distanciamento social. “Até quando?”  esta é a pergunta que me faço todos os dias.

Ontem tivemos o anúncio “surpresa” de que Donald Trump e sua esposa foram contaminados pelo vírus. A recuperação deve se dar estritamente na Casa Branca ao longo das próximas duas semanas, o que pode tirar o presidente do próximo debate, marcado para 15 de outubro. Seria uma mera coincidência? Não quero alimentar a teoria das conspirações...

Dados da economia norte-americana, publicados ao longo desta semana, também não encorajam muito a perspectiva de uma recuperação mais rápida.

Na quinta-feira, tivemos a divulgação das rendas das famílias – todo montante recebido em forma de salários, investimentos e ajuda governamental –, que teve declínio de 2,7 por cento na comparação mensal.

O dado não é lá muito positivo, e mostra que a recuperação da economia norte-americana pode ser um pouco mais lenta do que o esperado.

O gráfico abaixo mostra a evolução da renda das famílias ao longo dos últimos meses. Notadamente, quando do envio dos cheques de 600 dólares semanais, por parte do governo, houve um aumento na renda.

Entretanto, assim que parte do benefício cessou, o indicador tem mostrado queda, o que nos leva a crer que, sem a ajuda do governo, a economia por si só ainda não consegue ajudar as pessoas a retomarem a renda vista antes da pandemia.



Fonte: WSJ

Ontem, tivemos a divulgação de um dos mais importantes indicadores para a economia dos Estados Unidos: a quantidade de postos de trabalho criados durante o mês de setembro.

No total, a economia por lá adicionou 661 mil novos postos de trabalho no mês, o que levou a taxa de desemprego para 7,9 por cento. Desde o início da pandemia, a nação recuperou 11,4 milhões de postos de trabalho, frente a uma perda de 22 milhões entre março e abril deste ano.

Apesar de positivo, o número de empregos criados durante o mês passado ficou, pela primeira vez desde março, abaixo de 1 milhão de vagas, o que pode significar uma desaceleração na retomada da economia.

Fonte: CNBC

Até agora, a recuperação das principais economias se deu por meio de ajuda governamental: os países aumentam sua dívida e repassam o dinheiro para as pessoas e negócios.

Não poderemos seguir nesse caminho para sempre. O mercado mantém seu comportamento infantil, fazendo birra quando os principais líderes do mundo indicam que não há espaço para uma nova rodada de estímulos. Por sua vez, como não querem a perda de popularidade, esses cedem e tomam medidas que outrora seriam melhor avaliadas.

Acredito que temos que deixar a economia correr, apesar do efeito duro que isso terá sobre milhões de pessoas. Caso essa não seja a solução, o problema ficará de tal complexidade e tamanho mais à frente que as consequências podem ser ainda mais danosas ao mundo.


Um abraço e bom final de semana a todos.


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por Cesar Crivelli
em 03/10/2020 para Nord Insights

Bacharel em Administração de Empresas pela PUC-SP, possui MBA pela FGV e MSF pela Hult International Business School. Integrou a equipe de Equity Research do Citibank e tesouraria da General Motors (GM) no Brasil. Posteriormente, atuou nas frentes de M&A e novos negócios da Xeros Cleaning Technologies (XTG), nos Estados Unidos. Ingressou na Nord Research em outubro de 2019, como parte do time do Nord Small Caps, e hoje é responsável pelo Nord Global.

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