Transatlântico com movimento de lancha

Onde ainda é possível ganhar com os juros

Em retrospectiva, poucos movimentos no cenário internacional foram tão bruscos como as mudanças de postura do Fed nos últimos dois anos.


Até porque, em economias desenvolvidas, a condução da política monetária se assemelha a um transatlântico se movendo.


Não há mudanças bruscas. Na hora de mudar o curso, tudo é meticulosamente calculado e feito lentamente.


Tenho um bom exemplo em mente: quando o Fed foi iniciar o ciclo de alta de juros em 2016, passou vários meses, em 2015, sinalizando essa possibilidade.


Mas, no final do ano passado, o BC americano atuou como uma lancha rápida. Depois de meses apontando para o caminho de altas de juros, mudou rapidamente o discurso.


Primeiro, indicando que os juros não subiriam mais que o patamar atual e, no começo de 2019, já dialogando com cortes de juros à frente – hoje o cenário base deles.


Ou seja, em pouco tempo, o transatlântico teve que se movimentar como uma mini lancha.


Isso é raro de se ver.


E, claro, tem dedo do Trump nessa história. Mas não do jeito que você pensa.


"No Trade War, quem perde é o Fed"


Essa frase não é de minha autoria, escutei ela de um gestor da Kinea.


Mas, resolvi usá-la porque demonstra exatamente o que aconteceu.


Com a guerra comercial drenando o crescimento global, foi questão de tempo para a economia americana começar a sentir o peso.


E, aos poucos, o ônus dessa desaceleração caiu no colo do Powell (presidente do BC americano)  que olhava de longe os recuos da economia.


O Fed, olhando a fraqueza dos dados econômicos, está respondendo a tudo isso com sua arma mais comum: os juros.


Reduziu 0,25 ponto percentual na última reunião e deve repetir a dose agora em setembro – o arsenal total é de 200 bps, então tem um bom espaço para cortes.


No entanto, quanto mais as negociações com a China piorarem, mais fraca se torna a economia e mais cortes virão.


Afinal, vale tudo para mitigar o risco de recessão e o Fed sabe disso


Pois é, no final, quem perdeu a queda de braço foi o Powell.

Não somos uma ilha


Não há novidade que, no curto prazo, os ventos vindos do exterior possuem uma grande influência em nós.


Se o Fed sinaliza reduzir os juros por lá, logo os mercados por aqui se animam. A bolsa sobe, os juros futuros recuam e o dólar dá uma amenizada.


Legenda: Juros futuros Brasileiros para 2025 (Laranja) , Taxa futura da economia americana para o final deste ano (azul) e Ibovespa (preto). Fonte: Bloomberg


Naturalmente, isso tudo não vale só para nós.


Com a economia americana desacelerando e o Fed precisando ser cada vez mais agressivo nos juros, grande parte do mundo desenvolvido e emergente tem precificado queda de juros à frente.


Legenda: queda de juros precificadas em bps (100 bps = 1 por cento). Fonte: Equipe Kinea


Note que, nessa belíssima tabela produzida pela equipe da Kinea, somos disparado o país com mais ALTAS de juros precificadas a frente.


Pois é, mesmo com todo o cenário de crescimento fraco aqui.


Na minha cabeça, isso não faz o menor sentido.


Voltando ao nosso quintal


Imagino que todo esse potencial “ciclo de alta” que o mercado está precificando esteja baseado em um único fator: a desvalorização agressiva do câmbio.


Afinal, a perda de valor do real motivaria uma alta da inflação e colocaria em xeque os planos do nosso BC de seguir cortando os juros  o que é verdade.


Mas, seria esse movimento para reverter a tendência de queda na Selic?


Acho que não.


De fato, o real é uma das moedas que mais perdeu valor nos últimos meses  saindo dos 3,70 e caminhando para acima dos 4,00 reais.


O ponto é que, em 2018, esse movimento foi muito mais forte passando dos 3,20 para a casa dos 4,00 reais e vimos poucos efeitos na inflação



Legenda: Núcleos do IPCA ano contra ano (laranja) vs cotação Real/Dólar (preto)


Sendo assim, por que agora seria diferente?


Com o PIB demorando a crescer, o hiato do produto ainda extenso e esse movimento de corte de juros do FED aliviando o dólar, o BC brasileiro, no limite, recuaria em testar níveis de juros muito baixos.


Mas, não vejo ele subindo juros — pelo menos não em um prazo relevante de tempo.


Logo, tem prêmio nessa curva de juros aí meu povo e nós podemos aproveitar isso.


Como ganhar?


Se você está pensando em tentar aproveitar esse movimento via tesouro direto: esqueça!


Mesmo que estejamos certos e os juros comprimam 1 por cento, o que já é muito, você ganha cerca de 2 ou 3 por cento bruto e ainda precisa descontar o Imposto de Renda.


É merreca, um espirro na bolsa já leva as ações a subirem muito mais que isso.


Então, não é esse o caminho.


Quem consegue aproveitar esse movimento com propriedade são os fundos multimercados.


Dois motivos para que seja assim:


(1) Eles podem alavancar;


(2) Conseguem entrar e sair fácil, uma vez que o IR é bem menor.


Isso torna as apostas muito mais interessantes, garantindo um risco vs retorno mais favorável.


Logo, se quiser entrar nessa onda, está na hora de você escolher um bom multimercado.


O primeiro, eu diria, o Kinea Chronos. O Marco Freire e a equipe têm feito um trabalho belíssimo à frente dos fundos, com consistência e bons resultados.


Infelizmente, dado o sucesso, está fechado. Mas os assinantes do Nord Fundos ficaram sabendo imediatamente da sua abertura no mês retrasado e aproveitaram.


Agora, fora eles, tem uma lista completa de fundos nossa série Nord Fundos que você pode começar a aproveitar já.


Por hoje é isso.


Abraços e ótima semana!


Em observância ao Artigo 22 da Instrução CVM nº 598/2018, a Nord Research esclarece que oferece produtos contendo recomendações de investimento pautadas por diferentes estratégias e/ou elaborados por diferentes Analistas. Dessa forma, é possível que um mesmo valor mobiliário encontre recomendações distintas em diferentes produtos por nós oferecidos. As indicações do presente Relatório de Análise, portanto, devem ser sempre consideradas no contexto da estratégia que o norteia.


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por Luiz Felippo
em 09/09/2019 para Nord Insights

Iniciou sua carreira num projeto de renda fixa do Insper com o BTG Pactual. Posteriormente atuou na área de pesquisa econômica internacional do Itaú Asset Management e foi analista de Renda Fixa da Empiricus Research. Formou-se Economista no Insper.

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