Todos os caminhos levam a Pequim

Novo aumento de tensões entre China e EUA ditam rumo dos mercados

Risk-off

Caminhamos para encerrar a semana em tom mais grave. Mercados globais têm dia de aversão a risco frente ao noticiário, cujo principal foco é o aumento de tensões entre China e Estados Unidos ante sinais de endurecimento da postura chinesa com relação a Hong Kong.


Não por acaso, o mercado honconguês — que, desde a capitulação britânica, tem relação difícil com Pequim — apresentou forte queda na madrugada, marcando seu pior desempenho em um dia desde 2015.


Também vem de Pequim sinais ambíguos na economia: diante dos desafios impostos pelo coronavírus, o país abandona sua tradicional meta de crescimento econômico.


Mercados europeus têm dia de queda e na mesma direção apontam futuros nova-iorquinos. Do lado de cá, um evento raro: sinais de pacificação entre Presidente, Congresso e Governadores abrem espaço para ações mais coordenadas e racionais em meio à nossa luta contra a COVID-19.


Que a paz perdure.


Avanço contra Hong Kong

A tensão geopolítica da vez é a intenção chinesa de impor a Hong Kong uma lei de segurança nacional. O objetivo seria interromper atividades subversivas e a interferência estrangeira na cidade, que tem status diferenciado de semi-autonomia desde que voltou a mãos chinesas, em 1997.


O território é alvo de protestos recorrentes, a cada vez que Pequim sinaliza ampliar sua intervenção nas políticas locais. Como consequência, é questão delicada nas relações sino-americanas — abaladas, também, pela postura estadunidense frente aos expedientes chineses relacionados à pandemia em curso. Trump alertou que pode retaliar e encontrou apoio no Senado americano, disposto a aplicar sanções à parte chinesa.


O novo fator de tensão geopolítico aumenta os riscos de um trade deal, almejado desde o início desse ano, ficar ainda mais distante.


Alguns especialistas têm alertado para a possibilidade de o coronavírus se tornar uma epidemia persistente, que terá que ser enfrentada por um bom tempo. Pelo jeito é o mesmo status da trade war sino-americana.


Vamos deixar a meta aberta

Em meio ao Congresso Nacional do Povo, em Pequim, atenções voltadas ao anúncio da meta de PIB para o ano: a expectativa é de que, em decisão histórica, o governo chinês opte por deixar a meta aberta.


Imerso em desafios provocados pela epidemia iniciada em Wuhan, o governo chinês — acredita-se — volte suas atenções primárias ao desemprego, que se elevou significativamente.


É sempre estranha a perspectiva de crescimento econômico e emprego serem tratados como variáveis independentes: a não ser que o plano seja contratar uma legião de carimbadores de papel inútil, a alocação da força de trabalho deveria se traduzir em crescimento econômico — e, portanto, alguma meta de expansão da economia poderia (e deveria) ser mantida.


Mas a questão tem contornos políticos: sustentar a expansão do produto chinês já não vinha sendo tarefa fácil, e a COVID-19 parece um bom motivo para mudar de assunto. Quando tudo estiver melhor, dobramos a meta.


Estímulos econômicos devem, também, disputar espaço na pauta do colóquio chinês. Tudo aponta para o resgate do já conhecido receituário de estímulos via investimentos em infraestrutura, obras públicas e tutti quanti. Bom para produtoras de hard commodities, como minério de ferro, cobre e outras.


A paz esteja convosco

Em um gesto raro, Presidente, Governadores e Parlamentares parecem ter conseguido deixar diferenças de lado e firmar um pacto, tendo o interesse nacional como foco. Foi surpreendentemente pacífico o tom da reunião promovida ontem.


No centro da discussão, a negociação aberta entre Bolsonaro e demais partes com relação ao socorro aos Estados e Municípios. O Presidente sinalizou que vetaria os trechos do projeto que confeririam liberdade aos demais entes federativos para conceder reajustes a diversas categorias de servidores públicos em meio ao fogo cruzado que vivemos.


O argumento é de uma lucidez rara ao mandatário da República: em um momento de dificuldades, todos precisam oferecer sua cota de sacrifício. Governadores assentiram — Raymundo Faoro ficaria orgulhoso.


Há lógica política na cooperação: governos estaduais, que passaram boa parte do ano rebelados contra Brasília, percebem agora as consequências aos respectivos erários da ação descoordenada: com atividade econômica em frangalhos, arrecadação desaba em todas as esferas da administração pública. Sem a receita de tributos, como fechar as contas senão estendendo o pires ao governo central?


Não coincidentemente, o Congresso aprovou ontem projeto de lei que permite ao governo descumprir a famigerada regra de ouro em 2020. Fossem outras as condições, acredito que o mercado reagiria bem mal ao beneplácito pela frouxidão fiscal. Mas tempos difíceis demandam medidas extraordinárias — o eterno desafio tupiniquim é não tornar a gastança excepcional o novo normal quando tudo isso passar.


O dinheiro não chega

Enquanto gestores públicos articulam para fechar as próprias contas, o mundo privado segue em dificuldades para lidar com as consequências da pandemia. Os últimos dias têm permitido dar eco a algo para o que já vínhamos advertindo: as linhas de financiamento disponibilizadas pelo Governo Federal não chegam à maioria das pequenas e médias empresas.


O problema é de design. Mesmo abastecidos com liquidez adicional, bancos não emprestam em razão do risco de crédito. O sistema financeiro reluta — não sem razão — em expandir operações em um momento de economia fortemente combalida e, em muitos casos, com visibilidade de retomada comprometida. Vale ter em mente, por exemplo, que a possibilidade de lockdown paira em território paulista.


O Ministério da Economia se diz atento. E parece, sinceramente, fazer o que pode ante a complexidade e morosidade da nossa máquina pública — estrutura difícil de mudar, diga-se de passagem. Fato concreto é que, a não ser que riscos de crédito sejam pelo menos divididos com mais alguém, bancos seguirão retendo os recursos.


Reitero o apelo de sempre: ajude os pequenos.


Que seja eterno enquanto dure

Brasil não é Brasil sem emoção. Mal selou-se acordo de paz entre os entes federativos e já podemos estar, mais uma vez, à beira de um evento que muda tudo.


Espera-se ainda para esta sexta-feira a decisão, do Ministro Celso de Mello, sobre a divulgação integral da reunião ministerial na qual Bolsonaro teria falado impropérios que podem colocá-lo em maus lençóis.


Para além das questões atinentes à Polícia Federal, sugerem as más línguas que há ataques contundentes aos governadores. Era uma vez um acordo de paz...


Se o vídeo for liberado, William e Renata terão uma noite divertida. Talvez não tenhamos amostra desse quilate do que se passa nos bastidores do poder desde os episódios do Bessias e do tem que manter isso aí. Prepare a pipoca.


Madrugada passada, a ALESP sacramentou o feriado em São Paulo na segunda-feira. Mas não se preocupe: teremos B3 aberta — e, com Memorial Day nos Estados Unidos (bolsas fechadas por lá), teremos tempo de sobra para repercutir nosso noticiário doméstico.


Bom final de semana.


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por Ricardo Schweitzer
em 22/05/2020 para Nord Insights

Possui 14 anos de experiência no mercado financeiro. Antes de fundar a Nord Research passou pela Adviser Asset, Fundação CEEE, Sicredi Asset, Votorantim Corretora e Empiricus Research. Formou-se em economia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

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