Todos os caminhos levam a Pequim

Investidores debatem impacto da epidemia do coronavírus

Nem Marco Polo imaginava

Se a manhã de segunda-feira der o tom da semana, não espere vida fácil nos próximos dias: mercados amanheceram lá fora com viés de cautela, acompanhando o noticiário do coronavírus.


Se, por um lado, notícias de retorno às atividades na China trazem algum conforto, de outro a persistente multiplicação de casos — ainda muito restrita àquele país, é verdade — instiga inferências sobre a dimensão do impacto econômico da epidemia mundo afora.


Afinal de contas, são raras as supply chains que não dependem, em maior ou menor medida, dos chineses: nem Marco Polo imaginaria a dimensão disto.


Madrugada foi de queda para maioria dos índices asiáticos. A manhã é lacônica nos mercados europeus, enquanto futuros novaiorquinos ainda decidem que direção seguirão hoje.


Questão de módulo

Estamos desde o impeachment aguardando por uma retomada mais consistente da economia brasileira.


Mesmo sob Temer íamos bem, mas o Joesley Day frustrou as expectativas de todos. Se 2019 foi ano de ajustes, o ano corrente carrega esperanças relevantes.


Mas o choque externo provocado pela situação na China não pode ser ignorado, e por conta dele expectativas de crescimento em toda parte — inclusive na terra brasilis — começam a ser revisadas. É fato: não somos ilha.


Ficamos presos à eterna pergunta: e aí, agora vai?


Eu ainda acho que vai, mas penso que vale a pena ficarmos atentos às expectativas que serão reveladas pelas empresas junto com os resultados do 4T19. Talvez — eu disse talvez — a gente até vá, mas mais devagar do que gostaríamos… mais uma vez.

Direção e sentido parecem mantidos, mas talvez o módulo não seja o que gostaríamos.



Questão de perspectiva

Eventos como os que se desenrolam atualmente sempre trazem repercussões interessantes.


Uma comparação entre estimativas de Preço/Lucro futuros de Ações do S&P500 contra o MSCI Ásia indicam que, em termos relativos, Empresas do Extremo-Oriente nunca estiveram tão baratas versus o mercado americano.



Análises relativas sempre merecem algum cuidado: isto significa que Ásia está barata ou que os mercados do Tio Sam estão caros?


Talvez um pouco dos dois: os últimos anos foram de glória para os mercados americanos, que seguem demonstrando pujança a despeito de persistentes expectativas de desaceleração econômica por lá.


E é sempre bom lembrar: a não ser que ressuscitem a tese do descolamento para nosso mercado local, uma reversão por lá também pode impactar valuations por aqui.


Isso é tão 2007

O aviso é especialmente importante quando se olha não somente para o desempenho do mercado local em sentido amplo, mas principalmente quando revisamos a alegria dos últimos IPOs.


Ofertas precificadas repetidamente no topo da faixa indicativa e com estreias de valorização de dois dígitos começam a levantar dúvidas sobre a possibilidade de investidores locais estarem afoitos demais.


Tento me colocar na cabeça do institucional local: fundos captando em ritmo acelerado — e precisando alocar esses recursos —, valuations das veteranas da B3 já não tão óbvios empurrando-os para novidades, constante medo de ficar de fora


É tudo tão 2007.


Se você está há pouco tempo na bolsa e, diante das últimas semanas, se sente tentado(a) a fazer planos — assumindo um retorno mensal de x por cento, “posso viver de bolsa” —, recomendo fortemente dar uma respirada.


Calma.


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por Ricardo Schweitzer
em 10/02/2020 para Nord Insights

Possui 14 anos de experiência no mercado financeiro. Antes de fundar a Nord Research passou pela Adviser Asset, Fundação CEEE, Sicredi Asset, Votorantim Corretora e Empiricus Research. Formou-se em economia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

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