Temporada de resultados

Foi dada a largada para a divulgação dos resultados do 3T20 nos Estados Unidos.


Passado

Ao final do mês de agosto, encerrava-se a safra de resultados do 2T20, uma das mais desafiadoras dos últimos anos, tanto para os analistas – dada a tamanha incerteza do impacto da crise nos resultados das empresas – quanto para as Companhias, que tomaram medidas drásticas e tiveram de se reinventar para sobreviver ao segundo trimestre deste fatídico 2020.

Ao final daquela temporada de resultados, as empresas que compõem o S&P 500 mostraram uma queda de aproximadamente 32 por cento na comparação anual nos lucros reportados. Foi a maior baixa desde o primeiro trimestre de 2009, quando da crise do subprime.

Gráfico mostra uma queda de aproximadamente 32 por cento dos lucros reportados das empresas que compõem o S&P 500 na comparação anual.

Fonte: Factset

Naquele momento, o setor de energia, principalmente as companhias ligadas ao segmento petrolífero, foi destaque negativo do ponto de vista de receitas. Vale lembrar que o petróleo desabou durante o primeiro semestre do ano, saindo de 60 dólares o barril  no começo do ano para algo próximo a 25 em meados de abril.

Do lado positivo, tivemos as empresas ligadas ao setor de consumo, principalmente aquelas do segmento tecnológico, como a Amazon, que surpreenderam positivamente o mercado, tanto sob a ótica de receitas quanto de lucro.

Enquanto uns choram, outros vendem lenços, não é mesmo?

Presente

Pois bem, estamos aqui novamente de olho nos resultados das principais empresas do mundo. A expectativa geral é de que os números do 3T20 sejam bem melhores do que os publicados durante o 2T20, visto que a economia mundial voltou a funcionar.

Todavia, parece que as cicatrizes deixadas pela pandemia vão demorar a fechar. Os analistas de Wall Street esperam uma queda de lucros em relação ao 3T19 de 20 por cento. Caso esse número venha a se concretizar, seria a segunda maior perda em uma base anual desde o 2T2009, quando ainda estávamos sob efeito da crise do subprime.

Gráfico mostra a estimativa de queda nos lucros das empresas dentro do S&P 500 no 3T20, algo perto de 21 por cento.

Fonte: Factset

Tendo em mente esses números, acho que fica evidente que o momento atual é extremamente desafiador para a maioria das empresas, apesar da melhora econômica que temos observado mundo afora.

Entretanto, a incerteza ainda é de tal tamanho que 25 por cento das Companhias que compõem o índice S&P 500 ainda não passaram para o mercado a expectativa de receita e lucros para 2021.

Até o momento, quase 10 por cento das empresas dentro do índice já reportaram os resultados do 3T20, como mostra o gráfico abaixo.

Imagem mostra que quase 10 por cento das empresas dentro do índice já reportaram os resultados do 3T20.

Fonte: Bloomberg

Por enquanto, o mercado está sendo surpreendido pelas companhias com receitas levemente acima do esperado, mas lucros fortemente acima das expectativas.

O destaque até agora é o setor financeiro, cujos resultados foram bons no 3T20.

Os grandes bancos dos Estados Unidos tiveram resultados bons, mesmo em comparação com o ano anterior, como mostra o gráfico abaixo. Algumas instituições mostraram receita (sales) cerca de 10 por cento acima do previsto pelo mercado e lucros (earnings) 20 a 30 por cento melhor do que o previsto.  

Imagem mostra os grandes bancos dos Estados Unidos que tiveram resultados bons, mesmo em comparação com o ano anterior. Algumas instituições mostraram receita (sales) cerca de 10 por cento acima do previsto pelo mercado e lucros (earnings) 20 a 30 por cento melhor do que o previsto.

Fonte: Bloomberg

Parte dessa “surpresa” se deu por conta de um aumento nas receitas, principalmente as provenientes de atividades ligadas ao mercado de capitais, como trading e assessoria financeira, mas também por conta de provisões menores em relação às potenciais perdas com empréstimos, o que também demonstra um efeito passageiro da crise no bolso das pessoas.

Futuro

Ainda temos um longo caminho pela frente. O mês será muito agitado e tenho certeza que teremos surpresas – positivas e negativas – pelo meio do caminho.

Contudo, sempre falamos aqui na Nord que o valor de uma Ação tende a acompanhar o lucro apresentado por determinada empresa. A realidade é que, se uma Companhia consegue apresentar lucros crescentes, seu valor segue esse caminho e as Ações sobem de preço.

E se eu falasse para vocês que existem empresas, muitas delas, que tiveram, ao longo dos últimos anos, expressivas altas em suas Ações, inclusive na crise atual, mas o lucro de tais companhias nos últimos anos não cresceu muito?

Você acha que esse movimento de alta generalizado nas Ações de centenas de empresas estaria correto? Dê uma olhada no quadro abaixo, no período 1 e 2.


Entre 2017 e 2018, vimos uma crescente melhora nos lucros apresentados pelas empresas que compõem o índice S&P 500.
Nesse período, o índice chegou a apresentar alta acumulada de 50%, antes de ser afetado fortemente pela guerra comercial entre EUA e China.

Já no ano de 2019, os lucros das empresas ficaram estagnados e o índice S&P 500 subiu +28%. Agora, em 2020, o índice mostra valorização de 9% enquanto os lucros mostram queda de -20% a -30%.

Fonte: Factset


O resumo da história é que o índice S&P 500 subiu bastante ao longo dos últimos anos, sem que a maior parte das empresas que fazem parte dele apresentassem lucros maiores.

Seguindo nosso raciocínio anterior, as Ações se “descolaram dos lucros”.

Podemos também dizer que elas ficaram mais “caras”, visto que os investidores pagam mais para comprar uma Ação da empresa X, mas o lucro dela está estagnado ou mesmo caindo, ou seja, o tempo do retorno desse investimento, sob essa ótica, está aumentando.

Quando olhamos essa razão matemática entre os preços das Ações e o Lucro por Ação, denominamos este indicador de Preço/Lucro (ou Price/Earnings na terminologia em inglês).

Esse indicador para o índice S&P 500 – composto pelas maiores empresas dos Estados Unidos e do mundo – hoje apresenta um Preço/Lucro em torno de 22x, que é o maior patamar dos últimos 10 anos, como mostra o gráfico abaixo. Se olharmos um horizonte maior, veremos que o nível atual é superior ao apurado quando da bolha das empresas de tecnologia nos anos 2000.

Gráfico mostra indicador para o índice S&P 500 – composto pelas maiores empresas dos Estados Unidos e do mundo – que apresenta atualmente um Preço/Lucro em torno de 22x (o maior patamar dos últimos 10 anos).

Fonte: Factset

Acredito que os resultados a serem reportados pelas Empresas nesse trimestre, bem como no próximo, serão fundamentais para a sustentação do mercado acionário norte-americano nos patamares atuais.

Como observamos previamente, a alta no preço das Ações não foi acompanhada por um crescimento no lucro das empresas, o que, no longo prazo, acredito não ser sustentável.

Até a próxima semana!


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por Cesar Crivelli
em 17/10/2020 para Nord Insights

Bacharel em Administração de Empresas pela PUC-SP, possui MBA pela FGV e MSF pela Hult International Business School. Integrou a equipe de Equity Research do Citibank e tesouraria da General Motors (GM) no Brasil. Posteriormente, atuou nas frentes de M&A e novos negócios da Xeros Cleaning Technologies (XTG), nos Estados Unidos. Ingressou na Nord Research em outubro de 2019, como parte do time do Nord Small Caps, e hoje é responsável pelo Nord Global.

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