É preciso saber a hora de recuar

Certa vez, aproveitando um feriado prolongado, eu e alguns amigos decidimos que passaríamos os dias de folga em uma chácara próxima a Campos do Jordão.


O combinado era sairmos no final da tarde, de forma a não chegarmos muito tarde em nosso destino. Chegada a hora de partir, nos dividimos em dois carros e colocamos o pé na estrada.


Eram 3 longas horas de viagem e, quando iniciamos, o sol se punha e aos poucos dava lugar à noite. Naquele momento, apesar de não enxergarmos tão bem, a pista estava livre.


Tínhamos todas as cinco faixas só para nós, o que facilita muito o acompanhamento do carro à frente e reduzia enormemente o risco de qualquer acidente acontecer.


Entretanto, conforme fomos avançando na viagem, a noite foi ficando cada vez mais escura. A estrada, que antes era ampla, agora dava lugar para um regime de serra com somente duas faixas estreitas.


Além disso, para piorar a situação, iniciava-se uma garoa e uma bela neblina, o que dificultava ainda mais a nossa visibilidade.




Enfim, lembro-me de estar no banco da frente, como copiloto, e enxergar pouquíssimo do caminho à frente. Ainda assim, no carro da frente, o pessoal corria feito louco mesmo em curvas sinuosas.


Para acompanhá-los, nós aceleramos um pouco. Mesmo assim, não dávamos conta de segui-los… aumentamos ainda mais a velocidade. Repetimos esse ciclo algumas vezes.


Depois de um tempo, chegamos ao ponto onde o carro já balançava bastante e estava difícil manter uma boa estabilidade em meio às curvas. Nós sabíamos que qualquer deslize nestas condições de pista e velocidade poderia ser um grande problema para nós.  


Resolvemos, então, reduzir a velocidade e deixar eles seguirem em frente. Afinal, era melhor estarmos perdidos do que gravemente feridos.

Tirando o pé do acelerador


Parece uma história somente ilustrativa, mas ela representa muito bem as mudanças do mercado nos últimos meses.


Vem comigo que você vai entender.


No auge da crise do coronavírus, em março, nós tínhamos baixa visibilidade do que viria. Era difícil entender algo em meio àquela confusão, mas isso era compensado por um Ibovespa a 60 mil pontos.


Em outras palavras, apesar de não enxergarmos um palmo à nossa frente, nós tínhamos cinco pistas vazias para andar e a chance de um acidente ali era muito baixa.


Porém, conforme se passaram os meses, a situação foi se alterando. As discussões sobre reforma administrativa, tributária e redução do Estado, pilar do governo, parecem ser substituídas por pressões para romper o teto de gastos.


E, claro, sem um caminho de reformas, as nossas chances de “dar certo” reduzem drasticamente.


Além disso, as empresas ainda estão sofrendo com efeitos da pandemia. Os impactos nos resultados do 2° trimestre ainda estão sendo sentidos, seja em maior ou menor grau.


Por fim, os preços em bolsa já não são mais aquela pechincha, com os 60 mil pontos dando lugar aos 100 mil.


Resumindo a história: adicionamos muita chuva e neblina ao nosso cenário e hoje a pista está muito mais estreita. Não me parece a melhor hora para querermos aumentar a nossa velocidade.


A chance de se acidentar agora é muito maior do que antes e, como eu disse, é preferível que você chegue lá vivo.


Então, dada toda essa deterioração, seria a hora de sair da bolsa e correr para as montanhas?


Na verdade, não. Afinal de contas, bolsa é para sempre.

Bolsa é para sempre


No imaginário das pessoas, só existem duas possibilidades: comprado em bolsa ou vendido em bolsa. É curioso que exista dicotomia, mas eu nunca a entendi completamente.


Afinal, a realidade não poderia ser mais diferente disso. Na minha cabeça, não existe essa de ter bolsa hoje e não ter amanhã.


Isso simplesmente não faz sentido, até porque você não sabe qual cenário  catástrofe ou alegria  irá prevalecer.


O que sabemos é que, no longo prazo, estar investido em bolsa é um ótimo negócio. Logo, tudo que precisa ser feito é garantir que vamos sobreviver até chegar lá.


Para isso, é importante duas coisas: (i) ter uma boa alocação de portfólio e (ii) ir controlando a sua exposição em bolsa.


Uma boa alocação de carteira permite que você sobreviva aos mais diversos tipos de intempéries que o mercado irá trazer.  


Como exemplo, vejo o que foi os últimos 8 anos. Esse período é “interessante” porque tivemos de tudo um pouco.


Metade do tempo foi marcado pela deterioração da nossa economia, culminando em uma grande crise econômica. No restante, vivenciamos um forte bull market que foi interrompido por uma pandemia que acontece uma vez a cada 100 anos.


Ou seja, cenários bem diversos. Mesmo assim, por meio de uma carteira equilibrada, foi possível gerar retornos acima de qualquer outra alternativa individual (Ibovespa, multimercados, Dividendos, S&P500, CDI, NTNBs..).


Fonte: Nord Research e Economatica


A linha azul é uma carteira que contempla cada uma das estratégias acima, com tamanhos diferentes entre si. Veja que, simplesmente fazendo uma carteira bem alocada, você consegue ter retornos melhores.


Agora, se quiser ir além, você precisa dar o segundo passo: ajustar a exposição da sua carteira.


Ajuste fino


Apesar da construção de portfólio ser algo muito poderoso, não significa que você montará a sua carteira uma única vez e nunca mais encostará nela.


Os cenários mudam e adaptações devem ser feitas.  De tempos em tempos, você precisa reequilibrar a carteira.


Conforme o tempo passa, certos ativos subirão demais (ficando com menos margem de segurança) e outros menos (se tornando potencialmente mais atrativos)


Esse é o segundo passo, controlar a exposição às classes de ativo. É exatamente isso que estou propondo agora: um momento de ajuste.


A Marília gastou as últimas semanas estudando o cenário econômico, e está preocupada com ele. Ela aponta que muita coisa mudou desde março e que, hoje, temos um risco maior para a bolsa.


Para comunicar essa mensagem, ela gravou um vídeo muito bom explicando todos os detalhes dessa nova tese. Sugiro que assista.


Certamente é uma tese que vai te ajudar nessa fase de reavaliação da sua carteira.


Um abraço,


Luiz


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por Luiz Felippo
em 16/08/2020 para Nord Insights

Iniciou sua carreira num projeto de renda fixa do Insper com o BTG Pactual. Posteriormente atuou na área de pesquisa econômica internacional do Itaú Asset Management e foi analista de Renda Fixa da Empiricus Research. Formou-se Economista no Insper.

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