Selic vai para 1?

Ontem a bolsa brasileira ensaiou novamente uma recuperação, mas acabou fechando no zero a zero no final do dia.


A preocupação com a saída do secretário do Tesouro Nacional, Mansueto Almeida, foi a fumaça da vez. Nada de mais na saída, nenhuma mudança estrutural de política econômica. Mansueto, apesar de extremamente qualificado, nunca foi o fiador da política econômica do governo.


Mas se você prestou bastante atenção no mercado ontem, percebeu que mesmo no pior momento da bolsa as taxas de juros curtas estavam caindo bem.


Por que será?


Amanhã temos a decisão do Copom de política monetária. O mercado está entrando em um consenso de que o Banco Central irá reduzir a Selic de 3,00 para 2,25.


As expectativas de inflação não param de cair, o valor esperado para 2020 está em 1,60, enquanto a meta é de 4 por cento. A expectativa para 2021 está em 3, enquanto a meta é 3,75 por cento.


Ou seja, o BC está perdendo sequencialmente a meta de inflação.


Isso juntamente com um mercado calmo, com câmbio comportado e juros logos caindo, abrem um espaço para a política monetária seguir dando mais estímulos.


Mas até onde o BC pode cair a Selic?


O grande debate atual está em torno do "lower bound": o limite mínimo que a Selic poderia cair para não desorganizar a economia.


Esse conceito foi criado nos países desenvolvidos, que levaram suas taxas de juros para zero e se perguntaram se valia a pena cair para negativo para gerar mais estímulos. Será que juros negativos não fariam com que as pessoas simplesmente retirassem tudo dos bancos? Quem iria investir em títulos com taxas negativas?


Aqui no Brasil, a discussão tomou outra forma. Se a taxa de juros americana é zero, quanto poderia ser a nossa Selic? Se fosse zero também, será que não teria uma fuga maciça de capital para fora, provocando uma desvalorização agressiva da nossa moeda?


Qual seria a taxa que traria equilíbrio externo, posto que o Brasil tem mais risco?


O que se tem discutido no BC e entre alguns economistas é que a taxa mínima brasileira seria igual a taxa americana mais o prêmio de risco brasileiro.


Se utilizarmos o CDS (risco-brasil) como indicador, teriamos a seguinte curva mínima:


Fonte: Nord Research


A curva em azul são as taxas de juros brasileiras atuais para os diversos vencimentos, a curva em vermelho são as taxas de juros americanas e a curva em amarelo são as taxas de juros americanas somadas ao prêmio de risco brasileiro (CDS Brasil).


A curva em amarelo mostra que os juros curtos poderiam chegar em até 1 por cento, sem que o equilíbrio de risco fosse ameaçado. Os investidores locais ainda seriam remunerados de acordo com o risco local.


Além disso, é legal ver também os juros longos no Brasil. Imagina que você decide investir no exterior por 5 anos. Não faz sentido você comparar a taxa Selic com o Fed funds (Selic americana), mas sim, a taxa de 5 anos brasileira com a taxa de 5 anos americana.


Olhando por essa ótica podemos ver a folga enorme que ainda temos na curva. A taxa de 5 anos brasileira está acima de 5 por cento, enquanto a americana mais o CDS estariam em 3 por cento.


Ou seja, ainda temos um espaço enorme de prêmio na curva. Esses juros a mais mantêm com folga o equilíbrio de fluxo de investimentos.


Não por outro motivo, os dados de balanço de pagamentos não mostram uma fuga de capitais.  


O que isso tudo quer dizer?


O que eu quero dizer com isso tudo é que eu não me surpreenderia se na reunião de amanhã o BC não só caísse a Selic para 2,25, mas também deixasse aberta a porta para novas quedas mais moderadas.


Se os juros estão comportados e com prêmio, o câmbio está comportado, a atividade está fraca e a inflação não para de cair, o que seguraria o BC?


A Selic deve chegar a um patamar bem baixo no Brasil. Quem não quiser correr risco nenhum em seus investimentos, não vai ser remunerado por quase nada. É uma nova era.


Você como investidor terá que aprender a correr riscos.


Quanto mais você conhecer a empresa em que está investindo, e tiver confiança nos seus investimentos, menos você vai se sentir exposto e com receio.


Nós da Nord estamos aqui exatamente para isso. Para te ensinar sobre as empresas e tirar todas as suas dúvidas.


Um abraço,


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por Marilia Fontes
em 16/06/2020 para Nord Insights

Possui 12 anos de experiência de mercado financeiro. Antes de fundar a Nord Research passou pelas assets do Itaú, Mauá e Kondor, além de analista da renda fixa da Empiricus Research. Formou-se mestre em Economia pelo Insper.

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