Risco de Bolsa, Ganho de Renda Fixa

Ontem o Copom reduziu a taxa básica de juros para 4,25 por cento ao ano.

A decisão que todo mundo esperava

Ontem o Copom reduziu a taxa básica de juros para 4,25 por cento ao ano.

Essa redução impacta diretamente o rendimento de aplicações em Tesouro Selic e em fundos atrelados ao CDI.

Dessa forma, é normal imaginar que o investidor brasileiro volte a passar pelo processo de reavaliar suas aplicações em busca de melhores retornos na Renda Fixa.

Por isso, a explicação de hoje sobre as aplicações de juros longos é tão pertinente. Se você tem determinados Títulos do Tesouro Direto ou se está pensando em ter, leia as próximas linhas com atenção.

Risco de Bolsa, ganho de Renda Fixa

Um investimento com baixo risco e alto potencial de retorno é o que todos nós queremos.

Mas e o contrário? Se alguém te oferecesse uma alternativa com pouco potencial de ganho caso tudo dê certo, mas com enorme risco de queda em caso de pessimismo no mercado, você aceitaria?

É justamente essa a situação de alguns dos mais populares Títulos do Tesouro Direto no momento: os do tipo Tesouro Prefixado e Tesouro IPCA+, especialmente os de vencimentos longos.

Mas antes que você fique zangado comigo, dizendo que adora Tesouro IPCA+ 2045, pois ganhou muito dinheiro no passado, deixe-me explicar…

De fato, o Tesouro IPCA+ 2045 rendeu 57 por cento em 2019, já o Tesouro IPCA+ com juros semestrais 2050 e o Tesouro Prefixado 2025 valorizaram 33 por cento e 22,5 por cento no mesmo período.

A rentabilidade passada do Tesouro IPCA+ ou Prefixado não está em discussão aqui.

O problema é quando o investidor se apega ao passado glorioso e não consegue mais analisar o ativo com o senso crítico necessário.

Esqueça o passado. A única coisa que importa é como sua carteira vai performar de hoje em diante.

E hoje, possuir Prefixado 2029 ou IPCA+ 2050, por exemplo, significa você correr risco de Bolsa, para receber retornos muito mais modestos.  


There is no free lunch...

“Não existe almoço grátis” é uma popular frase norte-americana bastante difundida a partir da década de 70 pelo economista Milton Friedman. O seu significado é simples e aplicável a quase tudo em nossas vidas: não é possível conseguir algo sem dar nada em troca.

E isso também vale para o mundo dos investimentos. Afinal, não há como esperarmos grandes retornos sem corrermos riscos para isso. E com a renda fixa não é diferente!


Se você já investiu em algum momento nesses títulos públicos do tipo Tesouro IPCA+ e Tesouro Prefixado, percebeu que seus preços variam diariamente de acordo com as taxas de juros definidas pelo mercado. Quando as suas taxas sobem, seus preços caem e vice-versa. Além disso, quanto maior for a duração do título entre hoje e seu vencimento, maior tende a ser o impacto das oscilações de sua taxa sobre o preço do título.

Estes atributos permitem que esses títulos tenham ganhos compatíveis com os de Bolsa em momentos específicos, como ano passado. Mas também os tornam muito voláteis e até perigosos se adquiridos em momentos desfavoráveis.

Se considerarmos a volatilidade dos retornos dos ativos como uma medida de risco, o risco de investir em um Tesouro IPCA+ 2035, por exemplo, seria equivalente ao da Bolsa — em alguns momentos, até maior.

Fonte: Tesouro Direto e Bloomberg, elaboração própria.


Observe que a linha azul oscila com mais intensidade do que a linha laranja, que representa o Ibovespa.

Portanto, não caia no conto de que a renda fixa é fixa. A depender do momento do mercado, a renda fixa pode, sim, proporcionar retornos de Bolsa ao investidor, mas só se você topar correr um risco equivalente.

E correr um risco de Bolsa para perseguir retornos de 57 por cento ou 33 por cento não me parece ser mau negócio, concorda comigo? Eu mesmo surfei parte dessa onda em 2019.

Mas o problema aparece quando as perspectivas de belos ganhos se vão, enquanto o risco de Bolsa permanece...

E para mim este é exatamente o caso desses títulos no momento.

O passado se repete?

Apenas para que fique claro: para que ganhos extraordinários em Prefixado e IPCA+ ocorram, as expectativas do mercado com relação aos juros futuros precisam melhorar (o mercado achar que o juro cairá ainda mais).

Então, uma queda como a vista ontem, na qual o mercado já esperava, praticamente não traz ganhos para quem já estava posicionado em juros longos.

E o que precisa ocorrer para o investidor acumular perdas? Basta que as expectativas de juros futuros piorem.  

O problema é que, após as fortes quedas nas taxas de juros nos últimos anos, o mercado já embute nos preços destes títulos grande parte das perspectivas positivas que vislumbramos à frente.

Em contrapartida, se a situação Brasileira ou internacional se deteriorar por algum motivo, as suas taxas possuirão um grande espaço para subir — levando a fortes desvalorizações nos preços destes títulos. Ou seja, há pouco para ganhar e muito a perder neste tipo de investimento no momento.

Para ilustrar isso a você, calculei quais seriam os rendimentos obtidos pelo investidor de acordo com as variações na taxa de um dos títulos públicos com maior potencial de ganho em 2020 (Tesouro IPCA+ com juros semestrais 2050, também conhecido como NTN-B 2050), partindo de sua taxa atual de 3,52 por cento ao ano.

Fonte: Tesouro Direto

Os resultados já levam em conta custos operacionais e o pagamento de imposto a uma alíquota de 20 por cento para os casos de investimentos sem prejuízos.

Veja o que acontece se a taxa do título variar entre 6,0 por cento e 2,0 por cento:

Fonte: Nord Research.


Se a taxa se mantiver por volta dos 3,5 por cento, nada significativo acontece.

Como já expliquei, para você ganhar com a marcação a mercado, os juros precisariam cair para 3, 2,5 ou até 2 por cento…

No meu melhor cenário, você ganha 21 por cento.

Mas e se a situação econômica piorar? Se a taxa da NTN-B 2050 voltar para 6,0 por cento, por exemplo, você teria uma perda de 32 por cento do patrimônio investido.

E se você acha pouco provável uma taxa nesse patamar, saiba que há pouco mais de um ano era exatamente essa a taxa vigente.

Importante: não estou dizendo que acredito que as chances dos juros subirem a esse patamar sejam maiores do que sua queda ou estabilidade.

Se eu tivesse que apostar, diria que ainda podem cair um pouco.

Porém, você precisa entender que está com a assimetria jogando contra você: se tudo der certo você GANHA POUCO, se alguma coisa der errado você PERDE MUITO.

De fato, o Brasil vem fazendo a sua lição de casa ao longo dos últimos anos. Mas, na minha opinião, ainda é preciso perseguir caminhos longos e tortuosos para que a taxa da NTN-B 2050 busque um patamar de 2,0 por cento ao ano (se é que chegará a isso algum dia).

Risco x Retorno

Se o Brasil continuar a trilhar um bom caminho daqui em diante e o externo não nos afetar negativamente, teremos um juro real longo ainda mais baixo, inflação controlada e crescimento mais intenso do PIB.

Como já destaquei, em um cenário como esse, a NTN-B 2050 proporcionará um retorno próximo a 21 por cento. Agora imagine o que poderia acontecer com a Bolsa neste mesmo cenário…

Por outro lado, e se algo pelo caminho der errado?

Por exemplo, o governo se acomodar com o ajuste nas contas públicas ou perder de fato o apoio do Congresso que, por sua vez, passaria a aprovar pautas bombas que comprometeriam a recuperação fiscal do país...

E se as eleições municipais sinalizarem uma preferência por candidatos menos comprometidos com o ajuste fiscal? E se a inflação der uma disparada…

E se… e se...

É difícil afirmar, mas o que posso dizer é que em momentos de grande estresse, a volatilidade dos títulos expostos ao juro longo tende a ser maior do que a da Bolsa — lembre-se do gráfico da volatilidade no início do texto.

Um exemplo emblemático ocorreu em maio de 2017. No episódio conhecido como “Joesley Day” nos mercados financeiros, a Bolsa caiu 7 por cento em dois dias, enquanto o Tesouro IPCA+ 2045 caiu 24 por cento no mesmo período!

Fonte: Tesouro Direto e Bloomberg, elaboração própria.


É verdade que de lá para cá o Brasil obteve conquistas importantes, como a aprovação da Reforma da Previdência, mas isso já está no preço. Para ganhar dinheiro com Tesouro Direto, o mercado precisa ser positivamente surpreendido.

Nota: muitos me escrevem dizendo "o meu título é melhor do que esse, pois eu comprei a IPCA+ 7 por cento, por isso vou carregá-lo...". Isso não existe. O título de IPCA+ 7 por cento do passado é o mesmo título de IPCA+ 3 por cento hoje. A diferença você já recebeu por meio de valorização do seu investimento. A análise que você precisa fazer não deve levar em conta o passado.

Parece óbvio, mas é surpreendente a quantidade de investidores que acreditam que devem carregar o seu título por terem comprado num momento favorável. É como se você aceitasse perder dinheiro hoje só porque ganhou no passado.

Voltando ao assunto principal, há outro elemento importante: você já tentou vender seus títulos em momentos como o Joesley Day para tentar se proteger?

Lamento informar, mas como pequeno investidor pessoa física, ao tentar entrar no sistema do Tesouro Direto em momentos de alta volatilidade, você veria a seguinte mensagem:

Só os grandes investidores institucionais conseguirão mexer suas posições rapidamente. Enquanto você fica de mãos atadas esperando o Tesouro voltar.

É ou não é um risco demasiadamente alto para um retorno potencial modesto?

Busque retornos inteligentes

Não caia no conto de que os títulos expostos ao juro longo, como os que tenho mencionado, são o suprassumo dos investimentos neste momento.

Corra risco naquilo que pode oferecer um grande potencial de retorno.

Estes títulos proporcionaram grandes retornos para seus investidores no passado, mas as perspectivas não são mais as mesmas daqui em diante. Em outras palavras: não faz sentido corrermos risco de Bolsa em busca de retornos, agora sim, mais modestos!

Na parte da sua carteira que está destinada a correr riscos, escolha aqueles riscos em que você tem muito a ganhar, como boas Ações.

E onde você não quer correr risco, tenha Tesouro Selic ou Fundo DI com taxa zero. Você não ganha muito se tudo der certo, mas também não perde nada se algo der errado.

Eu não teria nenhum Tesouro IPCA+ ou Prefixado na minha carteira hoje, mesmo eles tendo me dado muita alegria no passado.

Um abraço e até a próxima.


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