Reação à vista?

Mercados digerem promessas de estímulos

Ensaiando reação

Março é deflagrado em meio a tentativas de reação dos mercados após a mais aguda semana para os mercados desde 2008: diante de múltiplas sinalizações de potenciais estímulos por parte das autoridades monetárias mundo afora, investidores deixam de lado a completa aversão a risco e voltam a avaliar oportunidades na renda variável.


Nesse contexto, a madrugada foi de ganhos na Ásia — a despeito de indicadores econômicos bem abaixo do esperado na China — e a onda verde se estende ao continente europeu nesta manhã. Futuros nova-iorquinos apontam para alta e, oxalá, será o mesmo o tom em terras tupiniquins.


Não é a primeira (nem a última) epidemia que enfrentamos. E tal qual nossos organismos se fortalecem diante de cada novo ataque, o mesmo fazem os mercados. Vamos em frente.


Juros? Que juros?


Não são poucos os sinais de que os bancos centrais não assistirão ao desenrolar da História de braços cruzados.


Em uma declaração bastante rara, o Federal Reserve americano sugeriu, na última sexta-feira, que os riscos em evolução trazidos à tona pelo coronavírus poderiam abrir espaço para novos cortes de juros nos EUA. Juras de fidelidade aos respectivos mandatos de estabilização foram também recitadas por representantes das contrapartes britânica e japonesa, todas já fazendo preço nos respectivos mercados de renda fixa.


Atenções se voltam, agora, ao Banco Central Europeu. E aqui, sinceramente, acredito que o histórico fale por si: se quando mais uma dose era de necessidade altamente questionável, imagine agora? A questão, nesse caso, é se surtirá algum efeito ou não: foram anos e anos de abuso de antibióticos monetários no Velho Continente, o que pode comprometer a eficácia da dose adicional.



Aqui o jogo é outro


Por aqui, por sua vez, BCs vociferando mundo afora não parecem influenciar sobremaneira as expectativas para a Selic: uma primeira leitura sugere que dessa vez é diferente em terra brasilis, com ciclo de queda de juros encerrado e, ao Copom, dever de diligência no monitoramento da inflação — que segue bem-comportada.


E mais: predominam opiniões de que os impactos econômicos da epidemia são, por ora, deflacionários. Ótima notícia, à medida que o descarrilamento do câmbio poderia ser motivo de preocupação em termos de preços.


Não significa, contudo, que o banqueiro central ficará de braços cruzados diante do dólar. O desafio aqui é, ao mesmo tempo, atuar e manter a fidelidade à cartilha: não é mandato do BC lutar contra o nível para o qual o mercado empurra a divisa; convém, porém, atuar nas duas pontas para reduzir a volatilidade inerente ao ajuste.


A linha é tênue, mas os efeitos de longo prazo de uma atuação equivocada — em termos de formação de expectativas de conduta futura — são gigantescos.


Eles estão indo bem. Que sigam assim.


Mar calmo nunca fez bom marinheiro


Quem me conhece de outros carnavais já deve ter percebido que eu não gosto de bull market. Acho que, em meio à euforia, a percepção de que comprar qualquer coisa funciona deixa as pessoas perigosamente displicentes — e tipos como eu, cuja natureza é de pregar parcimônia, têm bastante dificuldade de se fazer ouvir.


Paradoxalmente, quando o jogo vira — como agora — as pessoas prestam mais atenção: a parcimônia que parece tão inconveniente em meio à euforia vira um lampejo de esperança quando todos têm medo.


Então permita-me aproveitar a deixa — antes que a loucura volte e a gritaria tome, novamente, o espaço da racionalidade.


Se este é seu primeiro bear market, a recomendação é de calma antes de tudo.


Esta não é nem a primeira nem a última vez que enfrentamos (ou enfrentaremos) algo assim. Com valuations relativamente esticados, é sempre questão de tempo até o mercado encontrar um motivo — mais ou menos grave — para corrigir seu próprio nível.


Mas barba, a situação é muito séria.


Tenha a certeza de que i) no olho do furacão, tudo sempre parece muito sério, e ii) muitas outras situações efetivamente sérias já foram enfrentadas e vencidas — vide 2008, que pode não estar mais logo ali, mas ainda é uma lembrança bem viva para quem sentiu na pele.


A prescrição não poderia ser mais simples, tampouco mais coerente com o discurso de sempre: quem comprou com boas margens de segurança tem pouco a temer.


Não afirmarei que os impactos nos fundamentos das empresas são nulos. Não o são, pura e simplesmente porque há impactos econômicos concretos do lado de lá, espalhando-se para outras economias.


Mas atesto com relativa tranquilidade que i) a dimensão implícita nos preços dos ativos tem grande chance de estar superestimada e ii) as desvalorizações foram mais homogêneas do que serão os impactos. Há de se avaliar caso a caso, setor a setor.


Depois de muito tempo com valuations em níveis desconfortáveis — que sempre coincidem com o momento de máxima ansiedade dos assinantes por novas recomendações… —, dá vontade de voltar para o jogo. E é o que estamos fazendo: buscando oportunidades, em especial para o Nord Small Caps.


Para onde o mercado vai?


Em meio à virada de mão do mercado, muita gente vem perguntar até onde achamos que a bolsa vai — e quando se recuperará.


Esta é uma pergunta cuja única resposta intelectualmente honesta é não sabemos.


Não dá para saber, porque depende do desenrolar de eventos que ainda estão no futuro — e não contamos com o dom da clarividência.


(Desconfie muito, portanto, de qualquer um que sugerir que sabe… em cada esquina há um malandro querendo tirar vantagem do desespero alheio para fazer algum dinheiro, viu?)


O que fazemos é o de sempre — além de tentar dominar o mundo todas as noites: buscar ativos cujos preços atuais façam sentido e ofereçam razoável margem de segurança.


Podem nos chamar de chatos (sou mesmo), mas não de inconsistentes.


De resto, o tempo se encarrega da convergência entre preço e valor, em uma trajetória que não pode ser estimada.


O que consideramos barato pode ficar ainda mais barato em meio a uma convulsão dos mercados. Ou não. A certeza que nutrimos é de que, em um prazo razoável, as coisas se compensam.


O jogo do curto prazo é sempre muito difícil. Há muita aleatoriedade, muito ruído, muita volatilidade de expectativa — e, por conseguinte, de preço. Não recomendamos jogá-lo. No longo prazo, por sua vez, a concorrência é pequena.


Compartilhar este artigo
por Ricardo Schweitzer
em 02/03/2020 para Nord Insights

Possui 14 anos de experiência no mercado financeiro. Antes de fundar a Nord Research passou pela Adviser Asset, Fundação CEEE, Sicredi Asset, Votorantim Corretora e Empiricus Research. Formou-se em economia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

Receba nosso conteúdo GRATUITO!