Pausa para dar zoom out

Em dias parados de notícias, eu sempre aproveito para dar um "zoom out" na minha visão de investimentos.

Quando abri o noticiário hoje vi Paulo Guedes pedindo desculpas por falar besteira sobre a esposa de quem não deve, vi Bolsonaro vetando pedaços da Lei de Abuso de Autoridade, vi alguns parlamentares ficando bravos com isso, vi dados de inflação no Brasil totalmente em linha com o esperado (IPCA de agosto em 0,11 por cento), vi China dando mais estímulo econômico.


Enfim, vi um monte de coisas. Mas, de realmente importante, não vi nada.


É exatamente nessa hora que temos tempo para pensar com calma no cenário macroeconômico, e ver se está acontecendo alguma coisa no mundo que pode mudar a tendência dos mercados daqui para frente.


E chego à seguinte conclusão: está acontecendo sim!



Na semana passada tivemos um dado muito relevante de atividade nos EUA que mudou muito a forma como eu e o resto do mercado pensavam seus investimentos.


Os dados de atividade industrial vieram bem abaixo do esperado, indicando contração da atividade. O chamado ISM Manufacturing PMI ficou abaixo dos 50 pontos pela primeira vez desde 2016.


Por que isso pode mudar a tendência atual do mercado?


Pois o Banco Central americano estava resistindo muito em reduzir de forma mais contundente os juros americanos, pois ainda via a atividade crescendo a um nível consistente.


Por ele não reduzir tanto os juros, era um dos únicos países desenvolvidos do mundo que não estava flexibilizando agressivamente sua política monetária, de tal forma que isso provocava a valorização do dólar.


Se o Fed começar a ficar mais preocupado com atividade, e entender que a economia americana apenas demorou mais para dar sinais de fraqueza, ele deve intensificar os estímulos, e aumentar seu plano de queda de juros.


Isso deve provocar uma reversão da tendência de dólar forte, além de um suporte para o SPX (bolsa americana), que sofreu nos últimos dias.



Isso não mudaria o cenário só para a bolsa dos EUA. Uma flexibilização da política por lá daria também suporte para a nossa bolsa, além de aliviar bastante a desvalorização do real que vimos nos últimos dias.


Aliás, isso já começou. Desde a divulgação do dado, o real, que era cotado em torno de 4,2, já caiu para 4,10. E deve continuar caindo.


Isso alivia também a pressão sobre a nossa curva de juros, que subiu um pouco nos últimos dias, em linha também com o risco de calote da Argentina.


O Copom deverá se sentir mais confortável em cair 50 bps na reunião do dia 19 deste mês, além de indicar possivelmente novas quedas à frente.


Poderíamos entrar em um mês de setembro mais positivo para os ativos de risco (depois de alguns dias longos de sofrimento).



O que temos que ficar de olho é se essa queda na atividade americana não se mostra muito maior do que o Banco Central consegue controlar.


Se o mercado entra em modo "crise", nenhum ativo de risco, principalmente em economias emergentes, deve performar bem.


Mas se ficamos em um meio do caminho, com economia um pouco mais fraca e banco central bem estimulativo, devemos ver um mercado positivo por aqui.


Temos que, ao longos dos meses, observar com cuidado o impacto econômico dessa guerra comercial entre China e EUA, que me parece estar bem longe de terminar.


Mas até lá, podemos nos divertir com uma nova onda de valorização.


Os dados de emprego americano de hoje (Payroll às 9h30) podem ajudar nesse sentido.


Seria um mercado "cautelosamente otimista". E temos que ter um olho no peixe e outro no gato.


Um abraço,


Marilia Fontes





 


Em observância ao Artigo 22 da Instrução CVM nº 598/2018, a Nord Research esclarece que oferece produtos contendo recomendações de investimento pautadas por diferentes estratégias e/ou elaborados por diferentes Analistas. Dessa forma, é possível que um mesmo valor mobiliário encontre recomendações distintas em diferentes produtos por nós oferecidos. As indicações do presente Relatório de Análise, portanto, devem ser sempre consideradas no contexto da estratégia que o norteia.


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por Marilia Fontes
em 06/09/2019 para Nord Insights

Possui 11 anos de experiência de mercado financeiro. Antes de fundar a Nord Research passou pelas assets do Itaú, Mauá e Kondor, além de analista da renda fixa da Empiricus Research. Formou-se mestre em Economia pelo Insper.

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