Os filhos do bear market

Queremos gestores que sabem que, no Brasil, até o passado é incerto.

Publicado em 30/08/2019


À prova de tudo


Nesta semana, não faltaram motivos para a bolsa cair.


O bastião das reformas, Rodrigo Maia, foi delatado em esquema de corrupção.


A Trade War deu uma leve escalada.


O BTG entrou em uma nova investigação, com as delações do Palocci levando temor aos bancos.


Os nossos vizinhos argentinos caminham aos poucos para o vinagre, com o país declarando moratória recentemente.


Até mesmo a capa da exame, famosa por deflagrar o início dos bear markets, mal conseguiu derrubar o mercado  caindo 3% desde a edição abaixo.


E, mesmo no meio de tudo isso, caminhamos para fechar a semana no positivo.


Logo, a mensagem que passa na cabeça do investidor é: nada pode nos parar, somos infalíveis.


Será?

A escolha torta


É curioso como as pessoas gastam muito tempo quando vão planejar viajar.


Planeja a melhor rota; avalia cada centavo na escolha de hotéis; acorda de madrugada para comprar passagens áreas etc.


Tudo para tornar a escolha o mais eficiente o possível. Mas, quando se trata de investir o patrimônio de uma vida, a história é completamente outra.


Quando o assunto é investir, o sujeito simplesmente muda a abordagem.


Ele busca um atalho, um corta caminho e disso deriva as piores estratégias   o filtro de rentabilidade na corretora, dica do parente, um ranking aleatório de melhores fundos do ano...


Infelizmente, as pessoas escolhem investimentos pensando no que mais vai subir hoje.


Isso, em 99,99 por cento dos casos, pode parecer a melhor solução hoje, mas será a pior decisão em 5 anos.


Até porque, a taxa de mortalidade dos fundos é altíssima. Se olharmos desde 2011, 10384 fundos foram descontinuados  com grande parte deles morrendo precocemente.


Fonte: Comdinheiro

Fonte: Comdinheiro


Ou seja, simplesmente sumiram.


E entre esses mais de 10 mil CNPJs, você só precisa investir em um deles para destruir seu patrimônio.


E, escolhendo fundos só pela performance, a chance de você encontrar um "bilhete premiado" desses só aumenta a cada dia.


Pessoalmente, eu prefiro inverter esse raciocínio. Eu gosto de quem consegue sobreviver às intempéries do mercado.


Gosto de quem sobrevive ao Brasil do bear market.


Esse, sim, vai gerar muito retorno para o seu cotista.

Prefira os sobreviventes


Ontem estava lendo a Carta da Dynamo, talvez a mais bem-sucedida gestora de ações que já passou por nossas terras.


Falar deles é fácil.


São quase três década de história e um legado incrível. Não só sobreviveram a todo o caos que é o Brasil  hiperinflação, crise do Lula, bolha ponto com, 2008, crise da dívida europeia, Governo Dilma   como geram um retorno absurdo (20.567,8 por cento desde 1993).


Fonte: Gestora Dynamo

Fonte: Gestora Dynamo


Mas, nem de longe, o que mais me impressiona é o retorno. Lendo as cartas, que são sempre uma aula para qualquer investidor, um trecho me chama a atenção:


O que o gestor de recursos prudente não pode é perder a musculatura no manejo das velas por acreditar que os ventos fortes soprados pela conjuntura que descrevemos sempre fortes serão. Não serão.”


Resumo: não escolha gestores que só viram marés calmas, veja aqueles que possuem cicatrizes por terem conduzido o barco em dias revoltos.


Esses, sim, chegaram à outra margem. O resto tem grandes chances de ficar à deriva.


Não buscamos aventureiros


Há cerca de alguns meses, explicamos a todos os assinantes do Nord Fundoscomo selecionamos as gestoras que entram no relatório.


E, entre todos os critérios, queria destacar dois aqui: o tempo de experiência do gestor naquela estratégia e como a equipe lida com as crises.


Esses dois pontos são bastante importantes e, por um princípio, bastante simples: porque não procuramos aventureiros.


Queremos gestores que sabem que, no Brasil, até o passado é incerto e que entendem que  sobreviver é tão importante quanto gerar uma boa rentabilidade.


Queremos aqueles que entendem que a alma desse negócio é a consistência dos retornos e não as grandes porradas para aparecer em rankings.


Queremos os calejados de ver os experimentos políticos feitos aqui, aqueles sobreviventes das crises, os filhos do bear market.


Até porque, ao contrário da famosa frase de Keynes, no longo prazo serão estes que não estarão mortos.


Serão estes os capazes de construir seu patrimônio.


Um abraço,


Luiz

Em observância à ICVM 598, declaro que as recomendações constantes no presente relatório de análise refletem única e exclusivamente minhas opiniões pessoais e foram elaboradas de forma independente e autônoma.

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por Luiz Felippo
em 30/08/2019 para Nord Insights

Iniciou sua carreira num projeto de renda fixa do Insper com o BTG Pactual. Posteriormente atuou na área de pesquisa econômica internacional do Itaú Asset Management e foi analista de Renda Fixa da Empiricus Research. Formou-se Economista no Insper.

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