Oi, meu nome é Betânia…

A história se repete, ora como tragédia, ora como farsa


O primeiro milhão a gente nunca esquece…



Dentre os avanços que promovi na minha lista de leituras no Carnaval, um dos que maior satisfação me trouxe foi o de, finalmente, me debruçar sobre o excelente livro que o George Vidor lançou ano passado sobre a história dos Leite Barbosa, pioneiros do mercado de capitais brasileiro.

Se você está por fora, explico: a M. Marcello Leite Barbosa foi, de longe, a principal corretora do País lá por volta dos anos 60, nos tempos da finada Bolsa do Rio de Janeiro. Era uma época na qual investir em ações era coisa muito mais esotérica do que nos tempos atuais, a ponto de ser um mercado praticamente intocado pelos bancos - eram as pessoas físicas que ditavam o ritmo das compras e vendas nos pregões (que eram no grito) cariocas.

Havia, na ocasião, grande entusiasmo pelo mercado de capitais por parte das cabeças de Brasília, e mecanismos foram criados para incentivar gente comum a colocar grana na Bolsa - remontam a essa época os famigerados Fundos 157, que permitiam deduzir do Imposto de Renda valores investidos em Renda Variável (não é por acaso que as regras de dedução dos PGBLs fazem eco na cabeça de quem já tem mais quilometragem nesse planeta).

O mercado era minúsculo, a disponibilidade de informações era pífia, a CVM ainda nem existia - só viria a ser criada na segunda metade dos anos 70 - e, portanto imperava o vale tudo. Para satisfazer a demanda insaciável por alternativas de investimento, promoveu-se uma imensa onda de IPOs no país - uma parcela enorme das empresas que até hoje estão no pregão (e outra parcela, ainda maior, das que habitam o submundo da Bolsa ou, tanto pior, há muito deixaram de existir) remontam esse período.

Devemos a essa época três anedotais que, surpreendentemente, fazem eco até hoje.

Nos tempos de juventude, o filho de Marcello Leite Barbosa, Maurício, era figurinha carimbada na high society carioca. Pouco afeito ao trabalho - façamos justiça: isso mudaria anos depois -, circulava sempre impecável, de carrão, invariavelmente acompanhado de beldades. É o responsável pela expressão Mauricinho.

Dessa época de sede insaciável por IPOs vem a história da Merposa, que algumas vezes já contei. Era tão indiscriminado o apetite pelas novas ofertas que investidores compravam literalmente qualquer coisa, sem nem perguntar - vivemos isso novamente em 2007, mas isso é outra história. Um belo dia começou a circular que uma oferta quente estava acontecendo, e o burburinho em torno dela ganhou proporções notáveis - imagino eu que, nos anos 60-70, a boataria dos fóruns e do Twitter acontecia, sei lá, nos cafés do Centro da cidade.

Levou algum tempo até todos se darem conta que a tal empresa cujas ações todos queriam sequer existia: Merposa significava “Merda em Pó S/A”.

(E até hoje, quando conto essa história, tem gente que procura o ticker de Merposa…)

Mas é a terceira história que me faz escrever essas linhas hoje: aqueles eram tempos de corretoras com lojas de rua - a M. Marcello Leite Barbosa chegou a ter quinze - e de propaganda boca-a-boca. Em certo momento, veio a ideia: a corretora começou a arregimentar beldades da high society carioca para ajudar na popularização dos mercados. Devidamente munidas de pastas cor-de-rosa, ofereciam cotas de fundos de investimento. Ficaram conhecidas como Marcelletes.

Pulo para 2019. Primeiro, abro o Instagram: multiplicam-se como Gremlins as moças dispostas a ensinar você a ficar milionário na bolsa. Depois vou ao YouTube: Oi, meu nome é Betânia, eu tenho 16 anos e 45 bilhões de patrimônio…

As Marcelletes estão de volta! Isso é tão, tão 1970…

Vai ter quem pense que estou incomodado. Não estou: eu passei grande parte de 2018 terapeutizando a ideia de que o mercado é como é, e que lutar contra isso é um esforço simplesmente inútil da minha parte.

Seja com mocinhas descoladas, seja com narigudos globais, a indústria vai fazer o possível e o impossível para convencer a Dona Firmina, 67 anos, catequista de Icó, Ceará, de que transformar 1.500 reais em 1 milhão em três anos é molezinha, e que ela não pode ficar de fora.

Diante disso, só posso adotar uma postura pragmática e pregar no deserto: uma minoria entenderá que não, não existe mágica; que investir é disciplina e longo prazo. É comprar excelentes ações, reinvestir os dividendos e assistir à grama crescendo.


E é exatamente porque só uma minoria vai dar ouvido a isso - a maioria vai acreditar que sim, passar 1 ano fazendo daytrade (e perdendo, óbvio) vai finalmente, forjar uma máquina de fazer dinheiro capaz de bater a meta todo santo dia e permitir o sonho de viver de bolsa.

Sabe como se vive de bolsa? Enchendo os bolsos de ações de ótimas empresas e assistindo os dividendos caindo na sua conta - e não, isso não acontece da noite para o dia.

Lá nos tempos da M.Marcello o mercado brasileiro formou, eventualmente, uma bolha. E a corretora saiu machucada do episódio a ponto de, anos depois, terminar liquidada - sob circunstâncias intricadas muito bem narradas pelo Vidor. Muitíssimo mais machucados saíram milhares e milhares de pequenos investidores que deram ouvidos ao canto das sereiaxxx da Zona Sul.

Levaria anos para o mercado voltar a ter credibilidade junto às pessoas comuns - a bolsa ganhou fama de cassino. Eventualmente, a ascensão de uma nova geração com dinheiro no bolso e pouco apreço por História realimentou o ciclo. E a história se repete, ora como farsa, ora como tragédia, até os dias de hoje.

As Marcelletes voltaram. As Merposas estão sempre por aí. A próxima onda de IPOs, pode apostar, só está aguardando um pouco mais de clareza no front econômico para acontecer.

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Em observância à ICVM 598, declaro que as recomendações constantes no presente relatório de análise refletem única e exclusivamente minhas opiniões pessoais e foram elaboradas de forma independente e autônoma.

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por Ricardo Schweitzer
em 15/03/2019 para Nord Insights

Possui 12 anos de experiência no mercado financeiro. Antes de fundar a Nord Research passou Adviser Asset, Fundação CEEE, Sicredi Asset, Votorantim Corretora e Empiricus Research. Formou-se economista pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

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