O Pentium e internet discada

10 anos depois e pouca coisa mudou

O último ano da década

Estamos a poucos dias do fim do ano com as luzes de 2019 já começando a se apagar.


Em mais uma ou duas semanas, os ternos e coletinhos logo darão lugar a bermudas floridas, gin tônica e uma bela camiseta polo para aproveitar os dias de sol em Mykonos, Grécia.  


Nosso "CEO da semana", Ian Franco, já entrou nesse clima, mas logo toda a Faria Lima vai acompanhá-lo.


Fonte: arquivo pessoal de Ian, sem uso de Photoshop


E, em breve, todo trânsito de patinetes nas ciclofaixas desaparecerá. Com ele, secarão os volumes da bolsa.


Tudo nos conformes, como se fosse qualquer outro ano. Mas esse fim de ano não será comum como os outros.


Ele terá um gostinho de fim de década. Logo, em um momento nostálgico, pego-me pensando nos tempos modestos do início dos anos 2000.


Tempos em que Rouge foi sucesso nacional, U2 era popular e Playstation era o melhor vídeo game.


Mas, daqueles momentos, lembramos também uma das maiores crises já vistas.


A famosa Bolha das Pontocom.  

Um belo ínicio de década


Não sou tão velho assim, mas ainda peguei os tempos de utilizar a enciclopédia Barsa para os trabalhos da escola.


Anos depois, aposentamos essa relíquia e passamos então a nos deslumbrar pelo maravilhoso kit composto pelo PC Pentium 166 e a internet discada.



É claro que, como qualquer novidade, tudo era caríssimo. Então, sem tantas opções, aproveitavamos o preço promocional da madrugada para utilizar o equipamento.


Mas absurdos não eram só os preços do serviço.


Se você olhasse os múltiplos que negociavam muitas daquelas empresas de tecnologia, todas ali prometendo crescimentos nunca vistos antes, você provavelmente cairia de costas.


Como era novidade, ninguém ligava. Era temporada de comprar promessas.


E, apesar de tímido crescimento de lucros, as ações subiam como se não houvessem limites.


Até que, em março de 2000, todo o castelo de cartas desmoronou. Os lucros aos poucos foram evaporando e, com eles, o valor de mercado das companhias.





Logo, a destruição se mostrou maior do que qualquer um poderia prever.


O resultado: 80 por cento de queda! Como o setor era um terço do total da bolsa na época, o S&P 500 sofreu perdas bem fortes.


Só para vocês terem uma noção: foi um evento que deslocou o P/L em três desvios padrões em relação à média.


Uma catástrofe generalizada, imprevisível e que certamente marcou a história.


Efeitos de uma crise lá fora


Mas, passado quase duas décadas, vire e mexe voltamos à discussão dos múltiplos absurdos que negociam algumas das empresas de tecnologia da bolsa americana.


Hoje, confesso que me sinto menos preocupado. Apesar das valorizações astronômicas que as FANGs (Facebook, Amazon, Netflix e Google) tiveram, os resultados acompanharam esse movimento.


Lucros (laranja) e preço das Ações (branco). Fonte: Bloomberg


Talvez não esteja aqui a fonte dos nossos problemas. O que hoje, talvez me preocupe mais são as negociações fora da bolsa.


Em um mundo de juros negativos, vejo mais e mais empresas avaliadas em bilhões sem ao menos dar um gota de lucros.


É tudo baseado na promessa do crescimento, na promessa de um futuro brilhante. Tudo remonta ao início da queda.


Mas longe de mim ficar aqui pregando o fim dos tempos. Não tenho vocação para isso.


Quero aqui somente propor um experimento: qual o efeito de uma crise forte no mundo em relação a nós?


É sempre díficil colocar eventos de pânico em números, mas vamos lá:


Hoje, 22 por cento da bolsa americana é baseada em empresas de tecnologia.


O múltiplo P/E desse setor é 25x, contra uma média que nos últimos anos 12 anos foi de 18x;


Nesses valores, estaríamos a 2 desvios padrões acima da média.


Se tivermos uma crise que gere três desvios padrões de compressão nos múltiplos, estaremos dizendo que passaremos a negociar em 15x com uma queda acumulada de 61 por cento no setor.


Essa compressão toda geraria 13,44 por cento de queda no consolidado da bolsa.


Suponhamos então que, além de tudo isso, o pânico derrube mais 20 pontos percentuais no mercado  recuando 33 por cento.


Seria o equivalente a trazer a bolsa americana para 2109 pontos  hoje acima dos 3100.


Caos, certo? Digno de um novo 2008.


Mas, e aí? Qual impacto aqui?


O Brasil e a dependência Gringa


Tradicionalmente, sempre fomos dependentes do capital gringo para a bolsa subir.


Por isso que, desde os primórdios da nossa história, movimentos de alta na bolsa sempre foram acompanhados de valorizações grandes no real.


Porém, quando o mundo pega fogo com alguma crise, o fluxo para e sofremos junto.




Foi assim em diversas ocasiões. Em 1997 e 1998, com as crise assolando a Ásia e a Rússia, as bolsas aqui caíram mais de 30 por cento  mesmo com a bolsa americana recuando só a metade disso. Em 2008 fomos melhores na comparação. A nossa bolsa caiu 50 por cento, como aconteceu também com resto do mundo.


Talvez a diferença dos períodos seja a quantidade de desbalanços econômicos que carregávamos, muito menores no segundo caso.


Hoje, a situação é diferente. Com o gringo querendo distância de emergentes, vivenciamos um fenômeno curioso: bolsa em alta com dólar subindo.


E, para que isso aconteça, só tem uma explicação: é o local comprando.


Talvez porque sejamos mais capazes de entender nossos próprios problemas e o potencial transformador que tem essas mudanças.


Vivemos uma dinâmica própria e, quem sabe, menos correlacionada com o mundo.


Acho que um primeiro exemplo foi no fim do ano passado, quando os medos da desaceleração global causaram uma recessão que derrubou a bolsa americana em 20 por cento.


Por aqui, passou quase despercebido. Em outros momentos, algo do tipo teria levado a um pânico e quedas de 30 ou 40 por cento.



Ibovespa (rosa), bolsa China (verde) , bolsa americana (branco). Fonte: Bloomberg


Acredito mesmo que estamos melhorando, mas não podemos ser cegos.


Uma crise lá fora derrubará o mercado aqui. Contudo, se a gestão atual mantiver a trilha de fortalecer os bons fundamentos da economia, nos recuperaremos.


E, quem sabe, essa será a melhor oportunidade de comprar ativos brasileiros baratos.


Mas, só aproveitará quem estiver vivo.


Sobreviver é a lei do jogo


Por mais entusiasmado que estejamos com todas as transformações e perspectivas para a bolsa, a maior burrada que você pode fazer é ser dominado pela ganância.


No mercado financeiro, isso se traduz em querer correr mais risco do que você realmente suporta.


Até agora, tudo foi bastante tranquilo. A bolsa só subiu, ininterruptamente, e todos somos gênios.


O que separará os investidores dos apostadores gananciosos serão as crises.


Não sei quando ela virá e isso não deve ser usado como desculpa para ficar fora da bolsa. Até porque, fazer isso custará caro na sua performance ao longo dos anos.


Ao invés de ficar por fora, prefiro focar tempo em construir um portfólio equilibrado.


Uma carteira que me permita, na hora do caos, ter a tranquilidade para comprar tudo em liquidação.


Isso é muito mais importante do que tudo.


Esse é o trabalho que toda a equipe faz junto com você no Nord Advisor.


Um abraço.


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por Luiz Felippo
em 08/12/2019 para Nord Insights

Iniciou sua carreira num projeto de renda fixa do Insper com o BTG Pactual. Posteriormente atuou na área de pesquisa econômica internacional do Itaú Asset Management e foi analista de Renda Fixa da Empiricus Research. Formou-se Economista no Insper.

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