O dólar é apenas psicológico

Na boca do povo...


Na boca do povo...

Em meio às tempestades e às incertezas dos últimos meses, a palavra que está na boca dos investidores é o tal hedge (seguro).


Com a moeda americana subindo 44 por cento no ano, quem tem dólar na carteira suspira aliviado por ter protegido parte do seu portfólio. Quem não o tem, agora deseja, desesperadamente, ter uma parcela da sua carteira “dolarizada”.


O que eu acho mais interessante, nessa história toda, é o lado comportamental. É curioso como os seguros só são lembrados em momentos de pânico dos mercados  seria o mesmo que ligar para o plano de saúde quando já estivesse na ambulância.


Eu entendo o ato, de verdade, e encaro como uma última solução para tentar amenizar os efeitos dessa forte crise. É uma atitude bastante louvável, mas com implicações não tão positivas para o seu portfólio a longo prazo.


Até porque, ao contrário do seu plano de saúde que realmente funciona, fundos cambiais nunca foram úteis.


Aprendizados de uma crise


Essa não é a primeira crise de grandes proporções que enfrentamos. Tampouco a primeira em que o dólar subiu mais de 40 por cento em poucos meses.


Em 2002, quando o Lula estava prestes a assumir o Palácio do Planalto, pela primeira vez, a moeda americana se valorizou 71 por cento até as eleições.


Em 2008, em meio ao colapso do sistema financeiro americano, a nossa moeda chegou a perder 43 por cento do seu valor naquele ano.


A crise da dívida europeia, em 2011, seria o terceiro exemplo, mas imagino que a essa altura você já tenha entendido o meu ponto.


Nada disso é exatamente novo. Nós já passamos por diversas outras situações semelhantes e todas elas têm algo em comum: em horizontes mais longos, em nenhuma delas ter câmbio ajudou.


Para facilitar o entendimento dessa história, vou utilizar o exemplo de 2008.


À época, com a quebra do banco Lehman Brothers, em outubro, a moeda americana disparou, valorizando 60 por cento frente ao real em um pouco mais de três meses  finalizando o ano com ganhos de 43 por cento.


Naquele período, gênio era quem tinha algum tipo de ativo dolarizado na carteira. Em meio a todo aquele desespero, havia ali alguns guerreiros que protegeram suas carteiras e limitaram as perdas.


Fonte: Nord Research e Economatica

Fonte: Nord Research e Economatica


Observando a alocação, veja que as carteiras são basicamente idênticas, com uma única diferença: a presença de 10 por cento de fundo cambial no portfólio com hedge.


De fato, analisando friamente, quem possuía essa parcela de dólar na carteira terminou 2008 mais feliz.


Eu não nego nada disso, entretanto, a história não acaba aqui. Nos meses seguintes, conforme a incerteza foi reduzindo, todos os ganhos foram revertidos.


Então, olhando 1, 2, 5, 10 anos à frente, a presença de um fundo cambial não fez diferença, alguma, em termos de retorno.


Fonte: Nord Research e Economatica

Fonte: Nord Research e Economatica


No fim do dia, ela é mais um conforto psicológico, do que algo extremamente efetivo. Faz você dormir melhor à noite, mas não lhe faz mais rico.


O interessante é que, em cada uma das crises que eu citei, vale a mesma ideia. Afinal, como diria Mark Twain: "a história não se repete, mas rima".


2020 não é exceção.

2020: dessa vez é diferente?


Há sempre uma eterna crença de que dessa vez será diferente. Não sei o que é, mas talvez o ser humano seja biologicamente programado à acreditar no final feliz.


Não sou diferente. Tenho meus vieses também. No entanto, busco contrabalancear um pouco entre o otimismo e a frieza dos números.


Enfim, chega de filosofar. Voltando aos hedges cambiais, doze anos depois do estresse dos mercados, em 2008, voltamos a ter uma nova crise e parece que estamos na mesma situação vista naquela época.


Nesses poucos meses de 2020, com o dólar subindo 43 por cento no ano, o que mais temos visto é o desespero das pessoas por ter uma parcela do patrimônio atrelada ao dólar.



Volto a dizer: eu entendo o racional. Neste momento, quem comprou algum fundo cambial no começo do ano está rindo à toa, enquanto o resto de nós, agoniza.



Fonte: Nord Research e Economatica

Fonte: Nord Research e Economatica

De novo, a história se repete e as pessoas voltam a pensar em fazer hedges na carteira, porque parece fazer sentido.


Mas a realidade é que, mesmo quem está posicionado no dólar, provavelmente, não saberá a hora de vender.


E, quando virar consenso o momento da venda, seu seguro já terá virado pó há muito tempo (nesse caso, virar pó pode ser, simplesmente, perder feio para o CDI).


O que o longo prazo tem a dizer


Eu não acho estranho que as pessoas não saibam precisar o destino do dólar e, sendo bastante honesto, eu também não sei.


Como certa vez disse André Jakurski, fundador da JGP,  em palestra no BTG: “eu não gosto de fazer previsões, até porque, há maneiras mais agradáveis de se perder a reputação”.


Apesar de ele ter dito isso em um contexto de bolsa, concordo integralmente com essa frase. Na verdade, me preocupa quem acha que sabe e tenta fazer previsões.


Dito isso, como você não sabe quando precisará dos seus seguros, a única alternativa factível seria tê-los na carteira sempre.


Até onde os dados mostram, a longo prazo, não parece que a ideia de ter fundos cambiais resiste ao teste do tempo.



Fonte: Nord Research e Economatica

Fonte: Nord Research e Economatica



Se analisarmos as janelas de 1, 3, 10 e 15 anos, para as duas carteira citadas, vemos que os períodos onde a estratégia com hedge vence a disputa, se reduzem conforme dilatamos o horizonte de investimento.


Tudo converge ao ponto de que, passado quase duas décadas, você simplesmente estará deixando dinheiro na mesa ao tentar proteger sua carteira com fundos cambiais.


Logo, na minha visão, ter um fundo cambial na carteira é somente uma forma de deixar seu psicológico tranquilo.


Simples assim.


Agora, antes das críticas, eu entendo que esse estudo mais longo foi feito tendo em vista um CDI médio muito mais alto do que veremos à frente.


Mas, se olharmos um país comparável, como o México, por exemplo, podemos ter um "cheiro" do que enfrentaremos à frente.


Eles fizeram essa mesma convergência em seu patamar de juros, no início dos anos 2000, fazendo com que ficassem variando em uma banda entre 3 a 8 por cento.


Olhando os últimos 16 anos de retornos por lá, investir em dólar contra o peso mexicano, também não se provou uma boa estratégia.


Fonte: Nord Research e Economatica

Fonte: Nord Research e Economatica

        

Logo, meu caro, largue essa história de fundo cambial. O melhor remédio para acalmar o seu psicológico é uma boa alocação. O resto é conversa.


Pense melhor na sua carteira


Antes que eu seja apedrejado pelos doutores em alocação, não tenho nada contra investir em moeda forte.


Acho saudável, acredito que seja benéfico à carteira e temos pensado bastante aqui em maneiras de fazer isso. Contudo, fazer essa exposição via fundos cambiais não parece ser o melhor caminho.


Ao mesmo tempo, eu sei que muitos lhe dirão que, em meio à crise, teriam vendido toda a posição de dólar no máximo, e convertido em bolsa no timing perfeito.


Contudo, aqui entre nós: a gente sabe que a realidade é bem diferente do que dizem por aí.


Eu confesso que não faço parte desse grupo que sabe operar dólar. Mas o Victor, nosso colega do marketing, faz disso uma arte. Comprou fundo cambial com a moeda americana nas máximas e jura que o dólar bate 10 reais nos próximos dias. É esperar pra ver.  


A minha solução é bem mais simples: tenha um portfólio bem alocado. Monte uma carteira que seja resiliente o suficiente para aguentar os períodos de tempestade, e rentável para aproveitar os momentos de bonança.


Fazendo isso, certamente, você conseguirá dormir bem à noite e sem precisar “queimar” dinheiro com fundos cambiais.


E, se você não sabe como montar sua carteira, a Marília pode lhe ajudar. Ela está liderando um projeto de imersão com os assinantes do Nord Advisor, ajudando cada um a construir uma combinação vencedora para os seus investimentos.


É nisso que eu acredito. O resto, deixo para os livros e teorias.


Um abraço,


Compartilhar este artigo
por Luiz Felippo
em 17/05/2020 para Nord Insights

Iniciou sua carreira num projeto de renda fixa do Insper com o BTG Pactual. Posteriormente atuou na área de pesquisa econômica internacional do Itaú Asset Management e foi analista de Renda Fixa da Empiricus Research. Formou-se Economista no Insper.

Receba nosso conteúdo GRATUITO!