Nunca estivemos tão otimistas

Essa história é velha...

Essa história é velha

Eu já vi essa história um monte de vezes. E não tem jeito: a cada rodada de bull market ela se repete, sempre com os mesmos resultados.


Com Ibovespa a 50 mil pontos, você acha que Bolsa é cassino. Está confortavelmente instalado num CDB rendendo 65 por cento do CDI.


A 60 mil pontos, aquilo começa a chamar atenção. Mas pode ser só um movimento de curto prazo, não é mesmo? Pelo sim, pelo não, você resgata 10 por cento dos seus investimentos de Renda Fixa e usa os recursos para comprar algumas Ações nada originais: Petrobras, Vale, Itaú e coisas do gênero.


Então vêm os 70 mil pontos. Seu primo chato começa a se gabar, no churrasco de domingo, pois se descobriu um gênio dos investimentos. Estou ganhando em todos os meus trades, ele diz. E você percebe que podia ter ganhado muito mais se não tivesse colocado só 10 por cento da grana na Bolsa. Resgata mais 20 por cento da Renda Fixa e compra mais alguns nomes — talvez uma Ambev, uma Suzano…


“Tendência de alta”


80 mil pontos. Você está ganhando dinheiro! E percebe, de repente, que mantida aquela tendência — vendem para você a ideia de que o mercado segue tendências e, portanto, a uma alta deve seguir outra alta —, dá para ganhar uma tremenda grana. Reforça a aposta: mais de 50 por cento do patrimônio já está na Bolsa, e dá-lhe mid caps para completar a carteira.


90 mil pontos. O mercado dá uma engasgada: não vai, nem volta. Mas todo mundo à sua volta jura de pé junto que segue ganhando rios de dinheiro. Todo mundo está acima da média, menos você. Seu assessor sugere aproveitar a tal da congestão para montar novas posições. Porque quando vier a Reforma, quando passar a lei tal, quando os EUA e a China assinarem não sei o que o mercado vai recobrar o fôlego e continuar sua caminhada rumo ao infinito.


Por outro lado, começam a surgir vozes solitárias, aqui e ali, sugerindo que tem coisa subindo cujo valuation não faz sentido. Mas quem liga, não é mesmo?


100 mil pontos. Cem mil! É tetra! É tetra! Agora vai. Hora de colocar TODO o dinheiro na Bolsa — de preferência em Ações de empresas exóticas, das quais você nunca ouviu falar, mas que a turma do fórum jura de pé junto que vai bombar.


Coach financeiro = paleta mexicana


Você abre o Instagram e tem mais guru de investimentos do que candidata a modelete. Você não consegue assistir a um vídeo no YouTube sem que apareça um sujeito vendendo uma novíssima fórmula mágica para multiplicar o seu capital.


Sua carteira de Ações já tem uns 40 ou 50 nomes, muitos dos quais você jamais ouviu falar fora da bolha dos fóruns. Você já faz planos de viver de Bolsa. Um ou outro mais assanhado já começa a pensar em se alavancar para aumentar ainda mais as apostas na próxima grande tacada. Começa um novo ciclo de IPOs de qualidade altamente duvidosa — mas quem liga, pois as Ações sobem? O negócio é colocar 3 mil em cada oferta e flipar na abertura.


Nunca estivemos melhores. Nunca estivemos mais otimistas. O céu é o limite. Os critérios de análise antigos estão ultrapassados: vivemos um novo paradigma. Tweet com foguetinho.


...


Aí os Estados Unidos resolvem atacar o Irã e o mundo vem abaixo. Desce o pano.


Agora vai


O pequeno investidor sofre de um mal. E é um mal extremamente perigoso, a longo prazo, para seu patrimônio.


Digamos que um determinado Ativo vale 100 e está sendo negociado a 50. Se for dos 50 aos 100, é 100 por cento de retorno.


Se esse mesmo Ativo estiver negociado a 60, o retorno até os 100 é de 66 por cento. Se estiver negociado a 70, são 43 por cento de ganhos. Aos 90, o potencial de retorno é de 11 por cento.


Acontece que você não sabe de antemão que aquilo que está negociado a 50 vale, na verdade 100. O que você tem é uma profusão de opiniões de mercado: uns dizem que vale 60; outros que vale 80; um ou outro maluco sugerindo que vale 120.


E, enquanto eles estão falando, você simplesmente ignora. Aí o tal do Ativo começa a subir…


Bateu 60! Será que vai a 70? Vou investir. Bateu 70! Será que vai a 80? Vou aumentar a posição. Bateu 80! A tendência de alta se confirmou: vou dobrar minha aposta. Foi a 100! Ainda dá pra entrar? Quero botar mais dinheiro.


Soa familiar?


Retorno passado


Todos têm a obrigação protocolar de afirmar que retorno passado não é garantia de retorno futuro. Mas eu sei, olhando no fundo dos seus olhos, que o tanto que você ganhou no passado influencia, sim, no seu nível de confiança sobre o futuro.


Vou além: a indústria de investimentos inteirinha — bancos, corretoras, gestoras de recursos, casas de research — tem incentivos de sobra para manter a platéia animada; para manter você colocando mais dinheiro independentemente do nível de preço dos ativos. Gerar mais corretagem; gerar mais taxas de administração; vender mais cursos; vender mais assinaturas de relatórios.


Observe que, quanto mais o Ativo sobe, menor é o potencial de valorização remanescente até os 100 que ele vale — e que você não sabe de antemão. Menor, por consequência, é a margem de segurança com a qual você conta para investir.


Paradoxalmente, quanto menor o potencial de valorização e a margem de segurança, maior é o seu otimismo e sua disposição em aportar mais e mais recursos — afinal de contas, você olha para o passado e vê valorizações que quer ver se repetindo à frente.


Até que, um belo dia, a roda pára de girar por qualquer motivo aleatório.


É o caminho do desastre.



Ações estranhas


Lá vem o barbudo pessimista de plantão colocar água no chopp com o mercado a 100 mil pontos, alguns hão de pensar.


Não é isso.


Preocupa-me constatar que, de um lado, há cada vez menos nomes na Bolsa com potencial expressivo de valorização e margem de segurança adequada. E, de outro, há investidores mais otimistas do que nunca, cada vez menos seletivos no que compram, quiçá um tanto inebriados pelos retornos recentes.


Preocupa-me constatar que esse clima de oba oba coexiste com uma economia real que patina. Que as revisões (para cima, é claro) dos Preços-Alvo venham de reduções nas taxas de desconto ao invés de mudanças em premissas operacionais das empresas — cujos lucros não crescem grande coisa.


E que, dia após dia, aumenta o número de Ações extremamente estranhas que caem no gosto da turma.


Pergunte-se sinceramente


Pergunte-se: qual seria o tamanho do estrago no seu patrimônio se suas Ações, hoje, caíssem 50 por cento?


Você realmente está investindo em renda variável o quanto deveria? Ou será que é mais?


Você realmente tem estômago para aguentar volatilidade ou só está valente porque, no momento, a vol é para cima?


Você sabe os motivos pelos quais você tem as Ações que tem na carteira? Ou você só sai correndo atrás de uma tabela de recomendações e compra, indiscriminadamente, qualquer coisa?


Você vê embasamento nas recomendações de investimento que acompanha ou as julga tão somente por resultados de um passado recente?


Pergunte-se. Mas pergunte-se sinceramente.

Pé no chão


Quanto mais os preços avançam, maior deve ser a seletividade do investidor na escolha de suas Ações.


E mais, por outro lado, será a pressão do entorno para que você se lance, pelo contrário, em ideias cada vez mais exóticas.


É tudo muito tentador. E talvez você consiga, sim, fazer algum dinheiro nisso. Mas não se engane: isso não dura para sempre, e suas chances de estar sentadinho na cadeira na hora que a música parar são pequenas.


Invista, sim. Mas invista com consciência. Com critério. Ignore os ruídos. Tome cuidado com os discursos estridentes que sugerem que agora é diferente e que você tem que se entupir de Bolsa.


Quanto mais o mercado avança, menores são as margens de segurança. Não esqueça disso. Mantenha seus pés no chão.


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por Ricardo Schweitzer
em 22/07/2019 para Nord Insights

Possui 13 anos de experiência no mercado financeiro. Antes de fundar a Nord Research passou Adviser Asset, Fundação CEEE, Sicredi Asset, Votorantim Corretora e Empiricus Research. Formou-se economista pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

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