Ninguém escapou ileso

Blitzkrieg à moda brasileira 

Blitzkrieg à moda brasileira

Aos que já me conhecem, sabem que eu sou um aficionado por história. Quando o tema é Segunda Guerra Mundial, acabo por devorar documentários, livros, filmes e séries sobre o assunto.


É um costume antigo que, ao longo do tempo, virou um hobby e que carrego comigo até hoje. Claro, esse é um período mórbido da história, mas o momento atual do mercado me lembra um pouco da Blitzkrieg alemã.


Para os poucos familiarizados com o tema, essa foi uma estratégia alemã de guerra, baseada em ataques brutais e relâmpagos aos seus inimigos. A ideia era ser um ataque surpresa e tão rápido que o defensor seria incapaz de se organizar para tentar uma defesa.


A tática foi tão bem sucedida que, até 1942, a Alemanha já havia conquistado praticamente toda a Europa Central.



Hoje, a nossa própria maneira, parece que sofremos do mesmo mal. A destruição de valor nas ações foi tão intensa e rápida que às vezes penso que somos a França enfrentando uma Blitzkrieg da Alemanha.


E, olhando para trás, não existe precedente histórico com quedas como essas nos mercados. Puxando os dados do Ibovespa desde 1986, apesar de perdas mais agudas no passado, essa foi a mais rápida.



Nem mesmo a S&P500 (bolsa americana), em 1929, recuou tão rápido, caindo cerca de 44 por cento em um pouco mais de 2 meses.


Ou seja, não existe paralelo no mundo de algo desse tipo. É realmente surreal a perda de valor que as companhias brasileiras estão sofrendo e em tão pouco tempo.


Nesse momento, a pergunta que mais recebemos aqui é: será que agora, depois de 6 circuit breakers, chegamos ao fundo do poço?


Confesso que não sei a resposta. O fato do jornal, The Economist ter lançado uma capa pessimista tende a ser um bom indicador de que as coisas possam melhorar daqui em diante.


(A revista britânica tem fama de "pé trocado". Lembra da famosa capa do Cristo Redentor decolando em 2009?)


Porém, de qualquer modo, é impossível ter certeza. O que eu sei é que tem muita coisa barata na bolsa brasileira, seja qual for a métrica utilizada.


Escolha a sua Métrica


Tentando fugir do home broker para evitar ver meu portfólio cair 40 por cento, prefiro focar nos dados e nas empresas. Por todos os ângulos que eu consigo avaliar, a bolsa parece barata.


Você poderia olhar o índice deflacionado, onde já estamos quase no mesmo nível da crise de 2008  faltando somente 18 por cento para o ápice do desespero.


Fonte: Nord e Economatica.


Poderia também ver a bolsa em dólares, a qual já está muito perto das mínimas da crise do subprime.


O múltiplo de P/L 12 meses a frente está 8x, o que seria impensável e remete aos primórdios do governo Dilma.


O prêmio de risco de investir em bolsa subiu para as suas máximas históricas e o dividend yield está na casa de 5 por cento  com algumas empresas muito boas pagando até dois dígitos em dividendos, pode perguntar ao Ricardo Schweitzer.


O VIX (índice do medo), está nas alturas, com o mercado trocando a racionalidade pelo pânico  o que também costuma se revelar um bom ponto de entrada.


Eu poderia continuar aqui citando diversas outras medidas, mas acredito que você já tenha entendido o meu ponto.


Ou seja, mesmo olhando o Índice Ibovespa com toda a sua "sujeira", parece que tem muita coisa barata nesse mercado.


Não sei se vai cair mais.


Não sei se os efeitos dessa paralisação serão ainda mais severos.


 Mas esses níveis de preço já aguentam MUITO desaforo.


Haja Desaforo


É importante ter em mente o seguinte: mesmo achando a bolsa barata hoje, sempre há chance dela cair mais.


Pessoalmente, eu achava que era muito bom investir desde os 90 mil pontos. Hoje ela está perto de 70 mil.


Eu sei que esses movimentos bruscos assustam. A dor ao ver o dinheiro se reduzindo só aumenta a cada dia de pregão.


Mas saiba que essa volatilidade toda não importa. Para o investidor de longo prazo, o mais importante é o seguinte: entrar na bolsa aos preços de hoje garante a você uma margem de segurança gigantesca.


Ou seja, mesmo que ocorra o apocalipse no meio do caminho e você perca algum dinheiro, são muito boas as chances de você sair vencedor em horizontes longos.


Para provar essa ideia, eu fiz o seguinte teste: qual o retorno de 10 anos ao comprar o índice após uma queda de 40 por cento?


Eis o resultado:

*PS: índice deflacionado. Fonte: Nord Research e Economatica


Note que, em alguns momentos, como as crises que sucederam 1986, 1990 e 2000, as bolsas continuaram recuando forte após a sua compra. Em alguns momentos, o fundo do poço se deu, somente, após a queda acumulada atingir 90 por cento.


Mas, em todas as probabilidades com a compra com prazo de 10 anos, você sempre ganha dinheiro. Em média, você multiplicou o seu dinheiro por 1,5x ao fazer isso e, no pior cenário durante o período de crises sucessivas dos anos 90 —, 1,2x.


E o melhor de tudo isso: você não precisou saber qual era o ponto de inflexão dos mercados para ganhar dinheiro.


Tudo o que foi preciso fazer, nesse caso, foi adquirir um bom ativo por um preço muito menor do que ele vale.


Mas, como eu disse, o índice ainda é muito sujo. Ao longo desse tempo, muitas empresas que fizeram parte do Ibovespa quebraram e empurram essa média para baixo.


Então, de certa maneira, esse resultado está um tanto quanto subestimando o poder de longo prazo.


Agora, se mesmo nesse ambiente foi possível uma boa multiplicação de capital, imagina com um ativo de boa qualidade como Itaú.


Aqui, meu caro, a situação muda completamente de figura.


        *PS: preços deflacionados. Fonte: Nord Research e Economatica


Quem comprou as ações do banco laranjinha em finais de crise multiplicou o capital inicial, em média, por 6x e no pior cenário em 3x  muito superior ao que vimos no índice como um todo.


Claro que nada disso é garantia de como será no futuro.


Na verdade, nunca é.


Porém, a mágica de comprar boas empresas a preços fantásticos sempre ajudou o investidor que olha horizontes mais longos.


Não acho que será diferente desta vez.


Hora de Agir


A gente sabe que ver o patrimônio em bolsa cair mais de 40, 50, 60 por cento nos paralisa e nos deixa sem ação.


Apesar de muita gente ter passado pelo Joesley Day e a famigerada Greve dos caminhoneiros, essa é a primeira crise de grandes proporções que a maioria enfrenta.


De fato, ela tem sido brutal, deixando um rastro de destruição até nos mais experientes gestores de recursos do mundo.


A lenda do mercado de ações, Dynamo, está caindo 40 por cento no ano. O rei do multimercados, Luis Stuhlberger da gestora Verde, 18 por cento.


No mundo, a Renaissance (famoso fundo quantitativo global e com um histórico impecável) está caindo 12 por cento e Ray Dalio outros 20 por cento na Bridgewater.


Ou seja, mesmo os mais experientes gestores estão sofrendo nesse momento. Então, não pense que você está sozinho.


Porém, essa é a hora de agir.


Como diria aquela bela frase do Baron Rothschild: “the time to buy is when there’s blood in the streets, even if the blood is your own”. (o tempo de comprar é quando há sangue nas ruas, mesmo que seja o seu próprio).


É fato: o meu, o seu e o nosso sangue está nas ruas, mas o momento é imperdível. Não há condições de ficar parado.


Mesmo assim, não precisa ir com sede ao pote. Ninguém sabe onde é o fundo do poço, então faça as compras com parcimônia.


Teste os mercados. Faça da mesma forma como alguém que avalia a temperatura da água da piscina com a ponta dos pés antes de cair de cabeça.


Faça isso e, no longo prazo, certamente você sairá vencedor.


Um grande abraço.


Compartilhar este artigo
por Luiz Felippo
em 22/03/2020 para Nord Insights

Iniciou sua carreira num projeto de renda fixa do Insper com o BTG Pactual. Posteriormente atuou na área de pesquisa econômica internacional do Itaú Asset Management e foi analista de Renda Fixa da Empiricus Research. Formou-se Economista no Insper.

Receba nosso conteúdo GRATUITO!