Navegando em águas turbulentas

Riscos demasiadamente altos podem ter consequências indesejadas.


Take me to another place

Tivemos outra semana agitada no mercado de Ações norte-americano. Os principais índices acionários seguiram em queda  apesar de um respiro no meio da semana.

Fonte: Bloomberg

Acredito que em algum momento, talvez quando o índice de tecnologia Nasdaq acentuou a queda no começo da semana, os investidores de varejo na verdade almejavam estar em outro lugar, visto que, ao longo dos últimos meses, desvalorizações mais acentuadas eram apenas coisas do passado.

Where the fairy tales don’t end

Apenas no primeiro semestre, principalmente depois da queda acentuada no começo do ano,  milhões de contas de varejo foram abertas nas principais corretoras norte-americanas. Por conta disso, muitos desses novos investidores estão vivendo um conto de fadas sem fim.

É bem provável que as pessoas estejam aceitando riscos muito acima do que realmente o fariam se não fosse essa visão de que o novo mundo só será possível com a presença das empresas Techs.

Mas como bem sabemos, uma alocação demasiadamente fora de seu perfil pode trazer alguns efeitos colaterais indesejados, visto a falta de preparo para lidar com a situação.

Imagine que você comprou Ações da Tesla lá no pico e viu elas se desvalorizarem 34 por cento em apenas cinco dias. Agora, para  recuperar a “perda”, as mesmas ações precisam subir algo perto de 50 por cento.

Shoot me down, but I won't fall, I am titanium

Pior do que isso seria o caso de você ter comprado Opções de compra sobre as Ações da Tesla acreditando que o movimento de valorização seria infinito. Afinal, a expectativa lá no dia 31 de agosto  atual máxima histórica  era de que as Ações da Companhia continuariam voando alto, rumo a marte, a exemplo de sua irmã, a Space X.

A lógica era simples. Você colocaria pouco dinheiro, visto que o prêmio necessário para comprar as Opções é muito menor do que o capital requerido para efetivamente adquirir as Ações. O movimento de alta continuaria e, depois de alguns dias, você venderia as opções com um grande lucro e poderia até trocar de carro.

Só que não… as Opções muito provavelmente viraram “pó”  como usualmente falamos no mercado financeiro, quando elas perdem quase totalmente seu valor.

Fonte: Bloomberg (Ações da Tesla em azul, Opções em branco)

Como mostra o gráfico acima, no dia 31 de agosto, as Opções que davam o direito de comprar 100 Ações da Tesla em 18 de setembro fecharam a 43,85 dólares, momento em que as próprias Ações da empresa estavam aos 500 dólares.

Ou seja, seria preciso que as Ações continuassem subindo para você, por exemplo, vender suas Opções a 50 dólares e, assim, ganhar um troco. Ficar rico mesmo apenas se as Ações fossem para 1.000 dólares… pouco provável, não é mesmo?

Atualmente, as Ações da empresa estão ao redor de 370 dólares, e as Opções valem 1,5 dólar. Com pouco mais de uma semana para o vencimento dessas Opções, quando o investidor deve decidir se efetivamente compra as Ações da Tesla por 500 dólares de quem lhe vendeu as Opções, eu diria que é um pouco improvável alguém tomar essa decisão, visto que é possível adquirir essas mesmas Ações por 370 dólares.

Isso tudo para dizer que, caso a Ação da Companhia não vá para cima dos 500 dólares (alta de 50 por cento em apenas uma semana), suas opções valem zero.

E alguns pequenos investidores ainda se consideram  ou se consideravam, depois dessa  feitos de titânio.


Don’t think I fit in this party

Parece que na cabeça de muitas pessoas esse movimento não era tão improvável. Utilizei apenas um exemplo focado nas Ações da Tesla, mas o mercado de Opções nos Estados Unidos é muito grande e líquido.

Todavia, Opções são um instrumento financeiro complexo  as newsletters escritas pelo Bruce, ao longo das últimas semanas, exemplificam muito bem o funcionamento desse mercado  e, ao longo dos últimos meses, foram a diversão dos pequenos investidores.

Fonte: Financial Times


O gráfico acima mostra que aproximadamente 60 por cento de todas as transações no mercado atual de Opções equivalem a lotes de 10 contratos ou menos  pequenos investidores , maior representatividade desde 2000.

Enquanto os “grandes” investidores  representados por 50 contratos ou mais por transação  estão com pouco mais de 20 por cento do mercado. Trata-se de uma inversão total de valores e riscos.

Não entrarei nos detalhes técnicos, mas é muito difícil mesmo para os grandes investidores ganharem dinheiro nesse mercado. Quando acontece, as apostas  detesto essa palavra  não costumam ser direcionais, elas são “travadas” e proporcionam apenas pequenos lucros que, se multiplicados por milhões de contratos, tornam-se mais substanciais.

Se já é complicado para os grandes investidores tirarem dinheiro desse mercado sem apostas direcionais, imaginem para os pequenos players de varejo, que normalmente não possuem tanto conhecimento técnico para executar essas estratégias “exóticas” feitas pelos institucionais...

Esse outro gráfico também ajuda a exemplificar bem o momento atual do mercado de Ações nos Estados Unidos. Desde a crise de 2008 não temos uma representatividade tão grande dos contratos de Opções de curto prazo no volume total negociado.

Se é difícil acertar no longo prazo, imaginem prever o que vai acontecer em alguns dias… Vale também notar o quanto o volume de Opções negociadas no mercado aumentou durante este ano.



Fonte: Financial Times


We ain’t kids no more

Não somos mais crianças. A cada dia que ficamos mais velhos temos menos tempo à nossa frente, o que significa que podemos errar cada vez menos quando se trata da nossa poupança de longo prazo.

Temo que muita gente, influenciada pela alta sem fim dos mercados, esteja tomando decisões pouco racionais sobre quando, como e o que  fazer com seus investimentos.

Muito cuidado, minha gente! Para nós, simples mortais, o tempo é finito. Uma perda substancial em seu patrimônio pode lhe tirar do jogo e causar um estrago em sua vida financeira que, sem dúvida, acarretará em impactos na sua vida pessoal, familiar e profissional.

Um abraço e bom final de semana a todos.


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por Cesar Crivelli
em 12/09/2020 para Nord Insights

Bacharel em Administração de Empresas pela PUC-SP, possui MBA pela FGV e MSF pela Hult International Business School. Integrou a equipe de Equity Research do Citibank e tesouraria da General Motors (GM) no Brasil. Posteriormente, atuou nas frentes de M&A e novos negócios da Xeros Cleaning Technologies (XTG), nos Estados Unidos. Ingressou na Nord Research em outubro de 2019, como parte do time do Nord Small Caps, e hoje é responsável pelo Nord Global.

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