Mudando para continuar como está

Um potencial equilíbrio instável pode ter seu lado bom

A máquina se retroalimenta

Enquanto avança o escrutínio eleitoral norte-americano, os mercados sobem.


Se, por um lado, investidores constroem do desenrolar dos fatos um cenário que lhes parece palatável, por outro, resultados corporativos trazem surpresas positivas e contribuem para a continuidade da rodada de bom humor.


A madrugada foi de ganhos na Ásia, que se estendem pelo front europeu e se retroalimentam com boas perspectivas para o S&P futuro. Ao que tudo indica, seguiremos o mesmo caminho por aqui.


A solução é o conflito

Ao que parece, salvo um plot twist de última hora, Biden é o próximo presidente americano.


Dados a respeito do financiamento de sua campanha dão ideia de simpatia por parte de Wall Street ao democrata. Antes de fazer qualquer juízo de valor, follow the money (siga o dinheiro).


A leitura que emerge dos resultados parciais é, no mínimo, curiosa: com a presidência democrata mas, por outro lado, uma maioria republicana no Senado, reduzem-se as chances de aumento de impostos (Biden) e de regulação das techs (Trump).


As mudanças viriam, assim, para garantir que tudo continue como está.


E os estímulos fiscais com os quais todo mundo sonhava até semanas atrás? Que eram colocados como a salvação da lavoura? De repente, viraram algo secundário…



Sinal e ruído

A pergunta que mais me foi feita nas últimas semanas foi, sem margem para dúvidas, se o resultado das eleições americanas muda a estratégia de investimento.


A não ser que você opere com foco no macro — que não é o meu caso —, sinceramente penso que não.


Lá no Nord Dividendos, as Empresas continuarão gerando caixa substancialmente maior que sua necessidade de reinvestimento, distribuindo-o aos acionistas. No Nord Small Caps, por sua vez, a maior parte das Empresas depende mormente de iniciativas internas e dinâmicas específicas de seus mercados para prosperar.


E isso basta.


Ah, mas a percepção de risco muda e isso afeta os valuations… — parabéns, amigo: você aprendeu teoria de finanças direitinho.


Muda. A toda hora. E é relativamente cíclico. Se tenho, em um lado da balança, os fatores que estão sob relativo controle das empresas e, do outro, a ciclotimia inerente aos mercados, não tenho a menor dúvida de que me será muito mais proveitoso focar tempo e energia no primeiro conjunto — o resto se ajeita.


Causa próxima x causa remota

Mas ainda assim, provoco: mesmo pensando em termos macro, pesam mais os rumos do Tio Sam ou as presepadas tupiniquins?


Se você quer se preocupar com macro, olhe primeiro para dentro de casa. Olhe para o nosso cenário fiscal; olhe para a agenda de reformas que não avança; olhe para o comportamento da nossa curva de juros.


Se os EUA viverem o nirvana, mas ficarmos no atoleiro por aqui, o dinheiro vai para outro lugar. Simples assim. Aliás, vale lembrar que temos um longo histórico de assincronia com o restante do mundo: quando tudo vai bem lá fora, arranjamos um perrengue doméstico para nos entreter.


Os cães ladram e a caravana passa

Enquanto seguem, todos, vidrados no futuro de Washington, o mundo real das Empresas se desenrola por aqui com boas surpresas nessa temporada de resultados do 3T20.


Estou bem mais interessado nisso aqui. E penso, sinceramente, que você também deveria estar — pois é isso, e não o que se passa no Arizona, em Nevada ou whatever (qualquer outro lugar) que fará diferença nos seus investimentos no devido prazo.


(A não ser que o seu prazo seja hoje ou amanhã. Nesse caso, francamente não posso ajudar)


Quem está fazendo a lição de casa? Quem está melhorando e não tem essa melhora notada pelo mercado — que parece, cada vez mais, se agarrar ao macro e aos nomes batidos de sempre?


Compartilhar este artigo
por Ricardo Schweitzer
em 05/11/2020 para Nord Insights

Possui 14 anos de experiência no mercado financeiro. Antes de fundar a Nord Research passou pela Adviser Asset, Fundação CEEE, Sicredi Asset, Votorantim Corretora e Empiricus Research. Formou-se em economia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

Receba nosso conteúdo GRATUITO!