Mudando as regras

Banco Central norte-americano anuncia novas metas de longo prazo


O FED

Até o início da década de 1910, os americanos eram contra a figura de um Banco Central. Havia um certo "ranço" em torno deste modelo, que lembrava o Banco da Inglaterra, o que não deixava o “novo mundo” muito contente. Optava-se, até então, por um modelo de regulamentação financeira descentralizado, de estado a estado.

Todavia, a mudança veio logo depois de uma grande crise financeira que se estabeleceu em 1907 e levou centenas de milhares de americanos a uma corrida bancária. Ali percebeu-se que era necessário um agente maior, que pudesse fiscalizar o sistema financeiro e ao mesmo tempo cuidar da política monetária da nação.

O Federal Reserve — ou FED para os íntimos — foi criado em 1913 com o papel de agir em última instância para assegurar a liquidez no sistema financeiro, caso uma nova grande crise se instalasse no país.

Hoje em dia o FED cuida da política monetária dos Estados Unidos, ou seja, ele possui um colegiado que define qual será a taxa básica de juros da economia, calibrando-a de acordo, principalmente, com os níveis da inflação, mas atentando-se para outros indicadores, como a taxa de desemprego.

De uma maneira simplista, se a inflação está baixa e sob controle, os juros ficam baixos, o que estimula a concessão de crédito e aumenta a quantidade de dinheiro em circulação, visando a expansão da economia.

Por outro lado, se a inflação está alta, as taxas de juros sobem, o que incentiva as pessoas a pouparem dinheiro retirando assim a moeda de circulação, e então, temporariamente arrefecendo a economia para conter o aumento de preços.

Em miúdos: um dos papéis do FED é olhar para a inflação e ajustar os juros de acordo com as expectativas sobre ela. A instituição também supervisiona e regulamenta o sistema financeiro e cuida dos depósitos bancários.

A mudança

Nesta semana o FED promoveu remotamente — sem muito champanhe e caviar acredito eu — seu encontro anual, onde são expostas as expectativas do colegiado sobre a economia americana. É comum que o FED, neste encontro anual, também forneça aos agentes de mercado alguma sinalização sobre seu entendimento da política monetária futura, o que de fato ocorreu.

Normalmente não temos grandes novidades nestes encontros, mas dessa vez foi diferente. Durante a reunião desta semana, Jerome H. Powell — o "cabeça" do FED — anunciou que a partir de agora a instituição não mais terá foco na inflação de curto e médio prazo, mas que irá calibrar os juros de acordo com os números de longo prazo.

A meta a princípio está mantida para 2 por cento ao ano, mas haverá espaço para que por alguns anos, se for o caso, a inflação fique acima disso.

Como dito anteriormente, quando a inflação começa a subir, o Banco Central tende a aumentar a taxa de juros. Todavia, diante desta nova política, o FED sinaliza que mesmo que ocorra um aumento dos preços, ele pode não mexer na taxa de juros.

A principal leitura de tudo isso é que por vários anos os juros nos Estados Unidos deve ficar próximo de zero — patamar atual — independentemente de uma subida nos níveis inflacionários.

Em seu discurso, o Sr. Powell também informou ao mercado que passará a ser preocupação direta do FED o nível de desemprego nos Estados Unidos. Até então, o indicador era sim observado de perto pelo colegiado, todavia, a principal medida para aumento ou queda de juros era a inflação. Agora os números de desemprego terão mais representatividade na tomada de decisão.

Esse comunicado também indica que o FED está disposto a conviver com uma inflação mais alta. À medida que a taxa de desemprego cai, ou seja, as pessoas possuem lugar no mercado de trabalho, fica difícil para as empresas contratarem mais funcionários e torna-se então necessário aumentar os salários para conquistar ou reter os colaboradores. Isso implica em maior poder de compra, que pode também ter alguma repercussão na inflação.

O resumo da história é que os Estados Unidos devem conviver com uma taxa de inflação mais alta ao longos dos próximos anos, mantendo a taxa básica de juros em um nível extremamente baixo.


As implicações

Deixando um pouco de lado o campo macroeconômico e trazendo essa nova realidade — e seus possíveis impactos no mercado de Ações — podemos assumir que as medidas anunciadas são positivas para o investimento em Ações.

Com os juros extremamente baixos, um cidadão americano que tenha algum dinheiro guardado ficará frustrado ao perguntar para o gerente do banco quanto uma aplicação em renda fixa lhe renderá.

No cenário de hoje, a resposta seria muito pouco, ou quase nada, algo próximo de 2 por cento ao ano. Se ainda considerarmos o efeito da inflação, o rendimento real da aplicação será próximo de zero, ou mesmo negativo.

Desta maneira, o caminho natural é que os investidores procurem uma maior taxa de retorno para o capital e o mercado de renda variável tende a oferecer isso no longo prazo.

Já tem algum tempo que os juros nos Estados Unidos estão próximos de zero e a migração de investimentos mais seguros, como a renda fixa, para outros mercados, como o de Ações, tem sido grande.

Não conseguimos fugir muito da lei da oferta e demanda, mesmo quando se trata de investimentos. Dado que a quantidade de ativos — neste caso Ações de empresas — é limitado, quanto maior a procura, maior o preço.

Temos visto o valor das Ações aumentar consideravelmente nos últimos meses, apesar da crise financeira não ter acabado. Os principais índices acionários nos Estados Unidos já recuperaram todas as perdas observadas quando da eclosão da pandemia e estão positivos no ano, puxados, principalmente, pelas empresas de tecnologia.

Os investidores de fato estão dispostos a pagar cada vez mais pelo mesmo ativo, pois como dito, deixar o dinheiro na renda fixa não parece ser um bom negócio no momento.

Todavia, creio que cabe uma reflexão sobre o comportamento visto nos mercados acionários ao longo dos últimos meses.

Apesar de ser um bom investimento no longo prazo, tornar-se sócio de uma companhia implica na expectativa de que ao longo dos anos seu capital será remunerado. Seja pelo reinvestimento dos lucros na própria empresa, que levará ao crescimento dela, com consequentemente reflexo positivo em suas ações, ou obter o retorno por meio da distribuição dos lucros em forma de dividendos.

Independentemente do caso, se a Companhia não entregar o crescimento nos lucros, o tempo de retorno para o investimento vai aumentar.

Demonstro no exemplo abaixo dois cenários: no primeiro, as Ações da empresa aumentam de preço, bem como o lucro. Já no segundo, as Ações sobem, mas o lucro fica estável.

Fonte: Nord Research


Fica então a reflexão sobre a capacidade da grande maioria das empresas em conseguir uma expansão nos lucros ao longo dos próximos trimestres ou mesmo anos, diante de um baque econômico, que ao que tudo indica, ainda será sentido por algum tempo.

Estariam os investidores apenas comprando Ações porque os rendimentos de outros investimentos estão baixos e o dinheiro “não tem para onde ir”? Ou estariam estes de fato se atentando ao fundamento das empresas para os próximos anos?


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por Cesar Crivelli
em 29/08/2020 para Nord Insights

Bacharel em Administração de Empresas pela PUC-SP, possui MBA pela FGV e MSF pela Hult International Business School. Integrou a equipe de Equity Research do Citibank e tesouraria da General Motors (GM) no Brasil. Posteriormente, atuou nas frentes de M&A e novos negócios da Xeros Cleaning Technologies (XTG), nos Estados Unidos. Ingressou na Nord Research em outubro de 2019, como parte do time do Nord Small Caps, e hoje é responsável pelo Nord Global.

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