Moço, vai um Multimercado aí? É orgânico!

TINA, TNN

As frases do momento são duas: there is no alternative (TINA), “não há alternativa”, e the new normal (TNN), “o novo normal”.


O mercado adora acrônimos ou expressões em inglês. Se você leu algum conteúdo financeiro nos últimos anos deve ter se deparado com algum deles.


Mas, ao fim do dia, ambos os trechos possuem um significado em comum: nada será como antes e teremos um novo mundo à frente.


É impressionante como as pessoas têm usado essa argumentação para justificar tudo, como se isso fosse uma verdade universal inquestionável.


A situação está tão disseminada, e o discurso de venda tão afiado, que até o gerente do banco (ou assessor) já aprendeu a usá-lo com maestria para convencer o cliente.


Não importa qual seja o investimento, o discurso se encaixa. Vale do Crédito Privado à Bolsa de Valores.


Depois do protagonismo dos dois anteriores, a bola da vez parece ser os multimercados  onde a indústria parece ter se recuperado bem mesmo com a crise de março.


O papo aparenta estar dando certo, e o reflexo disso se dá nos números altos de captação nos Fundos.


Fonte: Nord Research e Anbima


Enfim, não me entenda mal. Eu acho que os juros baixos são algo transformacional, e o investidor brasileiro vai precisar remodelar a sua carteira.


Agora, vem cá, para além de acrônimos bonitos e frases de efeito: você entende o que é uma estratégia em multimercado?

O que é, o que é?


Quando criança, fazíamos bastante na escola essas brincadeiras de adivinhação. A graça era  sempre decifrar as charadas, muitas vezes indecifráveis.


Achava uma atividade divertida, apesar de nunca ter sido muito bom nela. Hoje, vou lançar para você uma delas.


Então, vamos lá!


O que é, o que é? Pode investir em todo tipo de ativo e tem acesso a diversos mercados internacionais?


Isso mesmo, são os Fundos Multimercado! O gestor dessa classe tem a função de analisar o cenário econômico estudando os dados de inflação, crescimento econômico, dívida sobre o PIB etc.


A partir daí, com o cenário base traçado, ele escolhe quais são os melhores investimentos para se ter naquele dado momento.


Por exemplo, se ele acredita que a Selic pode cair para 1 por cento, pode investir em juros para capturar essa queda. Caso ache que não seria um bom investimento no Brasil, pode fazer a mesma aposta no México.


Se ele acha que, dadas as escolhas fiscais ruins do governo, o real tende a perder valor contra o dólar, ele pode investir na moeda americana. Alternativamente, pode fazer o mesmo com o euro, franco suíço ou rand sul africano.


Pode também investir no petróleo, acreditando que a demanda global pelo insumo vai crescer, mas se proteger dos abusos dos Bancos Centrais globais no Ouro.


Não há barreiras geográficas, o que significa que você não precisa ficar preso ao Brasil. Se as oportunidades estiverem ruins aqui, há uma série de oportunidades em outros países.


Ou seja, ao investir nesse tipo de produto, abre-se um mar de oportunidades para você.


Após isso, você se expõe a mercados e estratégias que anteriormente não seriam acessíveis aos meros mortais como você e eu.


É fabuloso! Mas não falamos da parte mais importante: como escolher.

A tentação de olhar performance


Não tenho dúvidas de que essa é uma estratégia que deveria estar presente em todas as carteiras de um investidor, com um papel importante na diversificação do seu portfólio.


A questão é: como escolher em meio a tantas oportunidades? Afinal de contas, as corretoras estão lotadas de opções e fica difícil a escolha.


Para responder a essa pergunta, as pessoas tomam os mais diversos caminhos, mas o mais comum é avaliar os resultados dos últimos meses do Fundo e tomar uma decisão.


Simples assim, como se esse fosse o único critério de avaliação. Antes de mostrar o que fazer, vamos mostrar porque isso é um erro.


Avaliar um Fundo somente pela rentabilidade passada é como tentar dirigir um carro em uma estrada somente olhando para o retrovisor: eventualmente, você quebrará a cara.


Ao analisar os resultados desse Fundo, é importante entender como o gestor os construiu ao longo do tempo. Se foi fazendo loucuras ou tomando risco excessivo, saiba que ele quebrará a cara  levando você junto.


Além disso, em diversas ocasiões, apesar de o Fundo ter um histórico de resultado fabuloso, o grupo de pessoas que gerou aquele retorno não está mais naquela gestora. Sendo assim, é difícil acreditar que os retornos serão os mesmos daqueles do passado.


Ao assumir que poderiam ser, isso equivale a dizer que eu poderia substituir o Ayrton Senna como piloto, trocar toda a sua equipe e continuar vencendo da mesma forma.


Obviamente não serão os mesmos resultados. Podem ser piores ou melhores, mas certamente diferentes.


Enfim, o que eu preciso deixar claro é: ao escolher um Fundo de investimento para investir, estamos analisando AS PESSOAS, não a cota.


A cota é simplesmente o resultado final das tomadas de decisão daquele time.


Processos e pessoas


Para mim, a pessoa que melhor simplificou o que é escolher uma boa gestora foi o Luis Parreiras da Verde Asset.


Certa vez, quando perguntado sobre o assunto, ele respondeu: processos e pessoas. Eu não poderia concordar mais. Sem isso, você não consegue construir uma boa performance de longo prazo.


Como regras básicas, foque em entender o histórico do seu gestor e da sua equipe. Olhe há quanto tempo o time está junto, porque esse entrosamento conta muito.


Não deixe de avaliar os processos. Avalie como funciona a tomada de decisão, o processo de investimento, a gestão de risco em cenários de estresse etc.


Isso é crucial e pode ser a diferença entre o fracasso e o sucesso na escolha do Fundo.


Por fim, claro, também estamos olhando a performance final do Fundo, porém, quando o fizermos, estaremos sempre mais preocupados com a consistência do que com o resultado dos últimos 12 meses.


Nunca foi fácil avaliar um Fundo. São diversos quesitos a serem analisados antes de finalmente decidirmos por um.  É por isso que eu dedico todos meus dias (e várias noites) a avaliar os Fundos.


Portanto, cuidado quando alguém aparecer com aquelas historinhas da moda: "invista nesse Fundo aqui, pois ele é Tech Disruptivo ESG Crypto Patinético Novo Normal 2.0 Turbo Orgânico".


Ganhar dinheiro ao longo do tempo, com consistência e sem correr riscos desnecessários, é mais complicado do que querem fazer parecer.


Por isso, compartilho o meu trabalho de analisar Fundos com todos os assinantes do Nord Fundos, trazendo a eles o que há de melhor na indústria de investimentos para que invistam bem.



Um abraço,


Compartilhar este artigo
por Luiz Felippo
em 13/09/2020 para Nord Insights

Iniciou sua carreira num projeto de renda fixa do Insper com o BTG Pactual. Posteriormente atuou na área de pesquisa econômica internacional do Itaú Asset Management e foi analista de Renda Fixa da Empiricus Research. Formou-se Economista no Insper.

Receba nosso conteúdo GRATUITO!