IRB: Saudades do que a gente não viveu

Hall das Presepadas

"São necessários 20 anos para construir uma reputação e apenas cinco minutos para destruí-la."

Warren Buffett





Hall das Presepadas

Nesses meus recém completados 15 anos de mercado financeiro, já vi muita coisa bizarra. Controlador passando a perna no minoritário na cara dura, gestões incompetentes e até fraudulentas.

Agora, o que aconteceu com IRB nessas últimas semanas, eu não tenho a menor dúvida que entrará para o Hall das "presepadas" da Bolsa.

A história começa no início do ano, quando a gestora Squadra divulgou uma carta questionando algumas práticas contábeis da companhia.

"Em nossa opinião, existem indícios que apontam para lucros normalizados (recorrentes) significativamente inferiores aos lucros contábeis reportados nas demonstrações financeiras da companhia"

Na altura, o IRB repudiou a carta e em nota informou que a empresa é auditada por duas consultorias e não havia nenhuma inconsistência.

As ações chegaram a cair 10 por cento quando a carta foi divulgada, mas logo veio o resultado e o management tratou de reunir os analistas de mercado para colocar panos quentes na história. Até então, IRB era uma queridinha do mercado, e muitas casas tinham recomendação de compra para ações.

No #fintwit dava para ver claramente que o mercado ficou dividido.

Quando eu e o Ricardo defendemos a postura da Squadra e elogiamos o trabalho contido na carta, fomos acusados até de estarmos querendo uma boquinha para trabalhar na gestora.

Eis que então, repentinamente, é publicada uma matéria no Estadão afirmando que o maior investidor de todos os tempos, Warren Buffett, havia triplicado sua posição na companhia.

Veja, esse tipo de informação apenas a companhia tem. Como um jornalista teve acesso a isso?

No mesmo dia, na minha conta do Twitter, cheguei a comentar o quão absurdo é divulgar uma matéria dessa sem qualquer comprovação:

Longe de mim dizer que isso veio de dentro da empresa...

Mas parece que circularam uma lista com os acionistas da empresa contendo BRK (empresa do Warren Buffett) entre eles.

Mentirinha tem perna curta, né?

Anteontem, em comunicado oficial, a Berkshire Hathaway negou a participação.

"A Berkshire Hathaway Inc. não é atualmente acionista do IRB, nunca foi uma acionista do IRB e não tem intenção de ser acionista do IRB".

O mercado não perdoou e bateu sem dó nas ações. Para piorar, casas de análises e bancos de investimentos saíram revisando os target prices para baixo. Mas o estrago já tinha sido feito.

No final do dia, CEO e CFO foram demitidos e Werner Suffert assume a companhia interinamente.

Se o mercado não perdoou, imagina a turma da zoeira.

Lições

O caso de IRB nos deixa com algumas lições:

  1. Não dá para confiar 100 por cento nos relatórios reportados pelas companhias. É preciso validar informações e analisar a fundo. Principalmente balanços, mais fáceis de serem maquiados.  Se você acha que estou sendo catastrófico, assista o filme The Big Short (A Grande Aposta).

  1. Má governança destrói valor, mesmo sendo um bom negócio.

  1. Alinhamento adequado e de longo prazo com os principais executivos é fundamental. No IRB a remuneração variável estava atrelada à performance das ações e não ao resultado da empresa.

  1. Comprar as ações de uma empresa apenas porque um grande investidor está fazendo posição é uma fria. Mesmo quando isso é verdade.

Sobre este último tópico, quero mostrar um caso real sobre como essa ideia de seguir os tubarões pode levar você a se dar mal na bolsa.

Braskem e Alaska

Luis Alves Paes De Barros, Henrique Bredda, Ney Miyamoto e equipe são responsáveis, hoje, pela gestão de  mais de 15 bilhões de reais na Alaska, distribuídos entre os mais de 200 mil cotistas.

O Bredda é um cara muito vocal nas redes sociais. Além de fazer um trabalho espetacular de educação e conscientização financeira para os investidores iniciantes (com uma paciência de Jó, diga-se de passagem), ele fala com muita transparência das posições da casa.

Ao longo do ano passado, a Alaska veio aumentando a posição em Braskem, até que no dia 26 de setembro a companhia soltou um comunicado ao mercado avisando que a Alaska havia atingido 5 por cento do total de ações PN (BRKM5).

É importante dizer que esse tipo de comunicado é obrigatório. Toda vez que um acionista atinge mais de 5 por cento em uma das classes de ações da companhia, um novo comunicado deve ser enviado. Ou seja, se Alaska chegasse a ter 30 por cento das PNs de Braskem, teria sido enviado um comunicado nos 10, nos 15, nos 20, 25 e 30.

Isso também acontece quando um acionista reduz a participação. Por exemplo, se fossem reduzindo de 30 por cento, seriam enviados nos 29, 24, 19, 14, 9 e 4 por cento.

Pois bem, a BRKM5 já tinha sido uma queridinha do mercado no passado. O Bruce mesmo já tinha ganhado uma bela grana recomendando a empresa entre 2016 a 2018.

Com a informação de que a Alaska estava posicionada, mas as ações seguiam caindo forte ao longo do ano, a sardinhada tentava prever o ponto exato de inflexão.

O comunicado do dia 26 de setembro certamente gerou um sinal positivo, com um investidor renomado reforçando sua posição na empresa.

Um mês depois, no dia 22 de outubro a empresa soltou um novo comunicado: "Alaska Investimentos diminui participação na Braskem para 4,86 por cento".

A primeira reação do mercado foi: "As ações não param de cair e a Alaska cansou, jogou a toalha".

A sardinhada que tinha comprado por conta do aumento da participação, para variar, entrou no modo pânico.

https://thumbs.gfycat.com/TemptingNarrowJaeger-mobile.mp4

Como o fator principal da tese deles era a posição da Alaska, logo, ela desmoronou com o comunicado.

Percebem como é algo muito frágil de parar de pé? Sem acesso ao gestor, como você vai realmente saber o que o motivou a reduzir a posição?

No final das contas, falando com próprio Bredda, ele confidenciou em uma live da Nord que eles haviam reduzido a posição via ações, mas aumentado via opções. Somadas, na realidade, a exposição do fundo em BRKM5 tinha aumentado.

Se ganhar dinheiro investindo em ações fosse tão fácil como copiar o que os principais gestores do mercado fazem, eu seria um dos caras mais privilegiados do Brasil para fazer isso.

Eu visito mais de 4 casas por semana, tenho acesso a todas as carteiras e digo que é praticamente impossível implementar essa estratégia.

Tão importante quanto selecionar boas empresas, uma parte fundamental do trabalho dos gestores é comprar sem que ninguém perceba. E vender sem que ninguém perceba também.

Mesmo que o turn over da carteira seja baixo, uma posição que ontem fazia sentido, pode ter virado caixa a partir de alguma informação relevante que surgiu hoje.

Operar comprando as carteiras dos gestores seria como dirigir um carro em uma estrada olhando apenas pelo retrovisor.

Você teria coragem de fazer isso?

Nem com a sua vida e nem com seu dinheiro.



Em observância ao Artigo 22 da Instrução CVM nº 598/2018, a Nord Research esclarece que oferece produtos contendo recomendações de investimento pautadas por diferentes estratégias e/ou elaborados por diferentes Analistas. Dessa forma, é possível que um mesmo valor mobiliário encontre recomendações distintas em diferentes produtos por nós oferecidos. As indicações do presente Relatório de Análise, portanto, devem ser sempre consideradas no contexto da estratégia que o norteia.


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por Renato Breia
em 05/03/2020 para Nord Insights

Possui 15 anos de experiência no mercado financeiro. Antes de fundar a Nord Research passou pela Link Corretora, Galleas Asset, Rico Corretora e foi sócio da Empiricus Research. Formou-se em economia pela PUC-SP, tem especialização em Gestão de Fortunas pela Columbia University e é Planejador Financeiro, CFP®.

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