Invista como a Dona Izabel

Provavelmente você já deve ter ouvido algumas vezes a famigerada frase: “não coloque todos os ovos na mesma cesta”.

Pessoalmente, lembro de tê-la ouvido pela primeira vez quando pequeno, em uma das vezes em que acompanhei minha avó materna em suas compras no mercado.

Dona Izabel sempre foi uma mulher cautelosa e direta, então, à época, o significado da frase foi literal: para que eu separasse as cartelas de ovos em duas sacolas, cada uma levada por um de nós de forma a evitar que todos se quebrassem em caso de algum incidente.

Passados muitos anos desde essa minha lembrança, a frase acabou também se popularizando quando o assunto é diversificação de investimentos.

Sempre recorremos a ela quando queremos destacar a importância de não colocarmos todo o nosso dinheiro em apenas um tipo de investimento – o famoso “All in”.

Isso porque, ao evitar que concentremos todo o nosso patrimônio em apenas uma tacada, a diversificação nos ajuda a reduzir a chance de obtermos perdas mais expressivas a partir de eventos inesperados.

Ou você realmente acredita que, em plena euforia nos mercados durante as primeiras semanas de 2020, alguém esperava que o mundo enfrentaria a maior pandemia global desde muito tempo?

Enfim, por isso também faço parte do clube daqueles que acreditam que somente uma boa diversificação pode proporcionar ganhos de longo prazo consistentes para o investidor. E também acredito que investir em FIIs pode contribuir (e muito) para esse objetivo.

Mas antes de explicar como os FIIs podem lhe ajudar com isso, gostaria de mencionar dois principais pontos sobre a diversificação.


Não diversifique por diversificar

#1: Montar uma carteira com vários ativos não é sinônimo de diversificação.

Tão importante quanto não colocar todo o seu dinheiro em poucos ativos, é saber distribuir muito bem os riscos que compõem a sua carteira. Somente essa distribuição evitará que você continue perigosamente concentrado em determinados riscos, mesmo após investir em vários ativos.

Acho importante mencionar essa questão, pois frequentemente me deparo com algumas afirmações do tipo: “Prefiro investir somente em FIIs, pois assim tenho um rendimento frequente sem correr o risco das ações”.

Ou ainda…

“Prefiro focar apenas em ações, pois o potencial dos ganhos de capital dos FIIs são muito inferiores”.

Particularmente, não vejo motivos para esse tipo de dicotomia.

De um lado, por mais que você tenha 15 FIIs distintos, ao investir apenas nesse tipo de ativo você estará colocando todo o risco da sua carteira na mesma cesta – se expondo demais ao setor imobiliário e aos riscos que o circunda, o que me parece contraproducente.  

Por outro, investindo apenas em ações você até poderá diversificar mais a sua exposição nos diversos segmentos da economia, mas continuará concentrado em uma classe de ativos específica, com uma dinâmica própria.

E isso me faz pensar em um segundo ponto importante que gostaria de dividir com você:

#2: A melhor forma de diversificar uma carteira não é apenas escolhendo riscos diferentes (menos correlacionados), mas também se expondo com maior vigor àqueles que possuem uma relação risco versus retorno mais favorável.

Saber escolher a melhor forma de tomar determinado risco também faz toda a diferença no longo prazo.

E é aqui que os FIIs entram em cena.

FIIs como diversificação

Por exemplo, quando buscamos exposição ao setor imobiliário, podemos fazê-la basicamente de duas formas.

A primeira seria adquirindo diretamente imóveis, enquanto a segunda seria investindo pelo mercado financeiro, seja por meio dos FIIs, ou por meio de ações de empresas imobiliárias listadas na Bolsa.

Já comentei neste espaço os motivos que tornam o investimento direto em imóveis uma tarefa inglória para o pequeno investidor. Assim, focaremos apenas em investimentos no setor via mercado financeiro.

Qual parece ter sido o melhor risco versus retorno ao alocar o risco de uma carteira no setor imobiliário nos últimos anos? Investindo em ações de empresas imobiliárias ou em FIIs?

Bom, eu tenho um palpite...


IFIX versus IMOB

Para responder à pergunta, comparei o desempenho do índice composto pelos principais FIIs negociados no mercado, o IFIX, com o retorno do índice das ações de empresas do setor imobiliário listadas na Bolsa, o IMOB (Índice Imobiliário).


Como ambos são índices de retorno total  refletem não apenas a variação dos ativos que os compõem, como também a distribuição de proventos  esta é uma boa comparação.


Abaixo, temos a evolução entre os dois índices ao longos dos últimos nove anos.



Fonte: Bloomberg e Nord Research.



Pelo gráfico, vemos que o investidor que perseguiu a composição do IFIX desde a sua criação obteve uma valorização de 173 por cento em seus investimentos, enquanto aquele que seguiu a composição do IMOB ficou praticamente no zero a zero no mesmo período. Perdendo até mesmo da inflação.


Mas não para por aí...


Comparar retornos absolutos não nos diz muita coisa, concorda? Afinal, é de se esperar retornos mais elevados de ativos de maior risco, e vice-versa.


Por este motivo, é importante que tenhamos uma ideia dos riscos que cada um dos índices correram ao longo do percurso para alcançar aqueles resultados.


Uma forma de olharmos para isso seria calculando a volatilidade histórica das cotações de cada um dos índices. Quanto maior a volatilidade, maior o “risco” incorrido para dado retorno.


Concordo com o Bruce quando ele diz que a volatilidade não é exatamente o risco de um ativo. Para mim, risco é você pagar caro por um FII monoativo e mono inquilino próximo do final do contrato de locação em uma região nada óbvia.


De qualquer forma, por falta de melhores métricas que sejam comparáveis, e correndo o risco do Bruce ler as próximas linhas, vamos com a boa e velha volatilidade histórica dos dois índices:


Fonte: Bloomberg e Nord Research.



Ou seja, o IFIX entregou um retorno muito superior ao IMOB adicionando muito menos volatilidade à carteira do investidor ao longo dos últimos nove anos.


Nada mau, não é mesmo? Este é um bom exemplo histórico de como podemos nos beneficiar ao alocarmos parte do risco da nossa carteira em outra classe de ativo.


É claro que aqui cabem algumas observações.


A primeira é de que, pela composição do IMOB, vemos que o índice esteve mais exposto às incorporadoras imobiliárias no período  empresas que sofreram um verdadeiro inferno astral principalmente nos anos da crise.


Enquanto isso, o IFIX esteve mais exposto a outros segmentos imobiliários menos afetados pela crise, como o de recebíveis imobiliários, por exemplo, que surfaram muito bem a onda dos juros e inflação elevados naquele momento.


Além disso, o desempenho desses índices é agregado, logo, algumas ações imobiliárias ou FIIs específicos podem ter tido performances muito melhores ou piores no período.


Conclusão

De qualquer forma, fato é que: no agregado e desde a sua criação, o IFIX bateu o IMOB, assim como o fez com o IBOV, CDI e outros indicadores.


Essa tendência continuará nos próximos anos? Não sei. Ninguém sabe.


Mas com os juros da renda fixa em patamares baixos e perspectivas de melhora na economia, me parece que este continua sendo um bom momento para alocar uma fração do risco da sua carteira na classe de ativos que vem entregando, de maneira consistente, um belo risco versus retorno nos últimos anos: os Fundos Imobiliários.



Um abraço e até a próxima,


Compartilhar este artigo
Receba nosso conteúdo GRATUITO!