Ignore os dois irmãos

Os Irmãos Corajoso e Medroso

Certa vez, enquanto o pai tirava aquele cochilo pós-almoço, os irmãos gêmeos resolveram pegar o carro dele escondido.


Sem fazer muito barulho, pegaram a chave que estava no criado mudo e saíram de fininho pela porta dos fundos.


Entraram felizes no carro, até porque conseguiram deixar a casa sem levantar suspeitas. Ao sentarem no banco da frente, ambos perceberam que mal alcançavam os pedais.


O primeiro irmão, destemido e aventureiro, não se incomodou com isso, dando a partida e pisando fundo no acelerador. O segundo, medroso até o último fio de cabelo, apertou o freio desesperadamente.


E, assim eles foram, se mexendo dentro do carro sem qualquer sincronia. Uma hora o corajoso consegue impulso, elevando o velocímetro ao máximo. No momento seguinte, o cauteloso assume o controle e age na direção contrária.


Os irmãos não conseguem entrar em um consenso. Não sabem se vão para frente ou se param onde estão. Não criam uma convicção única para decidir que rumo o carro deve tomar.



O vizinho que está do outro lado da rua varrendo sua calçada naquela bela tarde de sábado, observa aquilo tudo sem entender nada.


Com a disputa de força entre os irmãos, o que era para ser um passeio agradável e tranquilo se transforma em um caos. O carro não para de chacoalhar, fruto dos alternados apertos no acelerador e do freio, quase ao mesmo tempo.


Para a vizinhança, que observa atônita todo aquele show, o carro está altamente volátil.


Passado certo tempo, o pai acorda escutando todo aquele barulho. Ele olha pela janela da sala e avista os filhos no carro.


Enfurecido ele imediatamente saí na rua e acaba com a farra dos meninos.


O mercado e os irmãos


Pode até ser uma obra de ficção, mas nem por isso deixa de ter um fundo de verdade.


Na realidade, ela é mais verdadeira do que você imagina. Se pensar bem, o mercado é formado por uma mistura entre os irmãos.


Há certos momentos, como no ínicio do ano, onde a euforia domina, com o irmão aventureiro e destemido levando vantagem. No instante seguinte, o protagonismo fica por conta do gêmeo cauteloso.


É o que vemos no mercado. Um dia a bolsa sobe 4 por cento, para, na tarde seguinte, fechar o pregão caindo mais de 3 por cento.


E assim a bolsa vai caminhando, com cada irmão tomando controle da direção a cada novo momento. Hoje, quando olho o mercado, parece que nenhum deles conseguiu ainda assumir o controle em definitivo.


Enquanto isso, nós, assim como o vizinho, ficamos sem entender nada. Tudo que vemos é uma alta volatilidade.



                                [Fonte: Bloomberg e Nord Research]


A minha leitura é a de que o mercado está sem convicção em qual caminho seguir.


Hora está em êxtase, com os trilhões de dólares que os Bancos Centrais estão injetando nas economias, hora preocupado com os resultados das empresas no 2° trimestre.


Em outra hora está eufórico, com os dados econômicos bem melhores do que o esperado. Em outro momento está apavorado com o aumento de casos nos Estados Unidos e o risco de uma segunda onda jogar todos nós novamente para o lockdown.


Um alimenta o irmão corajoso e o outro o medroso, sem que haja um consenso entre ambos sobre qual direção tomar.


A impressão é a de que ninguém quer perder a festa, mas estão todos curtindo a música coladinho na saída de emergência. Ao menor sinal de fumaça, é preferível estar pronto para sair do jogo o mais rápido possível.


Logo, tudo que resta é a volatilidade nos mantendo parados entre os 95 e os 100 mil pontos.


Enquanto isso, o vizinho que varre a calçada e o irmão racional — os gêmeos tem um irmão mais velho, o mais racional —, apenas observam tudo, mas sem entender muito bem o que está acontecendo.


O irmão racional


O irmão racional, ao ver os outros dois brigando, fica apenas observando de longe. Ele deixa os dois mais novos ditarem a direção, ficando no banco de trás sem muito se preocupar.


Ele já é maduro o suficiente para saber que essa volatilidade causada por seus parceiros não leva a lugar nenhum.


Observa bem o mercado, mantendo-se fiel à sua estratégia original. Sabe montar uma bela carteira de investimentos, mantendo um equilíbrio saudável entre as classes de ativo.


Além disso, não se deixa enganar pela euforia causada pela alta dos mercados. Quer encher a carteira de bolsa quando ela cai para os 60 mil pontos, bem como começar a reduzir a posição quando a mesma se aproxima dos 100 mil pontos em meio ao “oba-oba”.


O racional não se permite levar pela ação “queridinha” do momento nas redes sociais. Ele estuda, diversifica o portfólio e monta uma coleção de ativos que possui uma boa assimetria de risco versus retorno.


Também não se apaixona pelas posições da sua carteira. É capaz de comprar Via Varejo a 4 reais e desapegar aos 15, mesmo sabendo que seu irmão aventureiro está na torcida pelos 20 reais.


O irmão racional sabe da importância de colocar no bolso uns 200 por cento de ganho, em vez de torcer para tentar ganhar mais uns 25 por cento caso tudo continue dando certo.


Basta ser racional


Não seja nenhum dos irmãos irracionais.


O irmão aventureiro vai arriscar todo o ganho obtido em um ação por alguns trocados a mais.


Também não seja o irmão medo. Ele nunca teria comprado ações no melhor momento. Pois acha “arriscado demais” entrar enquanto todos os outros estão em pânico.


Para ganhar dinheiro na bolsa, você não precisa acertar quando é a hora de cada um deles tomar o controle.


Tudo o que você precisa é ser o irmão racional, capaz de construir um portfólio balanceado, composto por apostas que tenham boas assimetrias.


Seja frio e não queira ser herói. O mercado não lhe premia por isso. Avalie sua carteira diariamente, livrando-se dos ativos que já estão com uma margem de segurança bastante reduzida.


Tenha disciplina e foco no prazo. Isso é o suficiente para você ter sucesso nos seus investimentos.


Agindo assim, a volatilidade passa a ser apenas números piscando na tela do computador.


Deixe os outros irmãos brigando, enquanto você enriquece ao longo do tempo.


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por Luiz Felippo
em 12/07/2020 para Nord Insights

Iniciou sua carreira num projeto de renda fixa do Insper com o BTG Pactual. Posteriormente atuou na área de pesquisa econômica internacional do Itaú Asset Management e foi analista de Renda Fixa da Empiricus Research. Formou-se Economista no Insper.

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