Há pouca convicção entre os tubarões

Check, check, check

Fim de trimestre é sempre uma loucura pra mim, como analista da série Nord Fundos.


Por mais que estejamos em constante contato com os gestores, é neste momento que marcamos conversas mais longas com cada um deles.


Investimos horas e horas nessas análises, buscando um simples objetivo: compreender se houve mudanças relevantes de fundamento.


Isso pode ser desde uma mudança na equipe, até erros em processo de gestão. Seja o que for, tudo é precisamente avaliado.


Com toda a discussão catalogada, sentamos eu e o Renato para discutirmos algum caso específico que mereça mais da nossa atenção.


Sem dúvidas, essa é a parte mais importante. Ao longo dos anos, é aqui onde o jogo é ganho.


Entretanto, aproveitando que estamos falando com grandes gestores do mercado, tiramos uma “palinha” sobre onde estão se posicionando neste mundo pós-coronavírus.


Então, seguindo na mesma trilha da semana passada, vou compartilhar três teses que estão permeando a cabeça deles.


A história não se repete, mas rima


Em momentos de saída de crise, muitas pessoas gastam tempo buscando entender qual setor e empresa terão vantagem nesse processo.


Eu concordo que, em meio a tantas incertezas em relação a uma potencial segunda onda e os estragos que a quarentena tem provocado nas companhias, esse tipo de questionamento seja natural.


No entanto, fazer essa avaliação é sempre um tanto quanto complicada.


Mesmo que fosse possível identificar um segmento vencedor, cada empresa daquele grupo possui uma dinâmica própria  o que dificulta ainda mais a situação.


Ainda assim, conversando com muitos gestores, descobrimos que existe, sim, um setor que saíra vencedor: “o das empresas boas”.


Sim, você leu certo e não adianta correr para procurar este grupo na internet. Mas, para lhe ajudar, vou explicar melhor essa história.


Em períodos de crise, as melhores empresas de cada setor sempre vencem. Vimos bastante isso no triênio 2014, 2015 e 2016 e isso deve se repetir hoje.


Enquanto algumas companhias sofriam os efeitos devastadores da crise econômica e lutavam para se manter de pé, as líderes possuíam vantagens competitivas e sólidas, ótimos managements e balanços fortes.


E, aqui, a competição ficou desleal. No fim do dia, seria como observar as pequenas companhias se tornando presas fáceis de um caçador forte, sedento e talentoso.



A Renner é o caso clássico desse processo. A companhia sempre foi elogiada pela ótima gestão, um bom modelo de negócio e claras vantagens competitivas.


Quatro anos depois, voltamos a passar por isso. É impressionante como a história não se repete, mas sempre rima.



Surpreendidos novamente


No começo do trimestre passado, ao conversar com os gestores de multimercado, o que mais se via eram previsões catastróficas sobre o PIB deste ano.


Eram números bem cabeludos, com estimativas de queda da nossa atividade econômica variando entre -7 e -10 por cento.


Em um cenário desse, o aspecto mais comentado nas rodas de mercado era como as pequenas, médias e até algumas grandes companhias poderiam ficar pelo caminho.


Era o rufar dos tambores do apocalipse. A retomada econômica seria muito lenta. Os otimistas apelidavam de crescimento “nike” e os pessimistas de “L”.


Passado três meses, vemos uma avaliação bem diferente.


Com diversos dados econômicos surpreendendo positivamente o mercado, já vemos algumas gestoras migrando para números de PIB mais amenos  algo entre -3 e -5,5 por cento.


Claro que o mesmo vale para a economia global. As duas principais economias do mundo, China e Estados Unidos, vêm surpreendendo bastante nessa retomada.


Será que hoje o risco é de uma recuperação em “V”?


Isso nos leva ao terceiro ponto.



Fechando a torneira


Desde 2016, o trade clássico dos multimercados foi apostar que o mercado (e o próprio BC) estariam subestimando quanto a Selic poderia cair.


No começo deste processo, quando ainda estávamos com juros básicos de 14,25 por cento, cogitar uma taxa terminal de 9 por cento era heresia  basta perguntar para a Marília, ela vai confirmar.


Dos nove por cento passamos para os 6,5 e, com o advento da pandemia, chegamos aos atuais 2,25 por cento.


Há quem diga que vá a zero, mas para a maioria dos gestores essa farra parece estar chegando ao seu fim.


Hoje a discussão é se teremos mais 0,25 ou 0,50 p.p adicionais. As vozes de quem conversa com a diretoria do BC em Brasília diz que eles não estão com uma propensão a ir muito mais longe nos cortes.


Sendo assim, com o mercado já precificando uma Selic de 2 por cento e o risco de uma recuperação ainda mais acentuada da atividade, muitos gestores já não estão mais nesse jogo.


Os que preferem ficar, o fazem com um tamanho de posição bem pequeno e sempre perto da porta.

Nunca é tarde demais


Muitas destas teses conversam bastante com as nossa visão aqui na Nord.


Acreditamos, sim, que as melhores empresas, com ótimos modelos de negócio e belas vantagens competitivas vão sair mais fortes dessa crise. Mas, ao mesmo tempo, você não pode pagar qualquer preço para ser sócio delas.


O momento é desafiador e precisamos estar atentos aos movimentos do mercado. O sentimento, que fiquei nas conversas com os gestores, é de muitas incertezas.


Seja como for, não deixe de preparar a sua carteira para esse mundo pós-covid.


Afinal, nunca é tarde demais.


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por Luiz Felippo
em 05/07/2020 para Nord Insights

Iniciou sua carreira num projeto de renda fixa do Insper com o BTG Pactual. Posteriormente atuou na área de pesquisa econômica internacional do Itaú Asset Management e foi analista de Renda Fixa da Empiricus Research. Formou-se Economista no Insper.

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