Guararapes voltou à moda?

Um labirinto financeiro

Guararapes (GUAR3) é a controladora das Lojas Riachuelo.

Guararapes é uma "empresinha" familiar tentando se transformar em empresa de classe mundial. Mas, como era de se esperar, vem tendo seus problemas.

Mas os maiores problemas de GUAR, como acontece muito com as pequenas empresas, é de comunicação com o mercado.

Os números da companhia são abarrotados de não recorrentes. Analisar seu balanço se assemelha a caminhar em um labirinto à procura de pistas.

Além disso, a companhia se esconde quando os resultados não vem.


Comprando barato

É quase uma regra. Acontece comigo e com o Ragazi recorrentemente.

Sempre que o pessoal de relações com investidores nos procura é porque as ações estão bem precificadas (caras).

Subiram, subiram e, agora, querem vir me mostrar o quanto as ações são maravilhosas.

Claro, eles acham que estão baratas (ou querem nos convencer de que estão baratas).

Mas é impressionante o quanto a própria empresa coloca sua confiança nos preços das ações.

Ninguém entende que eu só quero que me liguem quando as ações despencam.

Ninguém entende o conceito de comprar barato.

Ninguém entende o Value Investing.


O passado de Guararapes

Para quem não acompanha, o passado de Guararapes é o passado do varejo.

Uma maravilha até 2014 – quando as empresas se achavam geniais (assim como todo mundo se acha, hoje, no bull market).

Investiram no que não sabiam fazer, tentaram elevar demais os preços de seus produtos, perderam a mão com as coleções (mesmo assim vendiam),...

O varejo, no boom, permitiu que as companhias errassem continuamente sem pagar pelos seus pecados.

E veio a crise.

A crise pegou estas empresas em cheio, e fica claro no gráfico abaixo:

Ebitda (12m, azul) e lucros (12m, verde). Fonte: Bloomberg.

Retiramos 2019 do gráfico para tirar os não-recorrentes. No acumulado até o 2T19, o Ebitda deveria estar em, aproximadamente, 1,2 bilhão de reais e os lucros em uns 500 milhões (como vemos no gráfico).

Com a crise, entre 2014 e 2016, o Ebitda e lucros de GUAR (e do varejo) caíram pela metade.

Mas, o interessante, é que estas companhias começaram a se mexer.

Não todas, não da mesma forma e não com a mesma eficácia. Mas os resultados começaram a melhorar – mesmo sem a ajuda do PIB.


O mercado e suas expectativas

Mas, se vemos melhora paulatina no Ebitda e lucro de GUAR, o mesmo não se reflete nas ações e nas expectativas do mercado.

GUAR conseguiu sair da lona e aproveitou uma economia surpreendendo para cima em 2017.

E as ações responderam. Em 2017, subiram +500 por cento.

GUAR3 (branco) e IBOV (verde). Fonte: Bloomberg.

Mas, no meio do caminho tinha uma pedra. Em 2018, tivemos uma enorme decepção com a economia.

E as ações de GUAR seguiram a gangorra das eleições – caíram -50 por cento e subiram tudo de novo para fechar o ano no 0x0.

Enquanto vimos os números melhorando, tri a tri, vimos as ações balançando muito mais do que deveriam.


A coleção 2019 de Riachuelo

O que nos traz a 2019 e aos resultados mais recentes da companhia.

As regras contábeis mudaram e vem ajudando bem na contabilização dos resultados da varejista.

Mas, no 1T19, GUAR conseguiu errar, completamente, sua gestão de produtos. Vendeu menos, com margens menores, e ficou com estoques "encalhados".

Alguém não leu o manual de instruções. Guararapes investiu milhões para fazer um novo centro de distribuição estado-da-arte e ainda tem problema de quebra de coleção e estoque.

Estoque encalhado, no varejo, significa liquidação e margens menores no futuro próximo.

E cá estamos, Guararapes divulgou, ontem seus resultados para o 2T19.


O 2T19 de GUAR

Como sempre, 2T19 veio cheio de não-recorrentes.

Como todas as empresas serão beneficiadas pelas novas regras contábeis, vamos ignorar seus efeitos (GUAR ganha e todas as outras também ganham).

Receita líquida +4 por cento, Ebitda +4 por cento (-23 por cento excluindo o efeito da nova regra) e lucro -38 por cento.

Difícil dizer, mas parecem resultados um pouco abaixo do esperado pelo mercado.

Apesar de uma queda nas vendas mesmas lojas (SSS ou same store sales), a companhia mostrou melhora no tempo, como vemos abaixo:

Fonte: Guararapes

Como esperávamos, GUAR precisou liquidar estoques – o que impactou sua margem bruta. O ponto positivo é que a companhia resolveu seu problema de sobre-estocagem.

Mas o ponto mais interessante foi a redução dos custos operacionais da companhia, queda de -7 por cento por loja.


O futuro da Riachuelo

Com todos os seus problemas, não foi um trimestre ruim. Confesso que estava prendendo a respiração após o resultado ruim do 1T19 de Guararapes.

O curto prazo é bastante poluído – os tropeções nos confundem, mas vemos a companhia ajustando sua operação e entregando melhorias de resultados com o passar dos trimestres.

Como vimos, sozinha, ela não engrena.

Guararapes precisa de uma ajudinha da economia para, finalmente, deslanchar.

E, após 3 anos de decepção, estamos na boca do gol. #SuperGuedes está focado em acelerar nossa economia e permitir que o varejo decole.

Ajustando os números, Guararapes negocia a aproximadamente 9x Ebitda e 19x lucros – ambos impactados por resultados bem fracos nos últimos trimestres.

Mas, assim que a economia escapar do atoleiro, as lojas de Guararapes voltarão a se rechear de lindas senhoras buscando a última moda.

Guararapes estará na última moda com o retorno de uma economia saudável.

Guararapes fará a moda do Investidor de Valor.

Em observância à ICVM 598, declaro que as recomendações constantes no presente relatório de análise refletem única e exclusivamente minhas opiniões pessoais e foram elaboradas de forma independente e autônoma.

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por Bruce Barbosa
em 07/08/2019 para Nord Insights

Possui 16 anos de experiência no mercado financeiro. Antes de fundar a Nord Research passou pelo BNP Paribas, HSBC e Empiricus Research. Formado em Engenharia de Produção pela USP e possui um MBA pela New York University.

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