Fique longe da NORD

Risco iminente de falência

Tudo começou...

Saudações.


Tudo começou com um simpático Tweet da Helô Cruz parabenizando à Nord:



NORD3 era a maior alta da Bolsa naquele dia.


Evidente que se trata de uma brincadeira: NORD3 não tem absolutamente nada a ver com a Nord Research.


Mas o fato é que, na última semana, as tais Ações NORD3 saltaram 190 por cento.



Ai meu Deus do céu…


Pois bem. Quem me conhece de outros carnavais já sabe que eu tenho uma curiosidade um tanto mórbida com relação a empresas esquecidas pelo tempo.


Cada um com sua diversão: eu acho ler os arquivamentos das empresas na CVM divertido pra caramba.


O Luiz, por exemplo, sempre vem falar comigo quando dá de cara com uma empresa da qual nunca havia ouvido falar antes. Na maior parte das vezes, é algo no que eu já tropecei em algum momento de minha caminhada como Analista.


Hora, então, de colocar a curiosidade mórbida para trabalhar.


Filme de terror


NORD3 é o ticker das Ações da Nordon Indústrias Metalúrgicas, uma empresa sediada em Santo André/SP.


Uma pesquisa relativamente rápida ensina que a Nordon tem como atividade operacional  preponderante a produção de bens de capital destinados ao mercado interno e externo para os setores químico, petrolífero, petroquímico, criogenia, alimentício e de bebidas…


...e que as atividades operacionais da Empresa estãoparalisadas desde 2000 em função da inexistência de novos contratos.


Dezenove anos — sim, eu disse dezenove — de atividades paralisadas.


Vou adiante. Jogo o endereço da Companhia no Google Maps e me deparo com isto daqui:



Ou meus olhos estão me enganando, ou isto é um prédio abandonado.


Cento e noventa por cento de alta!


Lembrou-me, aliás, as locações da excelente série Chernobyl.


Também daria um belo filme de terror.


Algo de errado não está certo


Mas vamos adiante: lá fui eu abrir o balanço e as notas explicativas.


Quem dera o terror se resumisse à fábrica abandonada.


O que aprendi?


  • A Nordon tem 23 mil reais em caixa, mais 580 mil em contas a receber — nem Deus sabe quando;
  • A Companhia tem 8 milhões em depósitos judiciais. Parte deles de ações que contestam valores pagos a maior, parte (7 milhões) créditos tributários já reconhecidos cuja compensação depende da geração de novos débitos;
  • O terreno da simpática fábrica está registrado por 7,2 milhões. Provavelmente vale mais do que isso, mas segue o baile.

Total do ativo: 16 milhões


Do outro lado:


  • Aproximadamente 90 milhões em obrigações fiscais, dos quais cerca de 30 milhões referentes a IPTU atrasado junto ao Município de Santo André — certamente referentes à supracitada fábrica;
  • Cerca de 37 milhões em empréstimos e financiamentos — basicamente debêntures emitidas pela Companhia e vencidas em 2003 (sim, há 16 anos)
  • Outros cacarecos e algumas provisões. No total, um pouco mais de 155 milhões a pagar.

Em função dos prejuízos acumulados, o Patrimônio Líquido virou passivo a descoberto, de aproximadamente 140 milhões.


Considerando o fechamento de 25/07, no qual NORD3 era cotada a 3,30, o valor de mercado da Companhia beirava 22 milhões de reais.


16 milhões de ativos... 155 milhões de passivos… valendo 22 milhões na Bolsa?


Das duas uma: ou descobriram uma mina de ouro no terreno da fábrica, ou o preço de tela está errado.


Muito errado.



O risco é real e iminente


Vou além: chamou-me bastante a atenção o tamanho da dívida de IPTU. Não precisei pesquisar muito para descobrir que o processo movido pelo Município de Santo André segue de vento em popa.


Ou seja: é questão de tempo até que o terreno — quiçá o último ativo tangível da Companhia que vale alguma coisa — mude de mãos em razão das dívidas não pagas.


A rigor, surpreende-me que os credores não tenham, ainda, requerido a falência da Nordon.


Surpreende-me que as Ações da Companhia ainda sejam negociadas — vale pontuar que, no passado, os títulos já tiveram as negociações suspensas.


Em suma: salvo melhor juízo — nunca se deve descartar por completo a possibilidade de existir algo que simplesmente não aparece no balanço —, a empresa vale zero e já deveria ter tido sua falência decretada.


Se você está comprando NORD3, empolgado(a) com o movimento dos últimos dias, saiba que muito provavelmente está comprando nada. É um número na tela do seu homebroker que não guarda nenhuma — eu disse NENHUMA — relação com a realidade.


Velha história


Lá fui eu tentar descobrir a origem do buzz.


Evidentemente não precisei procurar muito para encontrar o de sempre: comentários anônimos em fóruns jurando de pé junto que a Empresa vai se reerguer, que algo bombástico vem por aí e que a Ação vai para um valor astronômico.


Nada que já não tenhamos visto no mercado brasileiro muitas e muitas vezes.


De tempos em tempos, principalmente em meio ao bull market, participantes mal-intencionados resgatam do cemitério alguma Ação esquecida, de liquidez ínfima, se posicionam no papel e saem propagando boatos.


Como a liquidez é baixa, qualquer movimentação produz uma valorização expressiva. Isso chama a atenção de outros. O movimento, combinado com a disseminação de informações sem fundamento, realimenta o ciclo.


Eventualmente o sujeito sai fora e deixa todos os demais incautos com pó na mão.


Já vi esse filme antes. Muitas vezes. E o final é sempre ruim.


Fuja de NORD3. Fuja como se não houvesse amanhã.


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por Ricardo Schweitzer
em 26/07/2019 para Nord Insights

Possui 13 anos de experiência no mercado financeiro. Antes de fundar a Nord Research passou Adviser Asset, Fundação CEEE, Sicredi Asset, Votorantim Corretora e Empiricus Research. Formou-se economista pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

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