Esteja preparado para hoje

09/03 deve ser batismo de fogo para muitos investidores

Batismo de fogo

Na esteira de forte queda nos preços do petróleo (explicada mais adiante), Bolsas mundiais têm dia de perdas cuja dimensão há muito tempo não se via. Madrugada foi de fortes quedas na Ásia, repercutindo não somente a forte queda do petróleo (detalhes adiante), mas também indicadores econômicos ruins de China (exportações, que caíram 17,2 por cento no primeiro bimestre) e Japão (revisão do PIB do 4T19, revelando contração ainda maior).


O movimento se estende de forma mais aguda para os mercados europeus, de onde já chegam notícias de circuit breakers. O noticiário se sobrepõe, inclusive, a dados positivos de atividade econômica na região.


Do lado de cá do Atlântico, futuros apontam para quedas expressivas em NY — movimento que devemos ver do lado de cá ampliado.


Boas chances de circuit breaker na B3 hoje. Estejam preparados: hoje a maioria de vocês terá seu batismo de fogo e descobrirá, na prática, quanto de volatilidade realmente consegue aguentar.


Traindo o cartel


Como você já deve saber, a essa altura, a maior parte da produção de petróleo do planeta está nas mãos de um cartel que atende pelo nome de OPEP.


Um cartel é a antítese dos mercados competitivos: diversos ofertantes de uma mercadoria se aliam para, de forma coordenada, regular a sua oferta em nível que se traduza em preço que lhes seja satisfatório.


O grande problema de um cartel é que, volta e meia, faz todo sentido do mundo para um ou mais de seus participantes darem as costas aos demais e fazerem as coisas do seu jeito.


Foi o que ocorreu neste final de semana: após tratativas malsucedidas na OPEP, na última sexta-feira, para redução da oferta global de petróleo (e consequente tentativa de reequilíbrio de preços, que recuam desde o começo deste ano), a Arábia Saudita decidiu reduzir preços unilateralmente em 20 por cento e passou a sinalizar a intenção de expandir sua própria oferta.


Mudaram, assim, as regras do jogo: desfeito o equilíbrio artificialmente imposto pelo cartel, o risco percebido é de novas rodadas por outros países produtores, deflagrando uma guerra de preços com base nas efetivas estruturas de mercado — custo e volume —, que jogam cotações da commodity para ainda mais baixo.


Efeitos não se limitam às empresas produtoras de petróleo, mas ao próprio orçamento de Países cuja dependência das receitas do óleo negro é relevante. Daí, portanto, o mau humor do dia.


Os motivos (e os reais motivos)


A leitura mais conservadora dos fatos transmite a ideia de que, diante da desaceleração da demanda neste início de ano — um mix de economias mais fracas e, mais recentemente, acometidas dos reflexos de primeira e segunda ordem do Covid-19 —, a intenção saudita seria simplesmente melhorar a própria situação no curto prazo: com petróleo abundante, mexer em preço e volume é praticamente fazer política econômica.


As reais intenções, contudo, podem ser outras: diante da oferta crescente dos últimos anos, o movimento pode ter a real finalidade de limpar o mercado, removendo produtores menos competitivos e permitindo, assim, que mais à frente preços sejam estabelecidos em patamares melhores que o atual.


Movimento dessa natureza já se viu no passado, tendo o mais recente ocorrido a partir de 2014: com o boom do shale gas nos Estados Unidos, os tradicionais donos do petróleo abriram torneiras na tentativa de preservar margens via expulsão de capacidades produtivas mais caras. A investida durou até 2016, quando um acordo firmado com a Rússia — também produtora relevante, cuja situação fiscal era/é altamente dependente da commodity — os levou de volta ao jogo habitual.



Não confunda sinal e ruído


No curto prazo, a situação coloca o mercado 100 por cento no modo de aversão a risco: incertos diante das possíveis reações dos demais países produtores, investidores jogam preços das commodities para baixo e provocam um enorme efeito-cascata nas demais classes de ativos: Ações, Renda Fixa, Câmbio e inclusive Ouro, destino preferencial quando a cobra fuma.


O grande desafio, nesta situação, é separar sinal de ruído: as Ações vão cair, mas esta queda resulta de dois fatores. De um lado, o mercado tentando mensurar os efetivos impactos que novos preços de petróleo terão sobre cada atividade — que, evidentemente, variam muito de setor para setor e empresa para empresa —; de outro, a exigência de maiores descontos diante do desconhecido: a percepção de que o futuro incerto traga consigo novos fatos com potencial de agravar ainda mais a situação.


Infelizmente (ou felizmente, a depender do seu estado de espírito) as cotações não decompõem suas variações nessas duas componentes — para os pessimistas, isto é razão para desespero; para os otimistas, oportunidades decorrentes das distorções que inevitavelmente aparecem.


O que fazer?


Não gosto de usar expressões do tipo “serei franco”, pois transmitem a ideia de que noutras ocasiões não o sou. Mas há momentos em que a ênfase honesta se faz pertinente.


Então serei franco: hoje é um dia do qual não esqueceremos — principalmente aqueles que nunca passaram por algo assim. São muitos.


Hoje é dia de convicções sendo testadas: quem tem Ações sem saber o porquê; quem tem Ações porque embarcou no oba-oba dos últimos tempos; quem tem Ações porque o William Bonner contou que a Bolsa estava em alta… esses, sinceramente, não têm a menor chance.


Não é de graça que sempre insistimos em comprar com boas margens de segurança; que é importante entender as teses de investimento às quais se está exposto; que valor e preço são coisas desconectadas no curto prazo — e que essa desconexão se torna ainda maior em momentos de elevada turbulência, como claramente temos em tela nesses dias.


A mensagem é simples: se você não aguenta, você não deveria estar no jogo.


Por outro lado…


Meu maior arrependimento foi não ter aproveitado 2008 e 2009 para comprar mais — muito mais.


Meu segundo arrependimento foi não ter aproveitado 2015 e 2016 para comprar mais —- muito mais.


Quando você adquire a capacidade de enxergar que, para além das convulsões do curto prazo, o mundo não acaba e o desespero dos vendedores se traduz em oportunidades de ouro a preços de oportunidade, a mentalidade diante de episódios assim muda. Radicalmente.


O que farei do lado de cá? Procurarei oportunidades, pois elas certamente surgirão aos montes.


Você tem caixa? Prepare-o para ser usado. É o que eu estou fazendo.


Você não tem caixa? Se você sabe o que comprou e por que comprou, meu melhor conselho é não faça nada. Resista à histeria coletiva que sugerirá que o apocalipse chegou e é preciso vender tudo e correr para as montanhas. Já passamos por coisa pior e chegamos até aqui. Esforce-se para permanecer tão tranquilo quanto possível.


Não será tarefa fácil: dói para iniciados e dói para iniciantes. O que muda é a tolerância à dor, e a minha é hoje muitíssimo maior do que era em 2008.


E conte conosco, como sempre.


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por Ricardo Schweitzer
em 09/03/2020 para Nord Insights

Possui 14 anos de experiência no mercado financeiro. Antes de fundar a Nord Research passou pela Adviser Asset, Fundação CEEE, Sicredi Asset, Votorantim Corretora e Empiricus Research. Formou-se em economia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

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