Certo pelo motivo errado ou errado pelo motivo certo?

No bull market, os gênios do mercado se multiplicam com os acertos.

Combatendo vieses

Neste espaço, há uma semana, compartilhei com você minha história de fracasso.

Mais do que compartilhar erros específicos cometidos em meus investimentos, meu objetivo foi compartilhar o que aprendi com eles.

O mercado financeiro sofre um gravíssimo problema de memória. E tem uma dificuldade enorme em reconhecer seus erros.

Desastres financeiros são rapidamente esquecidos e, em poucos anos, erros muito similares – travestidos de descobertas extremamente inovativas – costumam se repetir.

No mercado financeiro, a história sempre se repete.


Não aprendemos nada no longo prazo

Jeremy Grantham, co-fundador e estrategista da GMO - icônica gestora britânica, quando indagado sobre o que aprendemos com períodos turbulentos, respondeu:

“Vamos aprender muito no curto prazo, um pouco no médio prazo e nada no longo prazo. Este é o precedente histórico”

Para aprender com um erro é necessário reconhecer o erro.

Pode parecer óbvio, mas para chegarmos a tal nível evolutivo, precisamos superar dois vieses humanos: da autoatribuição e o retrospectivo.


Eu ganho e eles perdem

O viés da autoatribuição se refere ao hábito de atribuir resultados positivos a nossa habilidade como investidor, enquanto a culpa dos resultados negativos é atribuída a outras pessoas ou fatores externos.

Um estudo sobre o esporte, feito por Lau e Russel, mostrou que jogadores e técnicos atribuem uma vitória a fatores internos (algo relacionado a habilidade do time) em mais de 80 por cento das vezes.

Entretanto, ao justificar uma derrota, fatores externos (como um juiz ruim) são utilizados em quase metade das vezes.

No mundo dos investimentos não é, nem um pouco, diferente.


O quadro da verdade

É muito mais fácil, para um investidor, culpar o azar por um investimento ruim.

Culpa dos gringos, culpa do governo, culpa do fluxo, culpa da gestão...

Mas, na grande maioria das vezes, erro de análise (ou a falta dela) será a melhor explicação para o investimento ruim.

George Soros, em seu livro "A Alquimia das Finanças", recomenda aos investidores a utilização de um “Diário de Investimentos” – um diário contendo o raciocínio que justifica cada investimento.

Um relatório de investimentos pessoal. Seu próprio relatório de research. Algo parecido ao que fazemos aqui na NORD.

James Montier, responsável pela alocação de ativos na GMO, dá um passo além. Sugere a utilização do que apelidei de “Quadro da Verdade”:

Após realizar o investimento, pare e pense. O resultado estava previsto, ou derivou diretamente de uma análise correta? (Habilidade).

Ou o resultado veio por motivos completamente aleatórios à análise? (Sorte).


Todo goleiro (investidor) precisa de sorte

Com seu diário, o mapa de decisões e razões acima e uma dose de sinceridade, você conseguirá identificar o que realmente aconteceu com seus investimentos.

Caso tenha feito uma análise correta e obteve um resultado positivo (Quadrante 1): parabéns, você pode reivindicar alguma habilidade, ainda que o fator sorte possa ter contribuído.

Tomar uma decisão correta por uma razão espúria (Quadrante 2), ainda contribui positivamente com o desempenho do seu portfólio. Mas não se engane ao acreditar que sabia o que estava fazendo.

Simplesmente aceite que, ao fazer a análise correta e, mesmo assim, obter um resultado negativo (Quadrante 3), faz parte do jogo. O mercado não é eficiente e nem sempre vai incorporar corretamente os fundamentos ao preço. Paciência.

Por fim, se obteve um resultado ruim por conta de uma análise equivocada (Quadrante 4), você cometeu um erro e precisa aprender com ele. Caso contrário, estará fadado a repeti-lo.


Evitando o viés retrospectivo

Apenas fazendo a referência cruzada das razões embasadoras de suas decisões e seus resultados você poderá identificar quando teve sorte, quando foi hábil, e, o mais importante: se está cometendo erros recorrentes.

Caso contrário, você corre o risco de deixar o viés retrospectivo te impedir de aprender com seus erros.

O viés retrospectivo se refere a ideia de que ao conhecermos o resultado, tendemos a acreditar que já sabíamos disso o tempo todo.

Por isso, escrever suas convicções e análises antes do investimento ajuda muito o entendimento do resultado final.

Um pequeno diário ajuda muito a ser honesto consigo mesmo.


O bull market atrapalha o desenvolvimento

A cada bolha ou história de fracasso empresarial na bolsa, dezenas de textos são escritos explicando detalhadamente o que deu errado e por quê.

Esta racionalização empírica faz com que eventos pareçam muito mais previsíveis do que realmente foram, antes do resultado final se tornar conhecido.

E, no bull market, os acertos se multiplicam e o sentimento de genialidade pode criar sérios riscos ao seu patrimônio.

Posso dizer que escrever tudo o que pensamos, sem conflitos de interesse e com a sinceridade intelectual, ajuda muito em nosso aprendizado.

No Investidor de Valor, ter um histórico de relatórios nos ajuda muito a aprender com os erros do passado. Sempre lemos e recomendamos a leitura de relatórios antigos.

Isto nos ajuda bastante a identificar nossos erros e acertos, e a melhorar dia após dia. Nos ajuda a entregar um produto cada vez melhor.

Estamos em constante evolução.

E você? Em pleno bull market, tem acertado pelos motivos certos ou está apenas aproveitando os ventos favoráveis da sorte?


Abraço,

Rafael Ragazi.



Em observância ao Artigo 22 da Instrução CVM nº 598/2018, a Nord Research esclarece que oferece produtos contendo recomendações de investimento pautadas por diferentes estratégias e/ou elaborados por diferentes Analistas. Dessa forma, é possível que um mesmo valor mobiliário encontre recomendações distintas em diferentes produtos por nós oferecidos. As indicações do presente Relatório de Análise, portanto, devem ser sempre consideradas no contexto da estratégia que o norteia.


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por Rafael Ragazi
em 25/11/2019 para Nord Insights

Iniciou sua carreira como Analista na Investor Consulting Partners (assessoria especializada em M&A e finanças corporativas).Posteriormente, foi Gerente de Novos Negócios na Wise Up|Somos Educação (enquanto investida da Tarpon Investimentos) e Sócio responsável pela área comercial e membro do comitê de investimentos da Luminus Capital Management.

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