É sempre mais fácil ser pessimista

O Futuro é otimista

O carnaval deste ano teve um gosto diferente. Não teve bloquinho, a não ser aquele classificado como “Unidos da Netflix”. Este certamente teve seu recorde de adesões para o período.


Ao mesmo tempo, praticamente um ano depois dos oito circuit breakers do mercado, parece que voltamos ao mesmo otimismo de 2020. Se um extraterrestre pousasse em terras tupiniquins em janeiro de 2020 e retornasse hoje, sem saber o que aconteceu nesse meio-tempo, teria a impressão de que nada ocorreu no período.


Fato é que, novamente, desenhamos um futuro positivo. No lado global, com uma quantidade de estímulos incríveis colocados na economia, parecemos caminhar para um crescimento global sincronizado.


O Brasil, pelo fato de ter se portado como país desenvolvido na voracidade dos estímulos, também tem experimentado uma recuperação importante da economia. Tudo isso em um momento em que a vacinação parece começar a ganhar corpo, seja nos mercados desenvolvidos ou emergentes.


O gráfico à esquerda apresenta as taxas de doses de vacina administradas a cada 100 pessoas (em países emergentes). Já o gráfico à direita, apresenta as taxas de doses de vacina administradas a cada 100 pessoas (em países desenvolvidos).


Fonte: BTG Pactual Digital


Tudo parece se alinhar para termos um cenário de maior visibilidade à frente, com uma recuperação cíclica das economias à nossa espera – o que anima os mercados.


Não à toa, essa conjunção de fatores tem levado os mercados a subirem de forma vertiginosa,  com todas as bolsas globais em seus maiores valores históricos – o que, cada vez mais, tem comprimido o earnings yield.


À esquerda: evolução das bolsas globais (em pontos). À direita: evolução do earnings yield das bolsas globais (%).


                                        Fonte: Bloomberg


Em tempos como este, vale a pena lembrar dos riscos que corremos. Talvez, um novo fantasma volte a nos assombrar.


Fantasma do passado


Em alguma instância, os tempos atuais remontam um pouco à discussão pós-2008. Um momento de excesso de estímulos e um questionamento relacionado a como a economia reagirá a isso.


Em um período de grande expansão dos balanços – seja do lado fiscal ou monetário –, a principal discussão é a inflação. Novamente, voltamos a esse ponto. Gastos em “percentuais do PIB” em estímulos viraram “troco” de pinga. Tudo é gasto como se não houvesse o menor problema.


Eu entendo o porquê disso, afinal, a consequência disso tudo (a inflação) nunca deu as caras. Por mais que o mercado tenha precificado, em certos momentos, uma inflação de longo prazo alta (2,5 por cento), a média de inflação realizada da década foi 1,7 por cento – abaixo da meta do Fed de 2 por cento.  


Gráfico apresenta inflação realizada vs. inflação de 10 anos nos Estados Unidos. Período: 2007 a 2020.

Fonte: Bloomberg


Há quem advogue que agora a situação é diferente (sempre existe).


Em 2008, a maior parte do estímulo foi feita via QE (Quantitive Easing). Esse tipo de programa gera um efeito riqueza e uma consequente inflação de ativos, mas sem grandes impactos na economia real. Afinal de contas, o dinheiro investido segue “preso” no mercado. A inflação observada não veio na forma de bens, mas nos ativos financeiros.


O que pode ser diferente neste momento é que estamos fazendo um estímulo fiscal muito mais relevante do que no passado – afinal, estamos enviando cheques para as pessoas, e isso se tornará consumo.


O mercado, então, volta a precificar uma inflação mais alta. A inflação implícita americana para 10 anos já está em 2,2 por cento, com a treasury já apontada na mesma direção.


Se a inflação de fato aparecer e o Fed resolver que precisa antecipar a discussão de retirada dos estímulos, talvez vejamos momentos de turbulência à frente.


Você, que está posicionado em juro longo, deve se questionar: o que aconteceria se a treasury “pulasse” de 1,30 para 3 por cento?


Lembre-se que eles são a “taxa de juros” do mundo. Acho que vale o questionamento.

Saiba escolher os riscos que você vai correr


Dito tudo isso, verdade seja dita: ser pessimista é fácil. Sempre há um risco no radar, não tem jeito. Quando não tem, o mercado inventa um.


Uma hora é eleição, outra hora vai ser inflação, depois vacina com pouca eficácia, depois crise política… Daria para preenchermos uma lista robusta sem pensar muito. Os riscos sempre estão presentes, e acredito que seja saudável pensarmos sobre eles, principalmente quando todos estão focados em ganhar dinheiro rápido.


É inerente à vida do investidor assumir certos riscos, mas precisamos saber ponderar e escolher quais deles vamos correr. Isso passa bastante por como construímos nosso portfólio. Será que possuo algum na carteira que poderia ser altamente impactado por essa volta da inflação e uma treasurymais alta?


Teremos, provavelmente, um dólar mais forte globalmente e taxas longas maiores para todo o mundo. A depender de como tocarmos nosso barco por aqui, as consequências podem ser mais brandas ou mais difíceis, afinal de contas, um mundo com condições financeiras mais apertadas pune países que não fazem a lição de casa.


Se você tem dificuldades em saber navegar entre os cenários, sugiro conhecer o trabalho que a Marília faz no Nord Advisor.


Ela certamente vai ajudá-lo a construir uma carteira mais robusta, capaz de atravessar cenários mais difíceis e se aproveitar de momentos positivos. Isso certamente lhe trará retornos maiores a longo prazo.


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por Luiz Felippo
em 21/02/2021 para Nord Insights

Iniciou sua carreira num projeto de renda fixa do Insper com o BTG Pactual. Posteriormente atuou na área de pesquisa econômica internacional do Itaú Asset Management e foi analista de Renda Fixa da Empiricus Research. Formou-se Economista no Insper.

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