Dez lembretes para o momento atual

O mercado é maratona, não sprint de 100 metros

Humores voláteis

A madrugada foi predominantemente de perdas na Ásia e os desempenhos do front europeu, nesta manhã, são díspares.


As expectativas embutidas nos futuros de S&P500 noite passada eram de uma segunda-feira vermelha nos mercados americanos, mas enquanto escrevo essas linhas temos alta moderada por lá.


A vol lá fora fez topo. Tem seu lado positivo: pode ser um bom indício de que preços já embutem grande parte do que se sabe até aqui.





Trump recua

À medida que caminhávamos para a segunda semana de quarentena, discussões acerca das medidas de isolamento social pareciam ganhar força em diversos meios.


A eventual adoção do chamado isolamento vertical entrou no debate público. O principal argumento dos defensores é que a sustentação parcial (isolando os pertencentes a grupos de risco) da atividade mitigaria os impactos econômicos do momento, possibilitando inclusive melhores condições materiais para atravessar a situação.


Não sou epidemiologista e, portanto, não entro nem pretendo entrar na discussão. Mas começo a me perguntar inclusive como Estados e Municípios pretendem manter serviços essenciais (inclusive os relacionados à saúde pública) com quedas expressivas de arrecadação. A expectativa de que recursos federais, saídos sabe-se lá de onde, garantiriam tudo não parece razoável nem exequível.


Mas esta parece ser uma discussão que, por ora, perdeu objeto diante do recuo por parte de um dos maiores defensores globais do retorno ao trabalho: Donald Trump anunciou, ontem à noite, a prorrogação do isolamento social nos EUA até 30 de abril. Desistiu, portanto, da meta de normalização até a Páscoa.


Deve trazer reflexos, aqui, no curto prazo — no debate público e nos preços.


Até o último homem (e empresa)

Paulo Guedes rompeu o silêncio e frustrou aos que já rifavam seu nome em meio ao momento político-econômico complexo: avisou que fica e que pouco se pronuncia porque está trabalhando.


Este quase-monólogo de 2 horas deveria ser assistido por todo mundo. O resumo do resumo (como se possível fosse resumir essa enxurrada de informação neste acanhado espaço) é que as prioridades estruturais da pasta estão momentaneamente deixadas de lado — como não poderia deixar de ser — e o foco é não deixar ninguém para trás neste momento de desafios.


Guedes trabalha com a premissa de até três meses de isolamento para conter as coisas por aqui. Em resposta, iniciativas estão sendo estruturadas a toque de caixa, abrangendo desde trabalhadores informais até grandes empresas, visando reduzir os impactos econômicos de curto prazo da pandemia.


O maior desafio, me parece, é fazê-las chegar aos que delas vão precisar (e não serão poucos) a tempo de conter maiores danos. Refiro-me, aqui, principalmente a trabalhadores informais e pequenas e médias empresas: estes têm pouco fôlego para lidar com o momento atual.


O dia depois de amanhã


E a expectativa é de que, quando for possível retornar, agendas estruturantes sejam o pivô da recuperação. É um enorme contraste com agendas de outras épocas, que apostaram numa quase indefinida expansão de gastos públicos — e nos levaram para o buraco repetidas vezes.


Trata-se de projeto cuja execução depende enormemente de credibilidade na condução da política econômica.


E uma boa articulação política com o Legislativo: nossos pralamentares (sic) certamente hão de acenar com uma agenda mais fácil (e com consequências de longo prazo complicadas) de expansão desenfreada de gastos públicos. A receita de sempre, típica de quem não vai arcar com as consequências de depois.


É importante que o relaxamento de restrições orçamentárias do curto prazo não se converta num passa boi, passa boiada quando os desafios da hora estiverem superados. Será difícil em nível global; em solo tupiniquim, mais ainda.


Engrenagem voltando a girar

Enquanto isso, na China, sinais são de esforços pelo retorno ao trabalho. Os primeiros dados de utilização de capacidade ainda são bem díspares, a depender da região e da fonte da informação, mas sugerem algo entre 20 e 60 por cento.


O histórico chinês no trato de momentos de desaceleração econômica, independentemente da intensidade, é bem consistente: amplos estímulos governamentais por todo lado, que sustentarão o curto prazo e, no médio, suscitarão preocupações sobre sua sustentabilidade.


Mas uma coisa de cada vez: o agora deve favorecer exportadores de alimentos e insumos básicos — e nós estamos nesta fila, com alguns dos nossos nomes mais comuns na Bolsa despontando em boa posição.

Dez lembretes para o momento atual

  1. Não, não é uma gripezinha.
  2. É crescente a percepção de que os preços dos ativos já embutem desaforo o bastante.
  3. A afirmação acima se traduz em oportunidades, mas é preciso seletividade: nem tudo que parece barato é barato.
  4. Empresas terão impactos. A magnitude desses impactos dependem do segmento de atuação e da situação financeira individual — não é tudo igual, nem para o bem, nem para o mal.
  5. A situação segue se desenrolando dia após dia e requer acompanhamento disciplinado.
  6. O momento é extremamente propício para profetas do apocalipse: com ou sem bases, afirmações catastrofistas caem bem no ouvido da maioria neste momento. Filtre o que você lê.
  7. Quando tudo estiver resolvido, preços já refletirão a resolução. Se quiser postergar suas decisões, não se lamente depois.
  8. Sua estratégia de investimentos não deve mudar aos sabores do momento. Se está subalocado em Bolsa, aloque mais; se já está alocado demais, ponha o pé no freio.
  9. A recuperação tem mais cara de “U” do que de “V”. Mercado é maratona, não sprint de 100 metros. Se você está preocupado com os preços de amanhã, você está fazendo errado.
  10. Mantenha-se bem. Cuide dos que estão com você. Privilegie as pequenas empresas aos seu redor. As Empresas de capital aberto são as maiores do país; são as em melhor situação para enfrentar o curto prazo desafiador. Os pequenos à sua volta, por outro lado, precisam da sua ajuda.

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por Ricardo Schweitzer
em 30/03/2020 para Nord Insights

Possui 14 anos de experiência no mercado financeiro. Antes de fundar a Nord Research passou pela Adviser Asset, Fundação CEEE, Sicredi Asset, Votorantim Corretora e Empiricus Research. Formou-se em economia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

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