Deus me livre, mas quem me dera

Praticamente recuperado após ter contraído a Covid-19, o presidente dos Estados Unidos segue cumprindo sua agenda oficial e muito ativo no Twitter  seu meio de comunicação preferido.


Deus me livre

Recentemente, Trump decidiu se manifestar a respeito das negociações para um novo pacote de estímulo fiscal, que estavam em andamento já há alguns meses, porém, sem que um consenso entre Democratas – que buscam um estímulo adicional de 2,4 trilhões de dólares –  e Republicanos – que oferecem apenas 1,6 trilhão de dólares –  fosse alcançado.

Minha gente, em tempos de trilhões para cá e para lá, por que ficar brigando, meses a fio, por míseros 800 bilhões de dólares?

Mas é isso que tem acontecido. Precisamente no dia 6 de outubro, terça-feira passada, às 15h48, Donald Trump decidiu se pronunciar sobre o assunto no Twitter.

Exaltando seu poder de commander-in-chief, ele disse que todas as negociações sobre o novo pacote fiscal, daquele ponto em diante, estavam suspensas até o final do processo eleitoral.

Deus me livre, não vou aprovar nada!

Imagem mostra print de tweets de Donald Trump (@realDonaldTrump).

Fonte: Twitter

O mercado recebeu a notícia com um gosto amargo na boca, visto que as consecutivas altas dos índices acionários nos Estados Unidos têm sido respaldadas pela expectativa de que logo mais um novo estímulo trilionário vai ser aprovado. Olha só o que aconteceu.

Gráfico mostra a queda de mais de 2 por cento do índice S&P500.

Fonte: Bloomberg

O índice S&P500, que estava lá tranquilamente aos 3435 pontos, em alta de 0,7 por cento, levou uma paulada e, em questão de minutos, sucumbiu mais de 2 por cento.

Justo você, Trump, que é fã dos mercados, fez o favor de se pronunciar a respeito de um tema tão importante enquanto os mercados estavam abertos?

Acho que precisam ajustar seu combo de remédios contra a Covid-19, não parece que a dose atual esteja lhe fazendo muito bem.

Mas quem me dera

Creio que ainda sob os fortes efeitos colaterais provocados pelo coquetel de medicamentos prescrito para o tratamento da Covid-19, Donald Trump tenha se apegado demais ao Twitter, visto que ele e sua esposa estão quase isolados na Casa Branca.

Ainda no dia 6 de outubro, precisamente às 23h18, o mesmo Donald Trump posta no Twitter uma mensagem dizendo que os políticos deveriam apoiar um pacote de 25 bilhões de dólares em ajuda às companhias aéreas, bem como o envio de cheques de 1.200 dólares para os americanos e também uma ajuda extra de 120 bilhões de dólares para pequenas e médias empresas.


Imagem mostra print de tweet de Donald Trump (@realDonaldTrump).

Fonte: Twitter

No dia seguinte, o presidente ainda reiterou sua mensagem em um novo post, agora endereçado diretamente a Nancy Pelosi – do partido Democrata – que ocupa uma posição de destaque no equivalente à nossa “câmara dos deputados”:

Imagem mostra print de tweet de Donald Trump (@realDonaldTrump).


Quem lhe dera fosse tão fácil aprovar as coisas ao seu bel-prazer, não é mesmo, Mr. President?

Deus me livre, mas quem me dera

Na tarde de sexta-feira, dia 09 de outubro, tivemos a notícia de que a Casa Branca agora trabalha em um pacote que totaliza 1,8 trilhão de dólares.

Acredito que eles vão chegar a um acordo e anunciar um belo pacote de trilhões e mais trilhões de dólares.

A questão é que, para resolver um problema de curto prazo causado pela pandemia, os políticos estão criando um grande problema de longo prazo – um endividamento sem igual da federação.

Hoje, os Estados Unidos já estão com uma relação dívida/PIB no mesmo patamar observado durante a Segunda Guerra Mundial, o que é consideravelmente elevado, mesmo para a maior economia do mundo.

Deus me livre ver a economia se ajustar ao longo do tempo, mas quem me dera poder distribuir cheques para toda a população sem que o impacto futuro seja ainda mais forte do que a pandemia.


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por Cesar Crivelli
em 10/10/2020 para Nord Insights

Bacharel em Administração de Empresas pela PUC-SP, possui MBA pela FGV e MSF pela Hult International Business School. Integrou a equipe de Equity Research do Citibank e tesouraria da General Motors (GM) no Brasil. Posteriormente, atuou nas frentes de M&A e novos negócios da Xeros Cleaning Technologies (XTG), nos Estados Unidos. Ingressou na Nord Research em outubro de 2019, como parte do time do Nord Small Caps, e hoje é responsável pelo Nord Global.

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