Cuidado! Contém spoiler

Netflix divulga seu resultado do segundo trimestre, mas o mercado não gosta


Netflix

Todo mundo já ouviu falar da Netflix, certo? Mas poucos sabem a sua origem...

A companhia foi fundada em 1997 e oferecia venda de DVDs, bem como aluguel, por meio do envio pelo correio. A empresa começou com apenas 30 funcionários e um catálogo de 925 filmes, praticamente todos os disponíveis naquela época.

Como muitas startups, a Netflix sofreu no começo da sua jornada para encontrar o modelo de negócio ideal. O serviço de subscrição mensal ilimitado foi introduzido em 1999. Era muito simples: você entrava no site, escolhia o filme e ele chegava na sua casa. Depois era só postar de volta e pedir outro.

Bom para o consumidor, mas nem tanto para a empresa, que estava perdendo dinheiro com o serviço. Um pouco frustrados com a empreitada, os donos da companhia a ofereceram para a Blockbuster por 50 milhões de dólares, mas não houve interesse pela oferta.

Talvez a Blockbuster se arrependa até hoje de não ter fechado o negócio. Naquela época a empresa tinha, aproximadamente, 9.000 lojas e 84 mil empregados ao redor do mundo.

Mas o cenário mudou por volta de 2001, quando os DVDs players se tornaram mais acessíveis ao público em geral. Naquele ano eram vendidos por 200 dólares e foram o presente de natal mais popular nos Estados Unidos.

Deste momento em diante, a Netflix passou a ganhar mercado até 2007, quando a companhia entregou seu bilionésimo DVD, abandonando esse modelo de negócio ao longo dos anos seguintes, para se tornar a Netflix que conhecemos hoje.


Crescimento

A companhia acessou o mercado de capitais americano em meados de 2002, quando realizou seu IPO, vendendo 5,5 milhões de ações por 15 dólares cada.

Ela conseguiu ajustar seu modelo de negócio e passou a crescer fortemente nos anos seguintes. Hoje a Netflix é líder mundial no serviço de streaming de conteúdo e conta com 192 milhões de clientes no mundo todo.

Fonte: Netflix


Como o gráfico acima demonstra, o crescimento no número de usuários tem sido forte e praticamente ininterrupto por muitos anos. Apesar do sucesso, a companhia ainda não oferece o serviço de streaming na China — por restrições do governo local —, que é um mercado potencial muito grande.

Resultados

Nesta quinta-feira, a Netflix divulgou seu resultado do 2T20. A companhia foi uma das poucas que se beneficiou da pandemia, pois conquistou “apenas” 10 milhões de clientes durante o trimestre.

Como a pandemia e a restrição de locomoção nos Estados Unidos e em alguns outros países se deram no primeiro trimestre, cabe também mencionar o número de novos assinantes conquistados nesse período, que foi de, aproximadamente, 13 milhões. Estamos falando de um aumento de 14 por cento na base de assinantes em apenas dois trimestres. Isso não é pouca coisa.

O resultado da companhia no 2T20 foi razoável, com a manutenção do ticket médio por cliente, crescimento de 6 por cento nas receitas em relação ao trimestre anterior e módicos 24 por cento na comparação com 2T19.

A companhia também reportou o maior EBITDA da sua história, bem como a maior margem EBITDA, como mostra o gráfico abaixo.

Fonte: Bloomberg

Mercado maluco

Como já falamos algumas vezes, o mercado nem sempre, ou quase nunca, reage racionalmente aos fatos. Nesta sexta-feira (17/07) as Ações da Netflix (NASDAQ:NFLX) caíram cerca de 7 por cento.

A companhia avisou o mercado que no próximo trimestre a adição de novos usuários deve diminuir para algo perto de 2,5 milhões e o mercado está usando essa informação como a desculpa da vez.

Temos duas hipóteses. A primeira é que houve uma antecipação de novas subscrições por parte do mercado potencial, muito por conta da pandemia, visto que muita gente ficou em casa e precisava se distrair. A segunda é que a empresa está dando ao mercado uma indicação mais conservadora sobre as perspectivas futuras para “surpreender” quando da divulgação dos números do 3T20 — isso é bem comum nos Estados Unidos.

De qualquer forma, se levarmos em conta que a taxa de cancelamento dessas novas assinaturas não será alta, a companhia apenas antecipou a conquista de market share que seria distribuída mais uniformemente durante os trimestres seguintes, o que não é ruim, pelo contrário. Mas o mercado sempre precisa de uma desculpa…

Caro ou barato?

As Ações da Netflix (NASDAQ: NFLX) negociam hoje a múltiplos bem elevados — Price/Earnings 2021 em 60x, EV/EBITDA 2021 38x.

De certa maneira, esses múltiplos são esperados, pois a continuidade da adição de novos usuários deve ter impacto positivo no lucro da empresa, então os investidores aceitam pagar antecipadamente por esse crescimento.

Como a expectativa é de que em alguns anos o lucro por ação suba consideravelmente, o investidor terá de volta o seu capital — caso a empresa distribua-o em forma de proventos — mais rapidamente.

Supondo que a Netflix consiga dobrar o seu lucro por ação no curto prazo, o investidor então teria o retorno na metade do tempo, ou seja, trinta anos. O difícil é multiplicar os lucros em um curto espaço de tempo, seria necessário abocanhar dezenas de milhões de clientes em alguns trimestres, em um mercado onde a concorrência tem aumentado bastante — vide o lançamento das plataformas de streaming da Disney e HBO.

Não tenho dúvida de que a Netflix é uma boa empresa, mas nos preços atuais, a margem de segurança para investir nas suas Ações parece muito baixa.

Spoiler

Você se interessa por ações americanas? Já se imaginou montando uma carteira fora do Brasil?

Se você é um leitor mais atento e acompanhou as minhas últimas publicações, foi capaz de perceber que há algo se materializando.

Fui proibido de dar qualquer novo spoiler neste sentido.

O que posso dizer é que a semana que vem será emblemática para minha história aqui na Nord. Estou bastante ansioso.

Fique atendo ao seu e-mail. Tem coisa boa chegando…



Em observância ao Artigo 22 da Instrução CVM nº 598/2018, a Nord Research esclarece que oferece produtos contendo recomendações de investimento pautadas por diferentes estratégias e/ou elaborados por diferentes Analistas. Dessa forma, é possível que um mesmo valor mobiliário encontre recomendações distintas em diferentes produtos por nós oferecidos. As indicações do presente Relatório de Análise, portanto, devem ser sempre consideradas no contexto da estratégia que o norteia.


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por Cesar Crivelli
em 18/07/2020 para Nord Insights

Bacharel em Administração de Empresas pela PUC-SP, possui MBA pela FGV e MSF pela Hult International Business School. Integrou a equipe de Equity Research do Citibank e tesouraria da General Motors (GM) no Brasil. Posteriormente, atuou nas frentes de M&A e novos negócios da Xeros Cleaning Technologies (XTG), nos Estados Unidos. Ingressou na Nord Research em outubro de 2019, como parte do time do Nord Small Caps, e hoje é responsável pelo Nord Global.

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