Cuidado com a TINA

Contra-mão

O dia é predominantemente de mau-humor lá fora, com tensões crescentes no front comercial entre Washington e Pequim (vide abaixo).

Por aqui, correria é maior no mercado de juros (vide abaixo também!), mas Ibovespa futuro também tenta ir na contra-mão do mood externo. Vai rolar?

 

Tem uma guerra lá fora…

Há quem diga que será entre hoje e amanhã: Trump deve anunciar tarifas contra China da ordem de US$ 30 bilhões, em resposta a violações de propriedade intelectual abrangendo mais de 100 diferentes tipos de produtos. Pequim deve retaliar. Bruxelas já prepara reações para a União Europeia.

Brincando, brincando, pode vir um pequeno tsunami no comércio internacional logo à frente. É bom ficar atento, muito especialmente considerando o peso de exportadoras em nossa economia e, mais especificamente, em nosso mercado de capitais.

 

Powell confirma

No frigir dos ovos, decisão do Fomc veio em linha com a expectativa do mercado lá fora — mas não sem boa dose de som e fúria, com todos aprendendo os passos de dança de Jerome Powell, cujo requebrar definitivamente em nada se assemelha ao de Janet Yellen.

Foi de muita volatilidade o período de quarenta e poucos minutos de sua coletiva ontem à tarde, com discurso ora hawkish, ora dovish. Para quem busca interpretações subliminares em cada soluço dos policymakers, foi uma tarde cansativa.

Noves fora, o chairman não vê sinais de superaquecimento na economia americana e está disposto a manter a máquina rodando acima da meta anual de 2% de inflação por algum tempo. Para este ano, mantido o cenário de mais duas elevações de taxa.

Tudo mais constante, parece ter-se avenidas abertas para dólar fraco e impulso adicional para ativos de risco — pelo menos até o surgimento de uma boa justificativa para realização.

 

Goldfajn surpreende

Se lá fora tudo acabou vindo como esperado, coube a Brasília a responsabilidade por arquear nossas sobrancelhas no final do dia de ontem: a decisão do Copom, aquela que parecia tão jogo jogado, acabou surpreendendo.

Veio em linha o corte de 0,25, mas não se esperava a sinalização de corte adicional na próxima reunião. É fato que os argumentos — as expectativas de inflação aquém da meta — convencem, mas até ontem ninguém tinha no preço. Hoje, todos dirão que era óbvio.

Frenesi no mercado de juros está garantido. Difícil, muito difícil, é não afirmar que isso não seja a raspa do tacho.

E é nesse ponto que quero chegar:

 

TINA está de volta?

Ah, que saudades dos tempos em que dava para ganhar 1% ao mês sem correr riscos nem fazer esforço, não é verdade? Com juros na mínima histórica (e sem berro nem canetaço, viu Dilma?), não tem mamata. E o encolhimento do retorno fará — ou melhor, vem fazendo -, inexoravelmente, com que as pessoas migrem paulatinamente para mais risco.

E, com isso, valuations para cima. E tais valuations serão explicados justamente pela falta de alternativas.

TINA — There Is No Alternative está de volta, e francamente não gosto dela. Quando as pessoas se sentem impelidas a pagarem o preço que for por algo pura e simplesmente porque o dinheiro está “queimando” na mão, coisas ruins acontecem.

Pura e simplesmente porque as “condições TINA” nunca são indefinidamente sustentáveis, e muito provavelmente você não tem bola de cristal para identificar o ponto de ruptura que fará com que elas deixem de existir e sair das posições a tempo.

Lembrete de sempre: deixar de ganhar é sempre melhor do que perder.

Ricardo Schweitzer, CNPI

Em observância à ICVM 483, declaro que i) as recomendações constantes no presente relatório de análise refletem única e exclusivamente minhas opiniões pessoais e foram elaboradas de forma independente e autônoma; ii) não possuo vínculo com pessoa natural que trabalhe para o emissor de qualquer valor mobiliário mencionado neste relatório; iii) sou titular de valores mobiliários objeto deste relatório: UGPA3; iv) não estou envolvido, direta ou indiretamente, na aquisição, alienação ou intermediação dos valores mobiliários objeto deste relatório; v) não tenho qualquer interesse financeiro em relação a qualquer dos emissores objeto deste relatório

Compartilhar este artigo
por Ricardo Schweitzer
em 22/03/2018 para Nord Insights

Possui 14 anos de experiência no mercado financeiro. Antes de fundar a Nord Research passou pela Adviser Asset, Fundação CEEE, Sicredi Asset, Votorantim Corretora e Empiricus Research. Formou-se em economia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

Receba nosso conteúdo GRATUITO!