Carta a um investidor iniciante

Papo reto

Quem me acompanha por aqui sabe o quanto eu adoro fazer testes e estudos sobre algumas teses de mercado. Para além do blá-blá-blá teórico e fantasioso, sempre gosto de colocar minhas ideias à prova dos números.


Nesse ato, algumas passam e outras não, o que faz parte do processo. Aproveitamos o que funciona edescartamos o resto.


Entretanto, hoje não é dia disso. Neste domingo, quero aproveitar para ter um bate-papo diferente com você, principalmente se você entrou na bolsa recentemente — afinal, somos mais de 1 milhão de estreantes na bolsa desde março.


É aquela conversa franca de investidor para investidor, sem qualquer enrolação.


Quero aproveitar para passar um pouco do que aprendi nesse tempo como analista, sentando frente a frente com os melhores gestores brasileiros.


Gente que segue fazendo história na bolsa brasileira e que sempre tem o que nos ensinar, se formos capazes de ouvir.


A lição número 1 é que investir em bolsa é uma construção de longo prazo.


Investir em bolsa é uma construção de longo prazo


Os últimos meses foram incríveis para os mercados. Imagino que essa seja a milésima vez que você escuta isso, até mesmo de mim.


Mas, ainda assim, as pessoas perdem de perspectiva o quão surreal foi a recuperação. Se olharmos os dados, essa foi a maior alta de 4 meses consecutivos da nossa história.


                                Fonte: Bloomberg


Não há qualquer outro paralelo passado que se compare, mesmo se olharmos a grande crise financeira de 2008.


Passado os tempos de euforia, tudo que nos sobrou é a volatilidade. A transição entre dias de euforia da possibilidade de uma vacina e os dias em desespero com o caos fiscal, estão deixando o mercado inquieto.


E, claro, todo esse chacoalhão da bolsa também tem deixado muitos investidores inseguros, principalmente aqueles que até pouco tempo atrás estavam no conforto da renda fixa.


Na hipótese de esse ser o seu caso, é perfeitamente normal ter esse sentimento. Entretanto, não faça disso um motivo para desistir.


Se você conhece bem os negócios que comprou, o balançar das ações não pode (nem deve) ser uma preocupação. Afinal de contas, a oscilação em NADA impacta os negócios no mundo real.


Na maioria das vezes, há uma grande dissonância entre o que acontece no ambiente do seu home broker e o dia a dia das empresas — seja para o bem ou para o mal.


Então, o primeiro grande passo para você ter sucesso no mercado de ações é fazer essa separação.


É claro que isso parece mais fácil de ser falado do que executado. Há muita ansiedade no vai e vem dos mercados, mas aos poucos você aprende a conviver com a volatilidade.


É por isso que se tornar um investidor de bolsa leva tempo. É uma construção de longo prazo, costurada por acertos. Alguns dos gestores de sucesso, mesmo após 30 anos na área, ainda aprendem diariamente.


É claro que tudo isso tem um pressuposto importante: conhecer bem as empresas, tarefa essa que frequentemente fica em segundo plano.

Nem toda aposta merece ser dobrada


Em tempos de redes sociais, o pequeno investidor aprendeu que um dos grandes segredos da bolsa é comprar quando o preço das ações está na bacia das almas.


Esse mesmo pequeno investidor, para não esquecer, inclusive, tatuou no braço aquela famosa frase “befearful when others are greedy, and greedy when others are fearful” ("Tenha medo quando os outros estão gananciosos. Seja ganancioso quando os outros têm medo")— trecho supostamente atribuído ao Buffett, mas que alguns advogam ser da Clarice Lispector, outros do Abraham Lincoln.


Em março, a crise veio e assolou os mercados. As ações caíram 40, 50, 60 por cento... e, como um bom aprendiz, ele quebrou o porquinho e foi às compras.


Em poucos meses, o sucesso veio. As carteiras estão com resultados incríveis, algo que nunca foi visto antes.


Agora a pessoa física se sente invencível. "Nada pode nos deter".


Isso é perigoso.


De certa forma, para muitos investidores, ficou a impressão de que basta comprar quando cai para se dar bem em bolsa — afinal, desde março, das 77 ações do índice 72 subiram.


Essa atitude, sem dúvidas, é importantíssima e tem seus méritos. Entretanto, há também uma segunda parte da história: entender se houve (ou não) alteração de valor nas companhias.


Essa avaliação é fundamental, pois é justamente o fato de o preço de hoje estar abaixo do seu valor intrínseco que define se um ativo está barato ou não.


Mas e se o VALOR tiver se alterado?


Em certas ocasiões, as próprias quedas das ações no mercado são um reflexo de que o negócio vem se deteriorando.


A pessoa que seguiu comprando OGX — famosa companhia de petróleo do Eike Batista —  foi com as próprias pernas até o caixão.


O investidor que seguiu comprando Cielo em todas as oportunidades — apesar da mudança competitiva do setor — levou um prejuízo de 80 por cento no capital investido.


Entenda: nem toda aposta merece ser dobrada. Para as que valem a pena, lembre-se da lição número 3: é sempre bom ter aquele caixa para aproveitar.


Caixa, Caixa, Caixa


Com a Selic a 2 por cento ao ano, o caixa queima na mão. Com as ações subindo 30, 40, 50 por cento, parece bobo segurar algo que mal repõe a inflação do ano.


Não faz o menor sentido e compreendo o sentimento. Parece que você está “deixando de ganhar” a cada dia que passa.


Entretanto, em meio às crises, aquele será o seu melhor ativo. Enquanto os mercados em março caiam fortemente, quem tinha caixa conseguiu fazer compras maravilhosas a 60 mil e 70 mil pontos.


E, acredite, essas poucas (raras) oportunidades de encontrar negócios maravilhosos a preços incríveis farão uma enorme diferença no seu patrimônio.


É isso que grandes gestores fazem e aconselho que faça o mesmo.

Cuidado com a fábula dos IPOs


Parece que voltamos para 2007, onde a farra dos IPOs era pujante. À época, todas elas vinham ao mercado com belas histórias de crescimento e eram tratadas como as próximas tacadas da bolsa.


Eram operações de lucro certo, não tinham a menor possibilidade de darem errado — pelo menos eram essas as juras feitas pelos bankers e corretoras da época.


Em alguns casos, o sucesso até veio. Empresas como Porto Seguro e Localiza se multiplicaram por 18x e 52x desde a sua estreia na bolsa.


Mas estes casos estão longe de ser a regra. Para cada história de sucesso, existe uma longa lista de empresas que simplesmente micaram.


Neste grupo temos todas as empresas do Grupo X, as famigeradas incorporadoras e até animais exóticos como a Recrusul e a IdeiasNet...


Para se ter uma ideia das ordens de grandeza, dos 127 IPOs do período de 2004 a 2007, somente 67 dessas empresas ainda estão sendo negociadas na bolsa. Destas, somente 27 tiveram uma rentabilidade superior ao CDI.


É realmente uma situação catastrófica. Ainda assim, neste ano a quantidade de estreias na bolsa está quase tão alta quanto na década passada.



É impressionante que nem a crise foi capaz de azedar o processo. Todas elas vêm a mercado lutar pelo seu dinheiro, novamente com belas histórias.


Nessa nova safra temos negócios de todo tipo, variando desde cuidado animal até assinatura de vinho.


Mas, no geral, dificilmente gestores entram em ofertas. Eles olham diversas delas, mas IPOs possuem uma série de problemas na sua própria concepção.


Para começar, existe uma gigantesca assimetria de informação. A empresa conhece profundamente seus desafios, erros e o tamanho real das oportunidades. Enquanto isso, o mercado só tem alguns dias para analisar e descobrir se vale a pena ou não.


O cronograma de fato não favorece o investidor e as chances de encontrar um esqueleto escondido no fundo do armário no futuro não é desprezível.


Além disso, em diversos casos, a precificação é exagerada, embutindo premissas muitas vezes irreais de crescimento.


Dito tudo isso, não parece fazer muito sentido entrar diretamente na oferta.


O que geralmente os grandes gestores fazem é esperar 1 ou 2 trimestres para dar mais tempo de conhecer a companhia e ver novos resultados. Se fizer sentido, montam uma posição mais à frente.


Afinal de contas, se o caso for realmente uma baita oportunidade, uma alta de 30 por cento nos primeiros dias de pregão não fará diferença.

De um investidor para outro


Poder conversar com gestores fabulosos é uma dádiva do nosso trabalho. Felizmente, com o advento das plataformas das corretoras, com mil reais já conseguimos investir nas melhores mentes do mercado financeiro.


Eu invisto com eles, seguindo sempre as minhas recomendações do Nord Fundos. Mas, para além disso, é por meio deles que também me torno um melhor investidor de ações.


Então, de uma sardinha para outra: espero ter ajudado você a se tornar um investidor melhor.


Investir em bolsa é um aprendizado diário, sem qualquer data para expirar. É uma construção de longo prazo, não questão de semanas e meses.


Haverá momentos onde o mercado vai chacoalhar sem sair do lugar, outros em que vai cair fortemente com alguns poucos momentos de alta.


Saber o que está comprando é o que vai lhe permitir driblar cada um desses períodos, tolerando momentos de realização, bem como de alta dos papéis investidos.


Também não deixe de ter caixa. É verdade que hoje ele não rende nada, mas em uma eventual realização dos mercados ele será seu melhor amigo.


Por fim, cuidado com os IPOs. Qualquer tipo de história será vendida, mas tome conta do seu dinheiro. Você demorou anos para construir seu patrimônio, não jogue pela janela.


A sua jornada como investidor será dura e o resultado final será uma coleção dos seus erros e acertos.


Um abraço,


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por Luiz Felippo
em 06/09/2020 para Nord Insights

Iniciou sua carreira num projeto de renda fixa do Insper com o BTG Pactual. Posteriormente atuou na área de pesquisa econômica internacional do Itaú Asset Management e foi analista de Renda Fixa da Empiricus Research. Formou-se Economista no Insper.

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