Campeonato Brasileiro de Fundos

 Futebol vs. Fundos

Estamos em dezembro de 2008.

Sob a batuta de Muricy Ramalho, Rogério Ceni, Miranda, Hernanes, Dagoberto e cia. levantam a taça do Campeonato Brasileiro.

Um feito histórico, nenhum clube havia ganhado o campeonato três vezes seguidas desde o Santos de Pelé.

No "Bem, Amigos!" de segunda-feira, Galvão Bueno, empolgado como sempre, levanta uma questão um pouco fora da caixa:

"Caros colegas: se vocês tivessem que apostar quem fará mais pontos no Brasileirão nos próximos 10 anos, qual clube vocês escolheriam? Pela ordem das cadeiras, começamos por você, meu amigo Walter Casagrande"

Sem entender direito a pergunta e com gagueira habitual de sempre, o Casão começa: "É - hum - veja bem, Galvão, analisando o histórico recente, se olharmos as últimas janelas, 1, 2 e 3 anos, o São Paulo foi campeão com sobra, e, por isso, acredito que o tricolor leva vantagem… por isso, acho que deve ser o maior campeão nos próximos 10 anos".

Irritado, Galvão balança as mãos, chacoalha a cabeça e interrompe o Caio Ribeiro que vinha logo a seguir:

"Não foi isso que eu perguntei, Casão! Eu disse quem será o clube que fará mais pontos nos próximos 10 anos! E não o que será mais vezes campeão!"


Futebol vs. Fundos


O trecho acima não é verídico, claro.

Inventei essa história no bar, enquanto explicava para os meus amigos como eles deveriam olhar fundos de investimento (já que ninguém mais tem paciência de ver as cotas de Adam, SPX, Garde e Cia. caindo. Só gostam mesmo quando sobem).

Mas como futebol e dinheiro mexem com a emoção, procurei uma forma de ajudar a ilustrar a questão.

No desafio do Galvão, veja o que aconteceu com os times do campeonato brasileiro nos anos seguintes:

O Corinthians, que nem jogou a série A em 2008 por estar rebaixado, foi campeão 3 vezes, ficou 4 vezes no G4 (4 melhores do campeonato), e somou no total 619 pontos.

O Palmeiras, foi rebaixado em 2012, se livrou da queda na última rodada em 2014, mas foi campeão 2 vezes, terminou 3 vezes no G4, e somou 577 pontos.

O São Paulo, do Casão, só ganhou mesmo naquele 2008, terminou 3 vezes no G4 e somou 667 pontos.

O Fluminense foi campeão 2 vezes, Cruzeiro 2 vezes, Flamengo 1 vez.

No futebol, legal mesmo é ser campeão - eu sei.

Não posso reclamar da década espetacular do meu coringão.

Mas quando se trata de fundos de investimento, eu tenho que vestir um chapéu completamente diferente do de torcedor.

Veja: durante a última década houve um time que não foi campeão sequer uma vez. Mas esteve 7 vezes entre 4 melhores do campeonato, marcou 684 pontos e foi o maior pontuador todos.

Se o Grêmio fosse um fundo, você teria ganhado mais dinheiro do que qualquer outro do campeonato, mesmo nunca tendo sido "O Fundo do Ano".


RANKINGS


Em geral, as pessoas dão muita atenção aos rankings.

Tomam decisões de investimento baseadas em performance passada, sendo que estamos carecas de saber que isso não é qualquer garantia de retorno futuro.

Analisar como um fundo se comportou durante uma crise, quando todo mundo foi mal... ou num bom momento econômico, quando todo mundo foi bem, é apenas uma parte do trabalho.

Muitas vezes, a performance passada de um fundo não foi feita sequer nas mesmas estratégias atuais, ou pela mesma equipe. Mas ninguém procura saber disso.

Quando eu converso com os maiores gestores de fundos do mercado, nenhum deles fala em ser o melhor fundo daquele ano.

Obviamente, nenhum gestor quer se provar apenas em teoria.

Mas, se há alguma referência de "posição na tabela", a frase mais usual é "queremos estar no primeiro quartil", o G4 da indústria de fundos.


Eu diria que o nosso trabalho de analisar fundos tem muito mais a ver com analisar a estrutura do clube, diretoria, comissão técnica, saúde financeira e orientação para os resultados de médio e longo prazo do que analisar propriamente os jogadores posição por posição.

Certamente, se a base for sólida, os resultados virão.

Além disso, é preciso ter paciência e orientação para o longo prazo.

Quem "vendeu" Palmeiras em 2014, perdeu a porrada nos títulos de 2016 e 2018. Quem "vendeu" o quase rebaixado Cruzeiro em 2011 perdeu o bicampeonato de 2013 e 2014.

Nosso trabalho no Nord Wealth não tem nada a ver com futurologia. Não sabemos quais serão os próximos campeões da indústria.

Gastamos muita sola de sapato para entender quais as gestoras têm a melhor estrutura para garantir que os nossos fundos estejam sempre no G4.

Se por acaso, pintar um título ou outro, será apenas a consequência de que o trabalho foi bem feito.


Até a próxima,

Um abraço.

Em observância à ICVM 598, declaro que as recomendações constantes no presente relatório de análise refletem única e exclusivamente minhas opiniões pessoais e foram elaboradas de forma independente e autônoma.

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por Renato Breia
em 14/03/2019 para Nord Insights

Possui 14 anos de experiência no mercado financeiro. Antes de fundar a Nord Research passou pela Link Corretora, Galleas Asset, Rico Corretora e foi sócio da Empiricus Research. Formou-se economista pela PUC-SP, tem especialização em Gestão de Fortunas pela Columbia University e é Planejador Financeiro, CFP®.

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