Bolsa é para sempre

O dia depois de amanhã

Imagino que todos vocês, que leem essas breves linhas aos domingos, devem se lembrar desse filme.


Ele foi um dos clássico em seu ano de estreia, ficando na sexta posição de maior bilheteria de 2004. Mas, para quem a memória falha, conto um pouquinho.



A história basicamente gira em torno de Jack Hall, um americano paleoclimatologista, que faz um alerta sobre como algumas mudanças climáticas poderiam levar a eventos catastróficos nunca antes vistos.


Estaríamos falando do fim dos tempos, com direito a tsunamis, tempestades de raio e uma nova era glacial.


Guardada as devidas proporções, senti-me um pouco assim na quinta-feira (11). Enquanto os mercados brasileiros seguiam fechados devido ao feriado, observamos à distância a sangria dos mercados americanos.


Com o S&P caindo 7 por cento e o ETF do Brasil, negociado em Nova York, caindo 8 por cento, não faltaram profecias de que estaríamos à beira do fim do mundo novamente.


Ouvimos todo tipo de história, até a de que rolaria um novo circuit breaker, para matar a saudade de todos.


Mas, na prática, o que vimos não foi nada parecido com isso. A bolsa recuou 3 por cento, levando os ursos a retraírem suas garras temporariamente.



O que muitas pessoas esquecem é que, no Brasil, todo dia parece que vamos sucumbir a alguma crise.


Isso não é de hoje. Passamos os últimos 30 anos com uma sequência de crises, sempre uma “pior” do que a outra.


E, mesmo assim, aqui estamos. Somos sobreviventes desse país incerto e volátil.


Vendo tudo isso, pensei em contar para vocês um pouco da maneira como eu lido com esse cenário.


É uma conversa que tenho comigo quase que diariamente, mas espero que ajude vocês.


A primeira lição é que o mercado sempre gosta de uma boa historinha.

R1: o mercado vive de narrativas, mas as empresas não

As pessoas adoram acreditar em histórias. Talvez tenha um componente psicológico nisso, mas é um fato.


E, no curto prazo, é disso que o mercado vive.


Até a semana passada, o tema do mercado era a abertura bem-sucedida das economias e a possibilidade de sermos surpreendidos positivamente na retomada.


Já na quinta-feira (11), a narrativa se inverteu. Com o nível de hospitalização crescendo em alguns estados norte-americanos, volta o receio de uma segunda onda de contaminação.

        

Fonte: ExAnte Data


Ou seja, como sempre, seguimos ao sabor das notícias. Hoje, um bom trader pode ser confundido com uma bela mistura de epidemiologista e economista.


E, mesmo estando certo sobre o ritmo da doença, ainda corre o risco de ser surpreendido pela imprevisibilidade do mercado  exatamente como vimos na sexta-feira.


Eu não sou nem um, nem outro. Sou um péssimo trader e nunca "pisei um pé" em uma faculdade de Medicina.


Então, nessa impossibilidade de saber sobre a epidemia, para entender como ela afeta o mercado financeiro, resolvi trilhar um caminho mais fácil, focado em entender as empresas.


Até porque, o valor das companhias é muito menos suscetível a narrativas diárias. Aqui estamos falando de modelos de negócio, barreiras de entrada, vantagens competitivas etc.


Nada disso muda overnight. São construções de décadas que custam a serem alteradas.


Então, eis o meu primeiro recado a você: deixe o mercado viver de histórias, e não você.


Viva de analisar e entender empresas.

R2: Bolsa é para sempre


Reconheço que é frustrante essa inabilidade de não entender os micromovimentos do mercado. Eu adoraria saber os momentos exatos de reduzir e aumentar meu investimentos em bolsa, como na bela sinfonia de uma canção.


Entretanto, a verdade é que eu não sei. Muitas vezes acabamos acertando esses movimentos mais ao sabor do acaso, do que com alguma técnica pré-definida.


Neste nosso mercado volátil e incerto, busco balizar minhas decisões com base em alguns preceitos. Citarei quatro deles.


A primeira é que não existe a opção de ter ações hoje e não ter mais amanhã. É impossível querer aproveitar somente os bons momentos de mercado sem, eventualmente, estar exposto a algum sofrimento devido à volatilidade de curto prazo.


O fato é que todo dia é um teste cardíaco. Entretanto, é preciso entender o seguinte: bolsa é para sempre, passando por dias de alegria e de tristeza.


O máximo que você pode fazer  para tolerar os momentos difíceis   é ajustar seu portfólio de acordo com o seu estômago.


Essa é a segunda ideia, e aqui é importante deixar claro uma coisa: você não vai acertar o ponto certo de realocação.


Às vezes, pela ganância de estar ganhando, você não irá reduzir as posições e verá o mercado derreter na sua cara logo em seguida. Alternativamente, ao vender alguma posição, terá o remorso de ter feito muito cedo.


Será sempre pouco confortável. Porém, assim como eu, talvez você aprenda a viver melhor com isso ao longo dos anos.


Aqui na Nord, dado as restrições legais e de compliance, rebalancear a carteira é uma tarefa um tanto quanto complicada (é preciso respeitar uma série de regras para comprar e vender ações que são objeto de recomendação). Essencialmente, a maneira que encontrei para fazer isso é adicionar caixa.


A terceira ideia é de que não existe pressa para comprar.


Nós sabemos que, quando o mercado entra em rally, o FOMO (Fear os missing out — medo de ficar de fora) começa a falar mais alto e temos vontade de ligar o home broker para ir às compras


Eu entendo isso, de verdade. Não queremos perder as potenciais altas.


Porém, todo dia existe alguma oportunidade. É verdade que elas são mais abundantes quando o mercado está à beira dos 60 mil pontos, do que hoje aos 90 mil.


Mas elas sempre existem. Então, não caia nessa história de oportunidades imperdíveis.


E, por útimo, mas não menos importante, compre quando a bolsa cai. Essa talvez seja a frase que é muito mais fácil de ser dita do que executada.


Quando o mercado cai, o medo geralmente te paralisa. Vale tanto para você, quanto para o gestor experiente.


É difícil ter a serenidade de olhar seu portfólio recuar 50 por cento e, mesmo assim, ter apetite para ir às compras.


Ainda assim, faça-o. Aproveite o momento para comprar aquelas empresas que sempre quis, mas o mercado nunca te deu oportunidade.


Na minha visão, essa era uma das grandes diferenças que separavam tubarões de sardinhas neste nosso micro-oceano que é o mercado brasileiro.


Tenho certeza de que, se você fizer isso, no final sairá vitorioso.


De uma sardinha para a outra


De uma sardinha para a outra: eu espero ter ajudado hoje.


Investir em bolsa é um aprendizado diário, sem data para expirar. É uma construção de longo prazo, focada em olhar anos — e não dias ou semanas.


Será desconfortável, mas totalmente tolerável, se você tiver uma alocação em ações bem definida.


Além disso, não sabemos o que virá pela frente e tampouco tentamos prever. Entender isso já retira grande parte das armadilhas do mercado.


O que buscamos fazer é entender os negócios profundamente e comprar boas empresas que estão em preço de liquidação.


Saiba também que não existe oportunidade única e imperdível. O mercado está aberto todo dia, com oportunidades aparecendo a todo momento.


E, quando a próxima crise vier, tenha serenidade de comprar. Be greedy when others are fearful (seja ganancioso quando os outros têm medo).


Por fim, saiba que será difícil. Entretanto, será muito mais fácil ultrapassar esses momentos se você tiver o acompanhamento certo.


Com o Bruce na série O Investidor de Valor, você terá isso. Com um bom histórico, ele também te ajudará a se tornar um investidor melhor.


E, sem dúvidas, isso tem mais valor do que você pode imaginar.


Espero que entenda isso.


Um ótimo domingo a todos.


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por Luiz Felippo
em 14/06/2020 para Nord Insights

Iniciou sua carreira num projeto de renda fixa do Insper com o BTG Pactual. Posteriormente atuou na área de pesquisa econômica internacional do Itaú Asset Management e foi analista de Renda Fixa da Empiricus Research. Formou-se Economista no Insper.

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