BC vai cortar a Selic?

 O mercado só pede menos juros porque tudo está tranquilo

Surpresas constantes

No início de 2018, os economistas colaboradores do Boletim Focus esperavam um crescimento para o ano de 2,69 por cento. Recentemente tivemos a divulgação oficial, e a alta ficou em apenas 1,1 por cento.

Para 2019, o mercado esperava alta de 2,58 por cento no final do ano passado. Agora, as projeções já caíram para 2,28 por cento.

Os seja, os economistas não param de se surpreender com uma atividade mais fraca que o esperado.


A inflação está morta


A inflação, por outro lado, parecia mostrar uma certa aceleração, principalmente de serviços. Os dados do IPCA de fevereiro, divulgados ontem, foram inclusive acima do esperado (0,43 atual vs 0,38 esperado).

Quem olha os números de forma superficial poderia até achar que isso confirma a tese de re-aceleração… mas não, não é por aí: olhando por dentro, podemos enterrar de vez a preocupação com inflação.

Todas as medidas de núcleo (quando se tira efeitos atípicos) mostraram queda forte em relação ao mês anterior. O núcleo de serviços (que é mais sensível à atividade) deu um show, caindo de 0,51 para 0,39 por cento.

Novas quedas para a Selic?

Tudo isso acendeu um alerta na cabeça dos economistas, que agora vocalizam com maior fervor uma necessidade de novas quedas na Selic. Os números que vi giravam em torno de 5,5 por cento.

Semana que vem teremos uma reunião do Copom, onde o novo presidente Roberto Campos estará pela primeira vez comandando o Show. E aí vem a dúvida: será que ele vai reduzir a Selic? Será que teremos essa surpresa para baixo, impactando fortemente a curva de juros, e beneficiando os títulos públicos? Será que eu, investidor, deveria me posicionar para isso?

Minha visão é que NÃO!


Questão de credibilidade

O sistema de metas de inflação, para ser crível, precisa de um arcabouço técnico no qual os economistas entendam a função de reação do Banco Central.

Traduzindo: a autoridade monetária não pode subir ou cortar a Selic quando quer; os modelos de projeção da inflação precisam indicar que há necessidade da Selic cair para que a inflação retorne à meta.

E o que os modelos mostram hoje?

Na última ata, os modelos do BC mostravam que, se a Selic permanecesse estável para sempre, a inflação seria abaixo de 4 por cento em 2019 (e, portanto, abaixo da meta de 4,25), porém em 2020 ela estaria cravada na meta (que cai para 4 por cento), e cravada também nos anos subsequentes (cuja meta cai ainda mais para 3,75).

Além disso, a política monetária demora cerca de 6 trimestres para fazer seu maior efeito, o que significa que para influenciar a inflação de 2019, o BC teria que fazer um grande esforço. E será que vale a pena esse esforço de levá-la para 4,25, para ter que depois baixar a inflação de volta para 4, e seguir com ela cadente até a meta de 3,75?

Não seria melhor continuar com números baixos, de tal forma que pudéssemos continuar a reduzir as futuras metas de inflação para patamares razoáveis como 3 por cento?


Por que não botar no Focus?


O argumento que ouvi ontem de economistas (que respeito enormemente) é que essas projeções do modelo do BC consideram um crescimento de 2,4 por cento, o que seria muito otimista. Mas o próprio Focus, que resume à opinião da média dos economistas, tem crescimento de 2,28 por cento - o que não está muito distante do número do BC.

Além disso, o Focus espera inflação na meta de 2020 para frente, com Selic subindo até os 8 por cento no ano que vem.

Veja só isso! Como o BC pode reduzir a Selic, sem impactar expectativas, se o mercado coloca uma necessidade de subir a Selic até incríveis 8 por cento para controlar a inflação?

Se o mercado acha mesmo que há uma necessidade de redução de Selic, por que não começa colocando isso no Focus?


Não é papel do BC arriscar


O BC não pode arriscar. Ainda mais com a reforma da previdência com risco de não passar. Se ela não passa, o juro no Brasil é outro. Bem mais alto.

O BC só pode reduzir Selic quando o modelo dele indicar que as projeções estão abaixo das metas de inflação para projeções futuras.


Por isso que temos que acompanhar de perto essa próxima reunião, e a evolução das projeções do modelo do BC.

Mas acho muito pouco provável que ele faça algum movimento já nesta reunião. O mercado acharia o novo presidente um maluco. Afinal, no seu primeiro discurso no Senado ele reforçou a mensagem de cautela e perseverança.


Se fosse eu...


Na minha visão, uma queda da Selic agora colocaria um risco desnecessário da curva de juros inclinar ainda mais nos vértices longos (o que prejudica a atividade ao invés de ajudar).

Se eu fosse a nova presidente (quem sou eu, né? Mas...) indicaria que o gato subiu no telhado, revisaria o PIB para baixo, mostraria que a projeção de inflação caiu e que corremos o risco de desancorar as metas futuras para baixo, e daí sim pavimentaria a discussão de queda da Selic para as próximas reuniões - e veja bem: digo “discussão” porque não é óbvio que isso seja suficiente para garantir uma queda.

Estamos clamando por menos Selic porque o mercado está tranquilo. Se estoura qualquer notícia de escândalo de corrupção a la Joesley Day, a previdência já era; o mercado entra em modo explosivo, e bye bye queda de juros.

Como é que o BC poderia correr um risco desses?

Em observância à ICVM 598, declaro que as recomendações constantes no presente relatório de análise refletem única e exclusivamente minhas opiniões pessoais e foram elaboradas de forma independente e autônoma.

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por Marilia Fontes
em 13/03/2019 para Nord Insights

Possui 10 anos de experiência de mercado financeiro. Antes de fundar a Nord Research passou pelas assets do Itaú, Mauá e Kondor, além de analista da renda fixa da Empiricus Research. Formou-se mestre em Economia pelo Insper.

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