Banho de Sangue

O mercado ontem foi um verdadeiro banho de sangue.

Por conta da desvalorização cambial da China, como resposta à tarifa comercial de 10 por cento imposta pelos EUA, os investidores de todo o globo ficaram muito receosos em pensar até onde essa briga vai dar.


A Bolsa brasileira caiu 2,5 por cento, enquanto a bolsa americana caiu incríveis 2,9 por cento. Os juros longos brasileiros subiram cerca de 12 bps, e o real se desvalorizou 2,2 por cento, voltando para níveis próximos ao último pico de maio.


O mercado terminou com os EUA decretando oficialmente a China como "manipulador de moeda", o que permite uma série de novas sanções mais maldosas.  


Afinal, a China deixou claro que não funciona aumentar tarifas contra seus produtos, uma vez que o país desvaloriza sua moeda na mesma proporção.  


Até onde isso vai? É a pergunta que permanece na cabeça de todos os gestores.


Bom para reflexão


O "barata-voa" nos mercados (expressão utilizada nas mesas de operações para descrever dias tensos como o de ontem) é sempre muito bom para nos lembrar que mercados chacoalham.


Da última vez que fiz uma live sobre o momento atual e a bolsa, a muitos dos participantes falavam orgulhosamente que tinham 100 por cento do seu patrimônio investido em bolsa.


Meu coração começa a palpitar quando alguém me diz uma coisa dessas.


Eu sou filha de "bear market" (mercado em queda).


Entrei no mercado em julho de 2008, no dia exato que o Brasil ganhou grau de investimento. A mesa de operações comemorava fervorosamente o evento. Eu achei que mercado financeiro seria uma coisa muito feliz e divertida!


Eu fiz o ponto máximo da bolsa para os 10 anos seguintes. Depois disso foi crise após crise.


Eu nunca tinha visto um mercado consistente de alta como o recente. Com novos patamares de altas consistentes.


Para mim, um bom multimercado sempre ganhou dinheiro com juros e câmbio, e analistas de ações era aquele cara que ficava sentado no fundinho da asset, tímido.


Desde o impeachment da Dilma o Brasil mudou!


Agora temos um país mais liberal, que promove reformas importantes e críveis. Que tem potencial para atrair muitos recursos e investimentos. Que possui juros baixos e inflação controlada. Agora temos um país onde a Bolsa sobe!


Mais que isso, agora temos um Bull Market (mercado em alta)!


Um país onde contratar um analista de ações se tornou uma missão impossível e extremamente custosa.


Um país onde teses de investimento fantasiosas e esperançosas ganham novamente os holofotes de mercado e viram as queridinhas.


Um país onde a palavra mais dita nos corredores da Faria Lima é "disruptivo".


Um país onde as empresas não se conformam em fazer o que fazem de melhor, mas colocam seu foco em desbravar novas áreas de investimento.


Um país no qual até empresa quebrada sobe absurdamente na bolsa.


Legal! Estou adorando ver a carteira de investimentos das pessoas deslanchar. E claro que a bolsa subindo nos ajuda muito a tirar os investidores de produtos ruins em bancos, e fazê-los tentar coisas novas e mais rentáveis.  


Mas não podemos nunca esquecer que isso aqui é Brasil. E o líder mundial é o Donald Trump. Estamos em um mundo onde 1 tuíte é capaz de derrubar o S&P em 3 por cento.


Ou seja: cuidado! Muito cuidado!


Cuidado com teses muito malucas. Cuidado com novas modas do mercado do tipo "a onda agora é: empresas que não dão lucro".


Tem coisas que mudam, tem coisas que se renovam, mas tem outras coisas que nunca vão mudar.


No meio de um bear market (mercado em queda), só sobrevivem as empresas mais sólidas, mais consistentes, mais lucrativas.


No bear market o financiamento para testes em "empresas disruptivas" seca! E seca rápido.


Todos se voltam para aquilo que sabem fazer melhor, e discartam os testes.


O seu patrimônio é algo valioso demais para se colocar em risco demasiado. Ele representa a sua liberdade financeira. Que não pode depender de 1 tuíte.


Às vezes, ganhar menos faz parte. Você não será o mais popular do clube, você não vai dar as dicas mais quentes do fórum. Mas você pode ser o único que se manteve vivo, no jogo, até o final.


E sabe o que dizem sobre quem rí por último, não é mesmo?


Por fim, a ata!


Hoje foi divulgada a ata do Copom, descrevendo melhor a última decisão de política monetária.


Os membros do comitê passaram bastante tempo discutindo juro neutro.


O juro neutro é aquele que, quando vigente, não acelera nem desacelera a inflação.


Se a Selic estiver abaixo do juro neutro, ela tende a estimular a economia e pressionar a inflação para cima.


O Banco Central diz acreditar que a Selic atual está abaixo do juro neutro, e portanto é estimulativa – o que muitos economistas não concordam. Mas que acredita também que teve que ser feito um ajuste do grau de estímulo, ou seja, não estava tão estimulativa quanto necessário.


Por isso que tivemos a queda de 50 bps, além do comunicado de que caberia mais uma queda de 50 bps.


Só que mais do que isso. O BC também diz que a Reforma da Previdência poderia reduzir o juro neutro, pela queda de prêmio de risco.


Eu particularmente fiquei sem entender se isso já foi levado em conta neste ajuste atual do grau de estímulo ou se isso significaria que o espaço posterior para queda de juros poderia ser bem maior.


Mas o mercado pode entender isso como "dove" (mais leniente com juros).


Vamos ficar de olho!

Em observância à ICVM 598, declaro que as recomendações constantes no presente relatório de análise refletem única e exclusivamente minhas opiniões pessoais e foram elaboradas de forma independente e autônoma.

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por Marilia Fontes
em 06/08/2019 para Nord Insights

Possui 11 anos de experiência de mercado financeiro. Antes de fundar a Nord Research passou pelas assets do Itaú, Mauá e Kondor, além de analista da renda fixa da Empiricus Research. Formou-se mestre em Economia pelo Insper.

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