As medidas invisíveis do Governo Bolsonaro

A despeito dos ruídos, avançamos silenciosamente.

Saudações.

Cá estamos mais uma vez para refletir sobre a semana no Planalto Central. E, talvez, essa reflexão se faça mais necessária do que nunca, logo após uma sexta-feira conturbada por conta da turma de Brasília.

Seguimos na missão de ir além do óbvio e superficial - para isso, já temos os jornais e os sites caça-clique. Neste domingo, Marize Schons dedica sua coluna às medidas em curso pelo governo que, silenciosamente, semeiam um longo prazo melhor para todos nós.

Acompanhe:






Narrativas consistem no discurso que expressa e organiza uma série de acontecimentos encadeados, contemplando eventos que podem ser fictícios ou reais - mas não por isso consensuais.

No último sábado estive em Porto Alegre, minha cidade natal, para proferir uma palestra na IV Conferência Atlantos, que funciona como um pré-evento ao Fórum da Liberdade - um dos eventos mais antigos do pensamento liberal do País.

A Conferência deste ano teve como tema as Guerras de Narrativas, na tentativa de discutir nosso mal estar cotidiano diante das percepções catastróficas e apocalípticas que se amplificam no debate público. Essa imagem de que “nunca vivemos tão mal” atinge temas tão diversos quanto impactos ambientais, instabilidades políticas e crises econômicas.

A conclusão? É muito difícil separar informação de ruído, e temos que aprender a conviver com explicações sobre o mundo que se contradizem.

Narrar é contar uma história - isso não significa, necessariamente, mentir ou manipular. E, dentro de um contexto de volume absurdo de informação, narrar se torna uma capacidade intelectual e linguística poderosa.

Isso acontece porque os “fatos”, por si só, não explicam nada. Se assim fosse, muitas coisas seriam mais fáceis - seja a Reforma da Previdência ou um processo de divórcio. Eu mesma não estaria aqui, oferecendo uma narrativa sobre a conjuntura política do Brasil.

Completados 100 dias de Governo Bolsonaro, eu aponto alguns pontos centrais:

Primeiro, a Reforma da Previdência é o principal projeto para o ano de 2019, e as controvérsias ou informações produzidas em torno das incertezas sobre sua aprovação (ou desidratação) são as variáveis mais importantes para entender as reações do mercado.

E segundo: os papéis da mídia e das redes sociais são elementos imprescindíveis para compreender a dinâmica do mercado e a política nessa Nova Era. E, por esse motivo, a busca pela excepcionalidade no cotidiano de um governo novo, que emergiu diante uma crise política e econômica com uma recuperação econômica como principal promessa, possui uma demanda considerável e corresponde a expectativas gigantescas.

Ninguém aguenta mais. E quanto mais incerto parecer o presente, mais tentamos controlar e prever o futuro - o que é compreensível numa visão de mundo abrangente que busca segurança e estabilidade.

Dessa forma, as especulações (e desconfianças) sobre os caminhos do Governo Bolsonaro são diversas.

Por um lado, uns acreditam que as ações do Executivo têm sido extremamente disruptivas - isto é, estabelecendo um cotidiano apocalíptico ou de desordem no sistema político nacional. Essa versão dos fatos dá a entender que, antes de Bolsonaro. vivíamos um processo de estabilidade política rompido pelo novo governo.

Fake: sabemos muito bem que o resultado das  eleições é produto das crises anteriores e que, vencesse quem vencesse a eleição, acabaria se tornando uma das únicas esperanças para “sairmos dessa”.

Essa percepção corresponde tanto a críticas à própria personalidade do Presidente e seus aliados, quanto até a explicações mais estruturais de embates ideológicos que acontecem no Brasil e no mundo.

Por outro lado, erros concretos em torno de pastas centrais do Governo Federal, como o Ministério da Educação, contribuem para esse tipo de análise.

Entretanto, outra narrativa paradoxal coexiste: segundo um outro ponto de vista, o Governo estaria amorfo e perdido. Alguns dizem que a centralidade da Previdência esconde, ou deixa de lado, outras agendas que seriam importantes. Outros se mostram convictos de que nem mesmo a Previdência está sendo bem conduzida por um governo que “não sabe o que fazer”.

O atraso na votação da Reforma - como eu já disse, projeto central do ano 2019 -, contribui para a percepção que “nada está sendo feito”, já que o projeto “mais importante” está em constante “provação” e precisa ser resiliente às dinâmicas políticas.

Outra questão emerge da natural discrepância entre as expectativas de rápida retomada e a natureza estruturante das medidas em curso:o “Tempo da República” é muito diferente do tempo dos nossos desejos.

Essas diferentes versões não nos colocam na obrigação de ter que decidir qual delas está absolutamente correta. Pelo contrário, meu conselho é ser prudente quanto aos diagnósticos que estabilizam a percepção do mercado e da política: muitos processos estão ocorrendo sem que sequer os percebamos.

Isto é, não vamos enterrar o paciente vivo.

Pois bem: meu objetivo, aqui, é não corresponder à interpretação ordinária da política. E, por isso, produzir um conteúdo mais analitico que tenha tempo - diferente da notícia, que precisa ser produzida imediatamente - de perceber elementos que passaram batidos na produção da informação ou de proporcionar outras possibilidades de interpretação dos fatos.

O ceticismo é um compromisso, e por isso estou em constante dúvida. Se eu tenho alguma certeza é que não é possível compreender a totalidade do real, mas que é meu papel trazer elementos que não tiveram atenção daqueles que produzem informação abrangente.

Sou cética quanto ao catastrofismo e também em relação à sensação de marasmo. Não por ser otimista com políticos - como já afirmei, sou muito cínica para acreditar em “um mundo melhor produzido pela política” -, mas por entender que é a dúvida que nos aproxima da Verdade, não a certeza.

A dúvida me levou a questionar: quais seriam algumas das medidas invisíveis  (ou que recebem pouca atenção), destes últimos 3 meses de governo, mas que impactam (e muito) nossa economia e que fazem parte desse esforço para a recuperação?.

A narrativa de que o Governo nada fez escondeu conquistas silenciosas, como 23 leilões de concessões que contemplaram, não só aeroportos como de praxe, mas até mesmo ferrovias que representavam projetos parados há mais de uma década, e constituem  um passo importante para a ampliação da participação do modal ferroviário na matriz de transportes do Brasil.

Essas medidas do PPI (Programa de Parcerias e Investimentos, herança do governo Temer), também contemplarão portos, e está previsto que novos editais sejam lançados nas próximas semanas - como o começo do estudo de desestatização da Companhia Docas.

Para alguns, as medidas de privatizações não negativas. Porém, quem sabe a situação da infraestrutura do Brasil e compreende o impacto que iniciativas assim têm sobre a produtividade e o quanto medidas imediatistas e muito centralizadas no investimento estatal nos levaram a decisões equivocadas reconhece a importância do PPI.

A venda de ações da Eletrobrás também está em intensa discussão - tendo em vista que limitações judiciais se impuseram - e segue na agenda deste semestre.

No plano das ações em favor da liberdade econômica e da desburocratização, temos um pacote de flexibilização sendo produzido pelo Ministério da Economia, bem como a inovação do documento de identidade único a partir de julho.

E, talvez, a melhor notícia da semana: a assinatura do presidente ao projeto de autonomia do Banco Central, que será levado ao Congresso.

Na mesma ocasião, mais 17 projetos foram apresentados, parte do revogaço” que pretende eliminar 250 normas vigentes de eficácia duvidosa.

Portanto, uma semana de boas notícias e novas expectativas.

Ok, também teve treta forte na reunião da CCJ sobre a Previdência. Mas vamos falar de coisa boa, né? Só por essa semana vamos falar da Tekpix…






Aos que estranharam a ausência de qualquer menção às presepadas de sexta-feira, esclareço que Marize não está fazendo vista grossa à postura de Bolsonaro em relação à política de preços da Petrobras: este texto foi fechado na quinta-feira.

Lembrete importante de que, no mundo da política e do mercado, a todo momento tem coisa nova acontecendo - e isso faz preço na tela do homebroker.

O fato de fazer o mercado chacoalhar, entretanto, tem pouco (ou nada) a ver com os fundamentos do mundo real. Faço aqui, novamente, referência à live que fizemos - Renato Breia e eu - na última quinta-feira. Se você não assistiu, assista.

Não perca jamais de vista: para além dos ruídos do curto prazo, as ações da Bolsa estão fadadas a responder a não outra coisa, senão a evolução de seus lucros - e tenha certeza que as medidas estruturantes que estão, silenciosamente, sendo implementadas hão de ajudar - e muito - no longo prazo de muitas das empresas listadas na B3.

Isso é muito, muitíssimo mais importante do que a treta da vez no Planalto Central. E é a isso que estamos atentos - Bruce, n’O Investidor de Valor; Renato e Luiz, no Nord Wealth e este que vos fala no Nord Dividendos.

Continue conosco.

Em observância à ICVM 598, declaro que as recomendações constantes no presente relatório de análise refletem única e exclusivamente minhas opiniões pessoais e foram elaboradas de forma independente e autônoma.

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por Ricardo Schweitzer
em 14/04/2019 para Nord Insights

Possui 12 anos de experiência no mercado financeiro. Antes de fundar a Nord Research passou Adviser Asset, Fundação CEEE, Sicredi Asset, Votorantim Corretora e Empiricus Research. Formou-se economista pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

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