As 3 bolsas brasileiras

Maio: que mês, hein!

Um festival de altas

Maio: que mês, hein!


Nunca critiquei. O quinto mês do ano que, tradicionalmente, é um terror para os investidores, finalmente nos deu alguma alegria.


Ah! É tão bom sentir aquele cheirinho de bolsas subindo, misturado com a sensação de bull market no ar.


Confesso que já estava sentindo falta.


Mas fato é: a recuperação dos mercados vem bem antes disso. Desde que as bolsas atingiram seu pior momento, ao final de março, vimos um belo "rali" das bolsas globais.


É um verdadeiro festival de altas. A bolsa americana sobe 35 por cento desde o fundo do poço, com o S&P recuperando grande parte das perdas causadas pela crise da pandemia. A Europa sobe, em média, mais de 20 por cento.


Mercados emergentes também não ficam atrás, com 21 por cento de alta e liderados, essencialmente, pelos países asiáticos.


Tudo isso parece ser um reflexo do achatamento das curvas de contágio e o começo do processo de uma abertura gradual das economias.


Mas, claro, o mercado já vinha antecipando tudo isso. A grande bola da vez, talvez, tenha sido a falta de reincidência nos casos conforme saímos das nossas quarentenas  risco que o mercado colocava na conta com bastante força.


Por aqui, mesmo sem um controle efetivo da pandemia, o Ibovespa já observa tudo isso, colocando no preço uma recuperação mais tranquila, dada a experiência internacional e uma calmaria em Brasília.


Agora, mesmo que timidamente, voltamos a escutar os "burburinhos" e as intenções por parte dos investidores de comprar bolsa, mas sempre acompanhadas de questionamentos sobre os preços atuais.


A eles, digo o seguinte: há muita história por trás de um simples índice de mercado.

A briga de dois mundos


Em meio à quarentena, quase todos estamos despertando um pouco do chef de cozinha que existe em nós. Alguns com mais sucesso, outros com menos.


Em algum momento deste isolamento, tentei colocar minhas habilidades à prova ao fazer uma panqueca. Particularmente, adoro elas, ainda mais se envolver uma grande e deliciosa porção de Nutella.


Por mais que eu achasse que seria difícil, a realidade é que não há muitos segredos em fazer a massa. Tudo acaba se resumindo a você juntar ovos, leite e farinha de trigo.


Com as medidas certas, jogue tudo isso no seu liquidificador e pronto! Em poucos segundos terá uma mistura de cor estranha, resultado dos três ingredientes que se dissolveram ali.


Ao olhar dentro do recipiente tudo parece uma grande "gororoba", onde é impossível distinguir o que era inicialmente.


Índices de mercado são como essas massas, uma grande "massaroca". São o resultado da mistura de diversas ações.


O famoso S&P é uma média das quinhentas maiores empresas americanas. Então, quando se diz que a bolsa americana está caindo, apenas, 7 por cento no ano, é dessa média de 500 ações que se está falando.


Agora, isso não quer dizer que todas as 500 empresas estão caindo este valor no ano, mas o conjunto completo delas.


Apesar de parecer óbvio, isso precisa estar bastante claro.


Digo isso porque, ao olhar o índice americano, essa afirmação se torna ainda ainda mais verdadeira. Dentro das 500 empresas, você tem uma briga forte entre dois mundos: a nova e a velha economia.


Fonte: Bloomberg e Nord Research

Fonte: Bloomberg e Nord Research


Ao olharmos o “S&P das tech companies”, consolidadas pelo anacrônico FAAMG (Facebook, Apple, Amazon, Microsoft e Google), o mercado vai muito bem obrigado, subindo 16 por cento no ano, em média.


A situação está até melhor do que antes, como se nunca tivesse ocorrido uma crise, como aconteceu poucos meses atrás.


Entretanto, olhando o restante das 495 empresas do índice, a situação é bem pior. Uma queda de -20 por cento no ano.


Aqui, as empresas ainda amarguram as sequelas do isolamento.  


Ou seja, por íncrivel que pareça, o resultado extraordinário de recuperação do mercado americano é resultado de cinco empresas.


Incrível, não é mesmo? Então, você tem certeza de que toda a bolsa americana está cara? Eu não teria tanta certeza assim.


Enquanto isso, em terras tupiniquins, algo parecido parece estar acontecendo

As quatro bolsas brasileiras


Por aqui, ainda que não tenhamos as nossas FAAMGs puxando a bolsa para cima, temos uma versão tupiniquim.


Os atores, sem dúvidas, são diferentes, mas a disparidade de resultados entre os segmentos é a mesma.


De forma geral, nós temos três grandes setores na bolsa do Brasil: o de commodities, o de empresas do segmento financeiro e o de consumo.


E, durante essa recuperação do mercado, cada um deles se comportou de uma forma completamente diferente dos demais.


Se considerarmos como ponto de partida os 63 mil pontos, menor valor atingido pelo Ibovespa durante a tempestade no mês de março, eis o caminho que cada um deles percorreu até hoje:


Fonte: Economatica e Nord Research

Fonte: Economatica e Nord Research



Com a alta do dólar, a bolsa de commodities foi o grande motor do mercado. Esse grupo subiu nada menos do que 65 por cento, e já teria ultrapassado os 100 mil pontos.


Em segundo lugar, mesmo com os efeitos terríveis das políticas de isolamento sobre a economia, temos o “Ibovespa do consumo”, subindo algo como 40 por cento nessa recuperação.


Aqui, a discrepância de resultado é ainda maior. A disputa entre o mundo on-line e off-line vem causando uma heterogeneidade gigantesca no resultado das ações.


Empresas que possuem alguma presença on-line, como Magazine Luiza, Via varejo e B2W, estão dobrando, ou até triplicando de preço no período.


Enquanto isso, nos segmentos tradicionais de varejo, com empresas como: Hering, Ambev, Sonae Sierra, Multiplan estão subindo algo entre 10 e 15 por cento.


Por fim, mas não menos importante, o patinho feio: o setor financeiro. Nessa recuperação, esse foi o segmento mais esquecido da bolsa, com dificuldade de quebrar a barreira de sair da banda dos 70 mil pontos.


As razões podem ser múltiplas, desde as possibilidades de aumento da CSLL, as tentativas de criar teto ao juros do cheque especial, a competição das fintechs, as incertezas de inadimplência… você pode escolher. O fato é que o segmento ainda amargura -40 por cento de queda no ano.


Ou seja, mesmo com 73 empresas no índice, existem várias bolsas dentro do Ibovespa.


Todos esses exemplos são para lhe dizer algo muito simples: esqueça o índice. A única conclusão que você tirará de lá é a de que entrou menos confuso do que saiu, sem ter lhe agregado muito.


Ao olhar daqui cinco anos, o sucesso nos seus investimentos em ações estará pautado na sua capacidade de selecionar as melhores hoje.


Empresas que, nestes momentos de adversidade, crescerão em cima de seus concorrentes e ganharão espaço no mercado. Companhias com bons retornos sobre o capital, balanços fortes e uma gestão que saiba alocar dinheiro de maneira inteligente.


E, claro, tudo isso sem que você pague preços exorbitantes para ter acesso aos seus resultados, de forma que tenha sempre aquela boa e velha margem de segurança.


A força do stock picking


Resumindo a nossa história de hoje: mais uma vez, será o stock picking quem fará a diferença.


Sem o "vento de cauda" para ajudar o investidor, quem souber escolher os cavalos certos terá resultados muito superiores a todos os outros.


Esse será o grande definidor entre vencer e perder para a bolsa nos próximos anos. A cada dia que passa, tenho mais certeza disso.


Então, deixe o índice de lado, pois quanto mais olhar para ele, maiores as chances de deixar passar uma grande oportunidade por achar o mercado potencialmente “caro”.


Há um mundo a se explorar além de olhar o índice. Foque nas empresas, em encontrar aquelas que são as grandes vencedoras no longo prazo.


Faça isso e, quem sabe, em alguns anos, você venha nos contar a sua experiência.


Te aguardo. Até lá!


Abraços


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por Luiz Felippo
em 31/05/2020 para Nord Insights

Iniciou sua carreira num projeto de renda fixa do Insper com o BTG Pactual. Posteriormente atuou na área de pesquisa econômica internacional do Itaú Asset Management e foi analista de Renda Fixa da Empiricus Research. Formou-se Economista no Insper.

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