As 3 âncoras que seguram o Ibovespa

Uma eternidade a 100 mil

Em meio ao estresse do dia a dia, algo que sempre me ajudou a relaxar foi praticar corrida. Em tempos quase distantes, onde não tínhamos o distanciamento social, eu aproveitava os domingos pela manhã para correr no parque.


Era maravilhoso. Aquelas pequena doses de endorfina realmente tinham um poder verdadeiramente milagroso.


Não sou um grande entendedor de corridas, mas elas parecem que dão um restart na sua mente — ajudando a começar a semana de mente limpa.


Naturalmente, assim como 99 por cento das pessoas, no meio da quarentena parei totalmente de me exercitar. Aos poucos, com a flexibilização da quarentena, tenho buscado voltar a praticar o esporte.


Mas não é a mesma coisa. A performance é diferente, bem como nossa resistência e fôlego. Todo esse tempo que fiquei parado foi o suficiente para acabar com o meu condicionamento.


Decidi, então, que preciso recuperar meu preparo. Procurando no Google formas de alcançar esse objetivo, encontrei um exercício que consistia em amarrar um elástico na cintura e correr — o que potencialmente melhoraria a sua resistência.


Ao fazer isso, mesmo fazendo grande força, você segue parado no mesmo lugar.


Confesso que achei interessante, não só pelo exercício em si, mas porque aquela analogia de não sair do lugar me lembrou um pouco a nossa bolsa hoje em dia.


Desde meados de julho, estacionamos ao redor dos 100 mil pontos. Não saímos desse patamar por nada, hora chegando na euforia dos 105 mil, hora na tristeza dos 97 mil.



Mas, claro, sempre sem se deslocar muito do ponto original. Lembrou-me daquela velha corda, resistindo ao impulso do corredor.


Quando penso nisso, três fatores podem estar segurando a nossa bolsa. Vamos falar um pouco de cada um.

Âncora 1: o espírito Populista


A primeira grande âncora da nossa bolsa é a parte fiscal.


A história brasileira sempre foi marcada por excesso de gasto público, com alguns pequenos capítulos de austeridade no meio do caminho.


Após uma longa jornada de expansão da máquina pública nos governos Lula e Dilma, nos últimos quatro anos conseguimos resgatar o espírito de controle dos gastos.


Fizemos reformas importantes, como a Previdência e o Teto de Gastos, ambas trazendo solvência à nossa dívida.


Entretanto, ao menor sinal de fraqueza da agenda, parece que o espírito populista de nossos políticos está sempre pronto para atacar.


A pandemia ofereceu a oportunidade perfeita para isso, uma vez que a PEC do Orçamento de Guerra já havia aberto o precedente para o descumprimento do teto.


A popularidade adquirida por meio dos gastos de combate ao coronavírus parece ter aberto o apetite dos nossos políticos por mais farra fiscal. Seja dentro ou fora do governo, pouco a pouco as pressões para furar o teto de gastos foram crescendo — com o próprio presidente fornecendo indiretas sobre o assunto.


Nesse meio do caminho, o Senado aprovou um reajuste ao salário do funcionalismo. O momento não poderia ser pior.



Felizmente, a câmara não foi em frente na derrubada do veto. Ainda assim, vemos que os velhos gestos populistas seguem presentes.


O último guardião do orçamento é o próprio Guedes.


O mercado já deu o recado: não será patriota como quer Bolsonaro. Sem ordenação das contas públicas, o nosso caminho deve ser bem mais sombrio para a economia e para a bolsa.


E enquanto o medo sobre o futuro fiscal pairar no ar, a bolsa não vai deslanchar.

Âncora 2: Avante Bancos!


A segunda âncora parece ser os bancos.


Após a tempestade de março, culminando na queda mais rápida da história brasileira, os meses seguintes foram de redenção.


A nossa bolsa subiu 60 por cento em 5 meses, nos deixando somente a 13 por cento das máximas de fevereiro. Isso é inédito, talvez nunca na história desse país tenhamos visto uma alta tão rápida após uma crise tão profunda.


Ainda assim, os resultados foram bem díspares entre os setores.


Enquanto as ações relativas ao consumo e commodities estão quase recuperando seus valores pré-pandemia — recuando somente 4 e 8 por cento —, os bancos ainda amarguram quedas de 30 por cento.

Fonte: Nord Research e Economatica


Trocando em miúdos: os outros setores foram quem carregaram o Ibovespa até os 100 mil pontos, enquanto os bancos pouco ajudaram.


Alguns vão dizer que isso deixa os bancos ainda mais baratos, mas a falta de visibilidade de resultados está atrapalhando o setor. Para estes, o momento é de promoção.


Outros, mais pessimistas, dirão que é um value trap (armadilha de valor). Que o negócio dos bancos já era.


Por fim, ainda há um terceiro grupo que dirá que a pressão baixista sobre os bancos é global.


Hipóteses não faltam para explicar o desempenho do segmento e deixarei para o Bruce dar o veredicto. Pois essa não é a minha praia.


Mas fato é: eles são quase 20 por cento do índice e sofrem grandes perdas no ano. Sem eles, fica cada vez mais difícil do Ibovespa alçar grandes voos.


Âncora 3: Torcida não ganha jogo


É belíssimo o fenômeno da pessoa física entrando na bolsa. Só em 2020, mais de 1 milhão de pessoas entraram no mercado de ações. Isso é fabuloso, uma conquista a todos os brasileiros e deve ser comemorado, tal qual comemoramos um jogo da Copa do Mundo.


Fonte: B3

Fonte: B3


Em março, as pessoas físicas mostraram que aprenderam com seus erros passados, comprando bolsa enquanto todos corriam pela porta de emergência.


Foi perfeito. Fizeram tudo como deve ser feito.


Aos poucos, o próprio fluxo das pessoas físicas, a recomposição das posições dos fundos e a gigantesca liquidez promovida pelos Banco Centrais mundiais empurraram a bolsa de volta aos 100 mil pontos.


Neste momento, não faltou festa para nós, sardinhas. O Fintwit (expressão usada para determinar as pessoas no Twitter que falam sobre investimentos) ficou em polvorosa com os resultados e o baile dado nos institucionais.


Entretanto, como subproduto da vitória, me parece que o sentimento que prevaleceu é de que basta o fluxo para a bolsa continuar o rali.


Em outras palavras, bastasse convidar todos os amigos para comprar a minha ação favorita que o resultado seria certo.


Isso é sedutor, eu sei, mas igualmente perigoso. O fluxo pode, sim, ser o principal motor dos preços por um curto período de tempo, como tem sido nos últimos meses.


Mas isso não é suficiente. Se os resultados das empresas não acompanharem, tenha certeza que o gringo e o institucional vão desembarcar das ações. Eles fazem conta, não possuem torcida e serão pragmáticos.


Neste momento, não há fluxo de pessoa física que resista a tamanha venda — até porque elas são 26 por cento do volume bolsa, enquanto o institucional e o gringo somam 74.


Fonte: BGC

Fonte: BGC


Então, tenha em mente o seguinte: o fluxo nos trouxe até aqui, mas não nos levará muitos mais à frente.


Bolsa não é uma disputa entre "comprados" e "vendidos". Não se trata de decidir quem é mais forte. Bolsa é expectativa de resultado das empresas.


Com a bolsa (por exemplo PetroRio e Vale) próxima do seu múltiplo pré-crise, precisamos que os resultados das empresas apareçam. Só assim conseguimos justificar os preços vistos até aqui. Esse certamente é o próximo grande movimento do Ibovespa.


Sendo assim,  tenha cautela com seu dinheiro. Se for fazer alocação em ações diretamente, faça, mas com as diligências corretas na hora de escolher as empresas.


Entenda o modelo de negócio, as vantagens competitivas, o impacto da pandemia em seus resultados e, por fim, confronte isso com os preços da ação.


Se estiver exagerando, reduza um pouco. Não há demérito nisso.


Investir em ações é algo altamente lucrativo e imprescindível para o investidor em tempos de juros baixos, mas suas análises precisam ser feitas com seriedade. Caso precise de ajuda, certamente o Bruce ou o Ricardo podem auxiliar nessa missão.


Agora, caso não queira o trabalho de fazer escolhas, terceirize para um gestor profissional. Certamente você irá dormir mais tranquilo à noite e conseguirá belíssimos retornos.


Conte comigo no Nord Fundospara escolher os melhores fundos de investimento do Brasil.


Um abraço,


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por Luiz Felippo
em 23/08/2020 para Nord Insights

Iniciou sua carreira num projeto de renda fixa do Insper com o BTG Pactual. Posteriormente atuou na área de pesquisa econômica internacional do Itaú Asset Management e foi analista de Renda Fixa da Empiricus Research. Formou-se Economista no Insper.

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