Aprendizados de uma crise

Um 2008 para chamar de seu

Um 2008 para chamar de seu

Nada define melhor essa semana do que a expressão: “Que semana meus amigos!”


Em meus grupos de whatsapp, habitado por alguns amigos de mercado, a cada novo dia de circuit breaker eu recebia essa mensagem.


E, de fato, foram momentos intensos. Você teve que passar por quatro circuit breakers, sendo dois deles em um único dia! O quinto só não saiu porque a B3 colocou todos os papéis em leilão na metade do dia.


Só para se ter um comparativo, no auge da crise de 2008, foram um total de seis.



Em momentos como esse, tenho para mim que não vou conseguir tirar nenhuma informação útil olhando fixamente para o home broker ou a cota dos meus fundos.


A única coisa que vou encontrar é o desespero.


O exercício de preparo para as crises começa muito antes dela chegar. Começa quando montamos a nossa alocação e escolhemos nossos gestores.


Aqui é onde fazemos a maior diferença no nosso retorno a longo prazo. Então, fomos eu e o Renato para a cidade maravilhosa atrás deles.


Quando a irracionalidade abre portas para o desconto


Ao contrário do que as pessoas pensam, não fomos ao Rio de Janeiro a passeio ou para tomar água de coco em alguma praia de Ipanema.


Nosso objetivo era simples: conhecer novos gestores e entender como estavam lidando com a situação.


Apesar de estarem todos atônitos, a visão era unânime: o mercado perdeu a referência de preço, fazendo pouca distinção entre os papéis nessa queda.


E, se você observar, eles estão certos. Você tem negócios de altíssima qualidade que caíram em linha com commodities.


Fonte: Economatica


Transmissoras de energia no Nordeste, como a Equatorial, caíram 30 por cento. Bancos tiveram perdas acima disso.


Varejistas sem exposição ao exterior, como Renner, caindo 30 por cento. Locadoras caindo acima de 40 por cento.


Mesmo as commodities, como Petrobras e Vale, aos preços atuais, perpetuavam um cenário apocalíptico para o preço do petróleo e do minério.


Observando bem toda essa história, o gestor resumiu aquele movimento da melhor maneira:


Se tivéssemos tendo essa conversa há dois meses, diria que o mercado de desconto havia acabado. Estava tudo caro, tinha até tirado da nossa apresentação essa frase.

Vou para SP em breve e já mandei colocar de volta, porque ele voltou!”


Na minha cabeça, ele tem toda a razão. Para quem está com o olhar voltado ao longo prazo, esse é um momento ímpar.


A questão é: para estar aqui, você precisa ter sobrevivido.


Risk Management is Key


Sempre é um privilégio poder sentar frente a frente com gestores de mercado. Cada um com a sua visão, mas sempre com muita coisa para lhe ensinar.


Porém, quinta-feira foi um dia muito especial. Conseguimos um tempinho para conversar com o Guilherme Aché, sócio-fundador da Squadra.


Eu já tinha lido uma entrevista dele no livro "Fora da Curva" e tinha achado sensacional, mas estar frente a frente com ele foi de fato, surreal.


A poucos passos de distância, estava ali um gestor de sucesso, com mais de 30 anos de experiência de mercado, tendo nesse período, vivenciado várias crises.


Uma verdadeira lenda. Obviamente, eu tinha muitas perguntas para fazer. Porém, não poderia perder a oportunidade de questionar ele sobre esta crise e o quão importante foi ter sobrevivido por outras cataclismas do mercado como 2008.


A resposta foi a seguinte (não literalmente):


Situações assim te paralisam mesmo, não tem jeito. O playbook já está meio aí. Assim como 2008, crises de liquidez só se resolvem de um jeito: com o Fed absorvendo o mercado. Em resumo, teremos um novo TARP programa de ativos do BC americano feito em 2008 para salvar o sistema financeiro”.


Enquanto eu balançava a cabeça concordando, ele continuava.


“Mesmo assim, a situação hoje é bem diferente. Hoje eu consigo ver que essa crise tem um fim, lá atrás não se tinha essa certeza. Pode até ser que caia mais 20 por cento, mas hoje vejo um final.”


E, antes mesmo que eu pudesse perguntar novamente sobre o que as outras crises ensinaram, ele continuou…


“Risk Management, é isso que as outras crises me ensinaram. Não importa se só existe 1, 2, 5 por cento de probabilidade de um evento acontecer, o seu dia vai chegar. É estatística. Então, esse negócio de operar alavancado um dia vai te quebrar”.


Poderia ficar horas ali e certamente teria outras perguntas, mas logo depois nos despedimos e seguimos para uma outra gestora.


Sobreviver é preciso


No mesmo andar da Squadra, existe uma gestora que temos na carteira do Nord Fundos há algum tempo.


Um time fantástico, operando lado a lado, desde os anos 1990. Já viram de tudo e mais um pouco nesse Brasil, então são ótimos para conversar.


Não tínhamos marcado de ir lá, mas passamos para fazer uma visita rápida. O clima era de preocupação, mas ao mesmo tempo com bastante tranquilidade.


Como eu disse, não eram gestores de primeira viagem. Já haviam ultrapassado o caos da crise da Ásia em 97 com todos os seus 3 circuit breakers, a Rússia em 98 com outros 5; a maxi desvalorização do real em 99 com 2; 2008 com outros 5….


A lista de eventos catastróficos no mercado era tão grande que até fiquei com receio de perguntar por quantos já tinham passado.


Estar com eles é sempre uma aula. No geral, a visão era parecida com o que tínhamos visto com outros gestores, talvez um pouco mais cautelosa.


Mas, já em direção a saída, encontrei o gestor de ações deles. Nos cinco minutos que conversamos, ele disse o seguinte:


“Nessas horas, é preciso sobreviver. Em hipótese alguma você pode sair do jogo. Quem estiver aqui amanhã e com caixa, será o vencedor”.


Esse é um ensinamento que você precisa levar para a vida. A preparação para as crises começa muito antes dela chegar, ainda quando você está montando a sua carteira.


Nessa horas, não adianta querer ser ganancioso. Tenha somente aquele percentual em bolsa que você ficaria tranquilo se déssemos replay nos últimos dias. Guarde caixa, mesmo que o dinheiro queime na mão rendendo 4 por cento ano.


A segunda parte é ter do seu lado gestores que são sobreviventes e sabem como navegar o barco por tempos tortuosos.


A terceira é não se expor demais aos riscos de ruína, abusando de alavancagem. Isso é brincar com a sorte e, como colocou bem o Aché, uma hora chega a sua vez.


Vamos juntos!


Um abraço.


Compartilhar este artigo
por Luiz Felippo
em 15/03/2020 para Nord Insights

Iniciou sua carreira num projeto de renda fixa do Insper com o BTG Pactual. Posteriormente atuou na área de pesquisa econômica internacional do Itaú Asset Management e foi analista de Renda Fixa da Empiricus Research. Formou-se Economista no Insper.

Receba nosso conteúdo GRATUITO!